novembro 24, 2004
Pedido aos leitores/amigos ;)
Como podem ver pelo post anterior estou numa fase de interagir mais com as pessoas que me lêem e comentam :)
Queria pedir-vos algo, em tom de desafio.
Tenho aqui em casa um caderno lindo que comprei já há algum tempo e só agora me resolvi a inaugurá-lo. Vai andar comigo no metro...na rua...em todo o lado. Assim, sempre que sentir inspiração ou simplesmente vontade de escrever qualquer coisa (não é bem igual) poderei fazê-lo, esteja onde estiver.
A minha primeira ideia foi escolher alguns versos dos meus poetas favoritos para ilustrar as partes internas das capas... Depois pensei melhor.. e resolvi pedir-vos (a quem tiver paciência, claro) que escrevessem uns versos dos vossos poetas favoritos e me enviassem pelo sistema de comentários ou para o meu mail.
Dessa forma só fico a ganhar.. Poderei ficar a conhecer-vos melhor e certamente conhecerei novos poetas o que só me irá enriquecer.
Agradeço desde já a quem resolver "colaborar" neste pedido.
Beijinhos a todos...
PS - O meu mail, para quem ainda não sabe, é fairy_morgaine@netcabo.pt
Publicado por Fairy_morgaine em novembro 24, 2004 10:20 PM
Owahhh fofah!
Desculpa eu não ter vindo cá ontem, quer dizer eu até vim e li, mas não comentei...
Eu vou ter que começar a arranjar tempo para poder vir cá ler, senão tu matas-me. E eu já te disse ontem que estou mesmo com necessidade de ler. Bem, acho que fazes muito bem em lançar esse desafio, porque tenho a certeza que vais ficar com um caderno lindo.... ************************ doru.t mtxoooooooooo
Querida Amiga,
No Fraternidade, podes encontrar alguns Poemas, meus e de conhecidos Poetas, não sei se isto te poderá ajudar.
O endereço: fairy_morgaine@hotmail.com também é teu?.
Beijocas,
So para mandar um beijo linda*
Tenho alguns poemas no meu blog se quiseres ir lá ver força. Principalmente Fernando Pessoa (adoro) Sucesso para o teu projecto.
Beijos
"Piedade é a minha forma de amar.
É o que me sustenta contra o mundo.
Mas estou cansada,
apesar de minha alegria de hoje,
alegria que não se sabe de onde vem,
como a da manhãzinha de verão.
Estou cansada, agora agudamente!
Vamos chorar juntos baixinho
por ter sofrido e continuar tão docemente.
A dor cansada numa lágrima simplificada"
Clarice Lispector,
in Perto do Coração Selvagem
Sivinha.. vou adorar te enviar isso..
eu tenho tantos preferidos.. rsss!!
bjs bjs..
Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que: que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes.
Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Clarice Lispector,
in A Descoberta do Mundo
Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.
Eu não sei por quê,
Meu desde onde venho,
Sou o ser que vê,
E vê tudo estranho.
Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.
Fernando Pessoa
Achei a tua ideia interessante, aqui vai um dos poemas que mais gosto.
Jinhos
ps- Obrigada pelas palavras amigas deixadas lá em casa!
Excelente ideia... recomendo Florbela Espanca e José Régio (são os meus favoritos), não esquecendo Fernando Pessoa.
Quanto a poema favorito, existem vários mas há um que me acompanha sempre...
CÂNTICO NEGRO, de José Régio
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: "Vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre nas vossas veias sangue velho dos avós.
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!
Beijos, Ritinha
:) fiquei,antes de mais,muito contente com as tuas palavras no meu cantinho...;) Os meus poemas...uhmm na linha de Fernando Pessoa também.Mas edgar allan poe é qualquer coisa...
Um Sonho num Sonho
Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho.
Fico em meio ao clamor, que se alteia
de uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou e suponho
será apenas um sonho num sonho?
Isto para não postar O corvo... ;)
Beijinho grande
:) Tives-te uma ideia muito boa, e original... Eu fazia-te uns versinhos de muita boa vontade, mas sinceramente n tenho jeitinho nenhum! :( Mas dou-te o maior apoio nesse tal carderninho, que irá ser o teu guia! ;)
bem, eu nao sou mto chegada a poemas e assim mas um autor que consegue prender me aos versos é Eugenio de Andrade. Por isso escolhi uns versos para ti =)
"Ja gastamos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou nao chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastamos tudo menos o silencio."
optima ideia vou enviar-te alguns.. para o mail.
" Para o país do esquecer o nunca nascido, levo a espada e a armadura de ferro, levo o escudo e o cavalo negro..."
"Toranja"
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Poema de Eugénio de Andrade
Fairy, Mandei-te um poema por e-mail ( achei-o enorme para o colocar aqui nos comentários ). Diz-me s eo recebeste, se fazes favor. Pode ser? Obrigada.
Beijo e bom domingo
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