janeiro 21, 2005

Impossibilidade de ser diferente

A impossibilidade de superar tudo através da escrita sufoca-me. A escrita não me salva da desilusão de não atingir os

patamares que imponho a mim mesma.
A impossibilidade de me superar a mim mesma sufoca-me.
Como ser alguém que está para além dos limites da carne?
Para além dos limites humanos?
Queria forçar os meus pés a percorrem caminhos meus, jamais percorridos por todos os outros. Queria atirar o meu

corpo num imenso nada inexplorado e boiar, boiar nesse limbo de inexistência física e psicológica até esta dor intensa

parar de dilacerar o meu peito.
Que me importam os braços que me estreitam se eu, eu, só eu, lanço um grito na noite de frustração e desespero?
Que me importam as palavras apaziguadoras da intensa destruição que espalho na minha psique, se eu, eu que tudo

construí me sinto impelida a destruir-me e rasgar-me sem parar?
A impossibilidade de ser diferente, nascer diferente, falar diferente, sufoca-me.
Tudo o que acreditei até ao momento desmoronou-se a meus pés.
Tudo o que pensei ser um dado adquirido mudou na minha vida. Mudou, simplesmente.
Quem sou eu agora? Quem é o ser que me olha assustado, mudo do espelho?
Quem tem as respostas às minhas perguntas? Acredito ser eu e procuro, procuro, cada vez mais e mais fundo e nada.

Nada. Imenso nada. Sempre o horrível nada.
A impossibilidade de acordar amanhã num sítio diferente, mais belo, mais colorido, mais meu, sufoca-me.
Onde estás tu quando preciso de ti aqui? Onde estão os teus dedos esguios que não me limpam as lágrimas, não me

apertam contra o teu peito enquanto me apagam as palavras, os suspiros, as mágoas?
Onde estás em todos os momentos em que sufoco pelas impossibilidades inerentes a ser eu?
Neste espaço limitado que é o meu ser, a minh'alma contorce-se na angústia de ser quem sou...
Hoje mais que todos os outros dias...
Hoje fico sozinha a afogar-me na impossibilidade de ser diferente.

Publicado por Fairy_morgaine em janeiro 21, 2005 12:37 AM
Comentários

adoro ler-te, imenso!
Venho-me despedir e agradecer pelas tuas palavras no meu cantinho..*****
Um abraço carinhoso e um beijo doce
Rose*

Afixado por: Black Rose em janeiro 21, 2005 01:23 AM

Não é uma mudança é uma adaptação, não é radical é suave, estas desilusões fazem parte do teu caminho... são únicas na sua essência, só tu as sentes, por isso, sim... estás a percorrer um caminho só teu...

Afixado por: ebola em janeiro 21, 2005 09:36 AM

Sinto as paredes a desmoronarem á tua volta...sei tão bem desse sentir... mas isso faz tudo parte desse nosso caminho de nome vida. Espero que consigas erguer as paredes de novo, sei que as erguerás com mais betão e serão mais fortes.
Jinhos

Afixado por: Blue em janeiro 21, 2005 11:01 AM

às vezes tento procurar as palavras na tentativa de me salvar... em alturas em que tudo me cai aos pés; em que podia jurar afogar-me no segundo a seguir...

Enquanto as tuas bóias forem as palavras, estarás salva... ;)

(As tuas histórias e os teus desabafos, transmitem-me qualquer coisa que nao consigo explicar...
Também eu vou procurando bóias constantes de sobrevivência :) ...)

Um beijo**

Afixado por: Roda dos Ventos em janeiro 21, 2005 02:15 PM

Ser um vendadaval é ser muitas e ser tanto que às vezes a intensidade explode no nada e no vazio(que também se chama solidão),mas tu és tudo e queres mais, acredita que voltas, com diferenças sim, mas a essência está lá.E a tua escrita transcende e eleva-te sempre.estou com um sorriso especial de fazer parte do teu mundo :).Beijo com carinho

Afixado por: hirondelle em janeiro 21, 2005 07:11 PM

Sinto o mesmo (se é que entendi bem o texto)...mas temos que nos conhecer e aceitar.Podemos não conseguir ser diferentes,mas se nos aceitarmos tudo será mais fácil (ou não...).Beijo*

Afixado por: Yuna em janeiro 21, 2005 10:42 PM

Quem não quer ser um indivíduo único, desiste do seu direito à vida.

Afixado por: OffLimitZ em janeiro 21, 2005 10:46 PM

Gostei imenso de te ler e de te reler :) Continua!!
Beijo

http://poesiaempedacos.blogspot.com

Afixado por: Cacau em janeiro 22, 2005 01:38 AM

Para que o fazeres-te diferente? não vale a pena querer algo que não nos pertence, para que sentir algo como nosso se a nós não pertence? podes vestir e despir todos os corpos que quiseres quando constroís mais uma frase....

Afixado por: contador de histórias em janeiro 22, 2005 07:27 PM

O que te prende? Podes ser diferente de ti mesma o quanto quiseres... a pergunta é: será o vestir uma outra pele que te fará feliz?

Afixado por: susana em janeiro 22, 2005 07:49 PM

gostei muito. parabéns!

Afixado por: joão gonçalo em janeiro 22, 2005 08:11 PM

"Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver"
(Estou a ouvir a música e não resisti)
P.S - Continuas de grito afinado **

Afixado por: D. em janeiro 22, 2005 08:12 PM

Suas palavras sempre profundas. Bjs!!!

Afixado por: Anie em janeiro 22, 2005 11:49 PM

Hoje és diferente do que foste ontem e do que serás amanhã. A mutação é permanente e sempre em direcção ao caminho que é só teu.

Afixado por: tounalua em janeiro 23, 2005 07:12 PM

Um texto incrível que retrata na perfeição as prisões das nossas vidas.
Jinhos...é fantástico ler-te.

Afixado por: Blue em janeiro 23, 2005 07:27 PM

Que fazer quando a unica pessoa capaz de nos limpar das lágrimas é aquela que nos faz chorar...

Afixado por: myryan em janeiro 24, 2005 01:05 AM

Aqui vai a bóia de salvação. Igual a tantas outras mas fica a intenção.
Escreves muito bem. Continua!
bjs

Afixado por: tiago em janeiro 24, 2005 02:55 PM

Antes de mais devo exaltar a forma como a escrita brota das tuas vivencias,sinto o mesmo em relação ao sufoco que é o libertar exigente dos murmurios interiores..

Afixado por: André Barbosa em janeiro 24, 2005 06:40 PM

Esta mania que temos de escrever.
Esta mania que temos de só assim nos sentirmos felizes.
Esta mania que temos de querer sempre mais...

Afixado por: oldmirror em janeiro 25, 2005 05:54 PM

A escrita não cura, mas é bom paliativo.
Quando é boa como a tua tem um valor muito grande, satisfaz quem escreve e encanta quem lê.

Afixado por: João Norte em janeiro 25, 2005 06:06 PM

orgulha-te de seres quem és e de seres como és porque afinal de contas.. és tu. bom texto btw. :)

Afixado por: ateu em janeiro 25, 2005 08:32 PM

Estou amaravilhada com as palavras escritas aqui. Sinto profundo respeito e angustia ao ler isso...adorei profundamente ter achado esse mar de gritos silenciosos...uma boa vida pra ti!

Afixado por: Morg em janeiro 25, 2005 08:41 PM

Obrigado pelo link. Mais uma vez, muito belas estas palavras.

Afixado por: Ofeliazinha em janeiro 25, 2005 10:15 PM

Gostei muito de tudo o que li. Parabéns pelo blog. Abraço e um :-)))

Afixado por: menina_marota em janeiro 26, 2005 10:40 PM

Não sei como é a tua vida, nem pelo que passas, por isso não posso falar da forma como nascem os teus textos.

Mas há algo que te posso dizer, é que a forma como transmites ideias, pensamentos ou sentimentos (pessoais ou não, reais ou não) tem um toque de qualidade e profundidade que me agradou bastante. Parabéns!

http://luznaescuridao.blogspot.com

Afixado por: Funny em janeiro 27, 2005 03:49 PM

Estou cansada e não me dei ao trabalho de ler todos os comentarios que te deixaram. Não sei se vou repetir algum, se te vou cansar [também a ti] com as minhas velhas palavras secas.
É estupido sentir que nos conhecemos tão plenamente que já não temos por onde fugir de nós.
Mas só é impossivel ser se diferente quando se deixa de ser [e se formos a ver, deixar de ser é uma forma diferente de ser (ou não ser, nao sei bem)] por isso enquanto te vais afogando em ti, de tanto que es, vais sempre poder ser diferente.
A falta que nos faz quem já se afogou em nós e quem sabe do som do silencio que gostamos. [Parece-me que esta falta é problema geral]

Beijo*

Afixado por: gaivota em fevereiro 2, 2005 03:28 PM