dezembro 16, 2004

Os espaços entre nós (o filho do Homem)

No espaço que divide a minha respiração da tua
pulsa um mar intenso de questões,
sorrisos no lugar dos olhos,
olhos nos dedos,
incongruências de meses passados a tecer
o presente.

(O presente é uma caixa de pandora
que fecho a sete chaves,
compelida a encerrar dentro dele os
mistérios que escondo de ti,
os homens que passaram pela minha cama,
que mancharam os meus lençóis.)

Nesse espaço imenso que preenches com o
vapor da tua respiração quente
navega uma incerteza amarga
que nos cresce nas costas,
nos rompe a pele
e surge imponente e altiva.

Sóbria.

(Estendo-te um copo cheio de veneno.
Vejo-te lamberes os lábios,
sorrires-me confiante que as minhas mãos
jamais trairiam os teus dedos esguios,
confiante no meu sorriso
de anjo louco
bebes.
Bebes.)

A noite acaba aqui,
o nosso amor acaba aqui,
o nosso prelúdio acaba aqui
e nasce a criança de asas cinza
com olhos vermelhos e esgares de superioridade.
Ela é o filho do Homem.

Criação danada.
Ela é...
A imperfeição submissa do divino.

Amamento-a do meu peito descaído
de mãe.
Desenho-lhe os olhos vermelhos com os dedos.
Alimento-a da tua carne e do teu sangue,
deixo-a crescer inteligente e viril.

O futuro desenha-se no espaço que
o meu corpo não consegue fechar.
Sinto-a chegar perto de mim, a minha criança-filho-do-
-homem-de-olhos-vermelhos-baços.
Traz na mão a adaga da misericórdia.
Beija-me os lábios e murmura num soluço
de choro negado:
"Mãe... não podia deixar que morresses como o Pai
enganada pela inocência da criança que sou eu
e que eras tu quando ele te amava.
Não podia deixar que os teus cabelos perdessem a cor e
as tuas mãos a força, o teu ventre a fertilidade das terras e das
estrelas.
Mãe... não podia deixar que me morresses.
Tu és tudo que amo, não suporto ver-te
de cabelos brancos e pele escamada.
Mãe... mato-te agora, morre nos meus braços,
deixa o teu cabelo negro pender-me no dorso,
mãe, amo-te tanto, meu único amor abençoado,
minha deusa, minha ninfa, minha amante
não quero ver-te perdida na idade e na
loucura, na demência dos anos roubados.
Quero que morras em mim, bela, cheia,
os teus olhos leitosos a beijar os meus
uma última vez
quero guardar-te para sempre com essa cara
de anjo, os teus lábios entreabertos como que à espera
de um beijo derradeiro,
as mãos quedas junto ao corpo
como se queimassem de urgência por um falo
que entrasse em ti e te rasgasse e fecundasse
e pudesses de novo encher
a Terra de filhos bons e hábeis,
prudentes e sábios.
Quero que morras aqui mãe.
Quero saber que te ofereci a morte,
que ta dei a beber de um cálice dourado
que te banqueteaste com ela e morreste-me com
esse sorriso cintilante, mãe.
Não feches os olhos... Deixa-a vir e segura-a
pela cintura, valsa com ela pelos espaços que deixaste
entre o Pai e a tua sombra e o meu berço.
Mãe..."

O meu espírito escapa-se-lhe por entre os
suspiros,
aprisiono-a no meu abraço
e sorrio.
Morro a sorrir.
No abraço do meu filho.

Publicado por Fairy_morgaine em dezembro 16, 2004 10:43 PM
Comentários

Gosto tabto de te ler.. mas tanto
Beijo te Rose*

Afixado por: Black Rose em dezembro 17, 2004 12:35 AM

é tanto.. um erro:)

Afixado por: Black Rose em dezembro 17, 2004 12:35 AM

nem sei o que te hei-de dizer...brutal, violento apaixonante, brilhante, nem sei..

Afixado por: myryan em dezembro 17, 2004 02:45 AM

queria ter uma filha assim.. *

Afixado por: ateu em dezembro 17, 2004 10:51 AM

Pois e fada morgana, belo texto mas muito preocupante. Que bela e angustiante licao de moral! No entanto, acho que quem comete erros nao tem que se redimir somente com a morte, acredito que a vida seja capaz de perdoar e de nos dar uma segunda chance. Bjinhos!

Afixado por: xana em dezembro 17, 2004 11:28 AM

...nada do que poderei escrever vai ser fiel qo que senti ao ler-te... este post é "monstroso"...
Jinho

Afixado por: Blue em dezembro 17, 2004 12:39 PM

quando abres a caixa de pandora
nos lados opostos que tem
perscruto o silêncio, assimilo os gritos
os teus, no [meu] tempo incerto, no agora
levitação avançada, incompreendida, mais além
se metamorfose de fada, mulher, mãe de mitos
- construção lenta do espírito puro

Afixado por: Ardente_Mente em dezembro 17, 2004 03:13 PM

Uma pessoa que escreve o que tu escreves só pode ser... irreal. Tu não existes.;) Adorei, mais uma vez.

Afixado por: nick em dezembro 17, 2004 05:11 PM

Sem dúvida alguma cada vez mais t apuras na maneira mitológica k é a tua escrita...Dá muito k reflectir este teu texto.Beijinho

Afixado por: lacshimi em dezembro 17, 2004 10:21 PM

Fiquei sem ar...Sublime.

Afixado por: Micas em dezembro 17, 2004 10:37 PM

Brutal e doce... tanto tempo separadas e enfim conjugadas numa prosa irrepreensível. Adorei :)

Afixado por: OffLimitZ em dezembro 18, 2004 11:59 AM

É a morte...e a felicidade...sempre caminhando tão juntas...

*Beijo enorme*

Afixado por: Luana em dezembro 18, 2004 06:06 PM

como sempre... um prazer ler.te

Afixado por: Shadow em dezembro 18, 2004 11:24 PM

Paz
União
Alegrias
Esperança
Amor*sucesso
Realizações*luz
Respeito*harmonia
Saúde*solidariedade
Felicidade*humildade
Confraternização*pureza
Amizade*sabedoria*perdão
Igualdade*liberdade*boa sorte
Sinceridade*estima*fraternidade
Equilíbrio*dignidade*benevolência
Fé*bondade*paciência*brandura*força
Tenacidade*prosperidade*reconhecimento
||
||
||
Que a nossa árvore de
natal esteja repleta
de todos estes
presentes.
São de graça.. e essenciais..
Silvia teus poemas
foram sempre presentes para mim..
bjs..

Afixado por: em dezembro 19, 2004 01:54 PM

Morri e renasci a ler-te! Arrasate fada cintilante. Este texto está brilhante, intenso, muito bem conseguido e extremamente bem escrito. Parabéns escritora.**

Afixado por: hirondelle em dezembro 19, 2004 06:31 PM

Pensei, pensei, e não me saiam palavras para descrever o que li! Foi tão profundo, intenso, até agressivo por vezes, sangrento, mas com sabor a gratidão e a sucesso conquistado. Talvez eu tenha até ficado um pouco confusa, quase que achei que era uma fase de uma vida aí descrita. Muito bem escrito principalmente.

Afixado por: Viceversa1000 em dezembro 19, 2004 08:03 PM

Um poema repleto de pleonasmos, metáforas, uma verdadeira caixa de pandora..tal qual tuas palavras. Voltarei aqui garanto. Fica bem.

Afixado por: Plantacarnivora em dezembro 19, 2004 08:18 PM

Tu tens um “dom”. Já sabes qual é?
Jinho, BSHell

Afixado por: blueshell em dezembro 19, 2004 11:27 PM

Tu tens um “dom”. Já sabes qual é?
Jinho, BSHell

Afixado por: blueshell em dezembro 19, 2004 11:28 PM

Terrivelmente bonito...

Afixado por: ebola em dezembro 20, 2004 10:08 AM

Filho, essa gelatina, que um dia se transformou em girino, que depois se revelou um tronco cabeçudo, e que agora é gente. Mas acima de tudo, é poesia e segredo no coração de uma mãe...

Bonito!

Afixado por: Paula em dezembro 20, 2004 01:47 PM

Muito profundo e muito bem escrito. Morres para o mundo, renasces para a Luz. A transição. Bjos e umas Festividades em Paz e Alegria

Afixado por: amita em dezembro 20, 2004 11:24 PM

Belas palavras.
Aproveito para te desejar um Feliz Natal.

Beijocas...

Afixado por: mauro_mars em dezembro 21, 2004 11:52 AM

Espantoso... delirante... estonteante!
Um grande beijinho e votos de Boas Festas.

Afixado por: Maria_Oliveira em dezembro 21, 2004 01:07 PM