janeiro 14, 2005

Amanhã quando amanhecer digo-te adeus

O dia amanheceu cinzento. Devolvi-te.
Segurei a tua mão pequenina
e dei-te ao pedaço que te perdeu.
Eras tu e não eras tu.
Tu nunca és tu dentro de ti mesmo.
Nem dentro de mim.
Tu nunca és tu.
-
Empurrei-te para dentro de ti mesmo.
Vomitei-te toda a noite
nos lençóis, na cama,
na ausência.
Quem sou eu dentro da minha solidão?
-
És a minha droga.
E eu... não te posso mais ter dentro das
minhas veias.
Deixei-te nas mãos.
Nas tuas mãos.
Nas tuas mãos quedas junto ao corpo.
Murmurei-te: "estás aqui. o teu pedaço
que te morre todos os dias. que eu renasci
todos os dias. que alimentei da minha
seiva e do meu sangue e dos meus olhos."
-
És tu sem seres tu.
Odeio-te...
E esse ódio rasga-me por dentro
rebenta-me as veias.
-
Quem sou eu dentro de mim?
Sozinha...
-
Abandonei-te... Mas de noite
estendo os braços para te abraçar
e te acariciar os cabelos suaves de criança
junto a mim.
"não me deixes aqui...aqui sozinha.
não me deixes...".
Eu não sei o que é o amor.
-
Abriste os lábios como se fosses dizer alguma coisa.
Mas não disseste.
Tu nunca dizes nada quando te abandono.
E eu deixo-te todos os dias
e volto de manhã a mim mesma.
Aqui está frio. Ainda mais frio do que estava dentro de ti.

Aqui estou sozinha.
Não posso apertar-te a mão quando me dizes
"tenho medo da solidão.
tenho medo de te destruir."
Vou-te contar um segredo,
principezinho.
Eu destrui-me a mim mesma.

Onde estás agora, principezinho,
não sei adivinhar.
Só sei que tenho a garganta apertada de lágrimas.
Porque de alguma forma estúpida
só tu me conheces.

Que merda é o amor? Sabes-me dizer?
Porque eu quis descobrir
e abri uma fenda no coração
por onde saíste tu.
"Não posso ter-te aqui" gemi eu.
E vim embora.

O mundo entrou-me pela garganta.
Mora-me no peito.
O mundo inteiro menos tu
que tive comigo demasiado tempo.

Não digas nada... porque se disseres ainda posso
trair-me e pedir-te que voltes para dentro de mim,
posso alimentar-te de novo do meu sangue.

Não digas adeus.
Nunca tive jeito para despedidas.
Eu não te amo.
Nem sei o que é o amor.
A tua criança é como um filho tenro
que tive dentro do peito e que não sei,
não sei deixar voar...

Amanhã quando amanhecer
vou preencher o teu espaço
com qualquer coisa
que ainda não encontrei.
Sinto-te a falta.
Afinal quem foi a criança dentro de quem?
Tu dentro de mim? Ou
eu dentro de ti?

Amanhã quando amanhecer
digo-te adeus.

Publicado por Fairy_morgaine em janeiro 14, 2005 01:37 PM
Comentários

Diz adeus...mesmo que seja preciso dizer adeus a ti mesma. Quando parte alguém a quem amamos, partimos também no que somos que nos edificou esse amor.
Jinhos...sempre magnificas as tuas palavras!

Afixado por: Blue em janeiro 14, 2005 02:40 PM

e depois? .. *

Afixado por: Rita em janeiro 14, 2005 03:10 PM

"amanhã quando amanhcer
vais preencher o seu espaço
com qualquer coisa
que ainda não encontraste."
Porque não contigo própria, o que tu és e te faz feliz?!
jinhos.

Afixado por: Confessionário em janeiro 14, 2005 04:58 PM

E pk n um "até já"?beijo

Afixado por: lacshimi em janeiro 14, 2005 07:13 PM

Gosto muito de ter ler, sabes. O que escreves diz-me muito.

Afixado por: Falling Down em janeiro 14, 2005 07:14 PM

Oi linda! tudo bem contigo? Não importa se demoras a escrever ou visitar os blogs, importa que, ao voltares, sempre será cada vez melhor.
Quando dizemos ADEUS, morremos um pouco com ele. Beijinhos e bom ds.

Afixado por: anne em janeiro 14, 2005 07:16 PM

as tuas histórias enchem-me sempre de qualquer coisa mágica que me faz imaginar logo, sem pensar muito, as imagens e o espaço.

Obrigada pelas tuas palavras. no meu blog e no teu.

Volto sempre ;)

Beijo**

Afixado por: Roda dos Ventos em janeiro 14, 2005 07:32 PM

Acredito que ainda sabes amar. Mesmo dizendo adeus, será por amor. Um beijo

Afixado por: LolaViola em janeiro 14, 2005 10:53 PM

Dir-lhe-a adeus para o readmitir no seu sonho da noite seguinte... E porque ele nao se foi mesmo embora. Lembra-lhe que ja existia algo antes dele, existia ela! Recupera-a. Um grande beijo e espero que os exames te tenham corrido bem.

Afixado por: Xana em janeiro 15, 2005 10:52 AM

Dolorosamente belo
Um beijo doce RosE****

Afixado por: Black Rose em janeiro 15, 2005 01:29 PM

seria um sonho... a vontade de dizer "Adeus, um dia voltarei a ser feliz"

Afixado por: Shadow em janeiro 15, 2005 09:52 PM

Adorei tudo! as palavras transpiram uma paixão doentia, mórbida e ao mesmo tempo sublime. Claro que há partes em que foges ao estilo que escolheste para o poema e fazes dele um confessionário de emoções sem ordem, para depois, onde parecia haver falta de regra voltares à forma satírica, às acusações, retomares o medo, o sublime do conhecimento do que existe dentro de nós. O adeus não é mais que um pedido de abrigo.

Afixado por: Cristiana em janeiro 16, 2005 09:54 AM

Dizer adeus nunca é fácil,mas muitas vezes é necessário...beijo**

Afixado por: Yuna em janeiro 16, 2005 12:23 PM

A solidão é dura quando não sabemos viver com ela, mas também pode ser uma companheira, se lhe descobrirmos a beleza...

Afixado por: Carlos em janeiro 16, 2005 04:01 PM

é quando o dia amanhece que tudo se torna mais claro.. mais intenso...

te beijo.

Afixado por: Nefertari em janeiro 16, 2005 09:00 PM

Abrir os olhos de manhã pode ser bastante doloroso...

Afixado por: ebola em janeiro 17, 2005 10:02 AM

Por vezes amar faz-nos perdermo-nos de nós apenas para podrmos ir ao encntro de alguem...ha amores viciantes, deixa-nos de ressaca, como uma droga...não é façil dizer adeus, por vezes é ter que escolher entre o que somos, e acreditamos sentir, e aceitar que este amor é ilusorio vive dentro de nós apenas alimentado pela nossa sede de amar..quando saber que um amor, é isso mesmo amor, num todo e num nada...aquele doce aroma a loucura, a tal sede de viver?
Tantas vezes quis dizer adeus, e quando penso que disse adeus, renasce em mim a msma sede do reencontro..
Contradiçoes do ser..
Bjinhos
Justbe

Afixado por: Justbe em janeiro 17, 2005 12:49 PM

Isto chama-se regressar em força.

Não comento o texto porque as minhas palavras são seriam demasiado banais para ele.

Um beijo pelo regresso.

Afixado por: João Norte em janeiro 17, 2005 02:41 PM

Será que sou o unico que não tá aqui a beijar o cu a ninguém?

Afixado por: Acolito Espirita em janeiro 18, 2005 04:34 AM

acho q este foi dos que mais gostei ate hoje. Bem mas eu gosto sempre tanto dos outros. Beijinhos

Afixado por: Ana em janeiro 18, 2005 03:16 PM

Oi amiga...
Como já tava em falta contigo hj passei cá para ler tudo o k havia de novo ;) !
Beijinhos grandes...

Afixado por: mauro_mars em janeiro 18, 2005 03:56 PM

deixaste-me sem folêgo e sem palavras para comentar... intenso e puro

Afixado por: Contador de Histórias em janeiro 18, 2005 04:53 PM

obrigada pela visita e palavras.
boas provas.
bj.

Afixado por: maat7 em janeiro 18, 2005 07:50 PM

Amanhã quando amanhecer, diz-lhe adeus...simplesmente. E começa do zero. Reconstrói-te a partir de ti e não do que te é exterior.Todos nós já assumimos essa responsabilidade, a de no dia seguinte dizer adeus a qualquer coisa que nos faz mal...seja ela qual for. Eu continuo a debater-me com isso, todos os dias. Mas estou mais perto de conseguir, e tu também.

Um abraço forte
Joana
http://allinthemoods.blogspot.com

Afixado por: Joana em janeiro 18, 2005 10:11 PM

...acompanhavas-nos nesta ilusão?...

beijinho*.

Afixado por: Estrela do mar em janeiro 19, 2005 09:25 AM

Olá! Antes de mais obrigado pela visita ao meu canto. Não podendo deixar de comentar este teu post:
É simplesmente fabulosa a força que emites quando escreves, poucos me cativaram assim. Nunca áres de escrever. Perderíamos uma escritora fabulosa, que acima de tudo deve publicar os seus textos. Depois avisa-me quando sair algo teu. Adorei. Simplesmente fabuloso!
Jinhuz

Afixado por: soldeinverno em janeiro 19, 2005 03:42 PM

Olá! Antes de mais obrigado pela visita ao meu canto. Não podendo deixar de comentar este teu post:
É simplesmente fabulosa a força que emites quando escreves, poucos me cativaram assim. Nunca pares de escrever. Perderíamos uma escritora fabulosa, que acima de tudo deve publicar os seus textos. Depois avisa-me quando sair algo teu. Adorei. Simplesmente fabuloso!
Jinhuz

Afixado por: soldeinverno em janeiro 19, 2005 03:43 PM

Ou não... :)
Na solidão, tudo o que for recorrente e passível de ser amado.

Afixado por: OffLimitZ em janeiro 19, 2005 08:21 PM

faço minhas as palavras que me deixaste -como te entendo!!

Afixado por: myryan em janeiro 20, 2005 01:54 AM

Não sei que dizer, as lágrimas correm...

Http://poesiaempedacos.blogspot.com

Afixado por: Cacau em janeiro 22, 2005 01:44 AM