novembro 17, 2004

Sonhos sem sonhador

Sempre pensaste que te dediquei poemas aqui está um para ti.

Parto a vida em redor de mim!
Não quero ser perfeita,
nem escritora,
nem pseudo-inteligente,
nem verdadeiramente inteligente,
nem estupidamente inteligente
ou inteligentemente estúpida!

Eu só quero ser eu.
Só quero escrever "Eu" e saber
que merda é essa.
Eu só quero que me leiam e me
sintam.
Eu não quero
nem nunca quis que
me compreendessem.
Só que me amassem
consoante me tocam.
E quando me tocassem
o fizessem sem limites, nem
restrições.
Orgasmos na ponta dos dedos.

Eu nunca quis ser poeta,
nem escritora, nem coisa nenhuma
para além do imenso nada que é tudo
em mim.
Eu nunca mas NUNCA quis ser mais
do que poderia ser se os meus olhos
fossem duas pérolas
dois sorrisos perdidos.

Eu nem sequer quero ouvir
a minha voz a ler o que escrevo.
Eu não me leio para as paredes
porque as paredes são o meu sufoco
e o meu amparo.
Eu sou a ausência
das minhas próprias palavras.

Não vês que vivo nelas?
Não vês que apenas sinto por elas?
Não vês que as respiro,
as mastigo, as atiro para fora
num gesto que me rasga por dentro?

Não quero aplausos.
Não quero que me digam "entendo-te".
Quero apenas "amo-te".
Se não me podem amar não
me toquem, não me
aqueçam no calor de uma chama
inexistente.

Não quero nem quis
sombras de mim mesma.
Quero um painel de cores
com todas as tonalidades dos olhos de deus.
Eu quero...
Eu sou.
São as únicas dimensões
que conheço na escrita.

Porque não posso ser outra
que não eu.
Não me posso inventar nem
redefinir.
Não me posso apaixonar sem
ser com o meu coração.
Nem tocar sem ser com os meus dedos.

Por isso não me digas
que esperas de mim outra coisa qualquer
que não sentimento puro, essência
da minh'alma.
Não me digas que te desiludo,
que sou a expectativa
que morreu sem sequer nascer.
Não me digas palavras.

Eu serei sempre opostos, extremos,
pontas perdidas,
sonhos sem sonhador.

Sabes isso?
Não?

Eu também não.
Por isso me relembro nas palavras.

Publicado por Fairy_morgaine em novembro 17, 2004 12:31 AM
Comentários

Fantástico :)

Afixado por: xc em novembro 17, 2004 01:43 AM

Um excelente texto...
E pode ser para ela, mas é um retrato de ti!
Vou pendura-lo na minha parede, para te reconhecer quando passar por ti.

Beijo grande!

Afixado por: Sandro em novembro 17, 2004 09:34 AM

Que vejam , que leiam o que é real.Fiquei com os meus olhos "roucos" de ler e reler....

beijos

Afixado por: contador de histórias em novembro 17, 2004 10:29 AM

Há palavras que têm o condão de nos deixar surdos...estas até cegas me deixaram!
Jinhos

Afixado por: Blue em novembro 17, 2004 10:46 AM

Sempre que escreves, há sempre alguém que sente. Beijo sentido

Afixado por: Ninagasol em novembro 17, 2004 12:51 PM

"Se não me podem amar não
me toquem, não me
aqueçam no calor de uma chama
inexistente"
Realmente é muito triste quando isto acontece.

Afixado por: Ofeliazinha em novembro 17, 2004 01:26 PM

Perfeito arrepiada Beijo te Rose*

Afixado por: Black Rose em novembro 17, 2004 01:55 PM

Serás sempre tu, com essa forma "perdida" de nos contares todos os "pontos" que te fazem, com esses opostos todos em cada verso, engraçada a descrição que fazes de ti... Engraçado como, às vezes, nos podemos encontrar nos pontos perdidos dos outros...


Afixado por: ebola em novembro 17, 2004 02:04 PM

Sei que escreves divinamente, Sílvia.
Basta-me.
Beijo-te sabias?!

Afixado por: LetrasAoAcaso em novembro 17, 2004 06:06 PM

querer totalitário.

Afixado por: madness em novembro 17, 2004 06:49 PM

Embora não queiras, eis o meu aplauso, pelo lindo poema. Só o tema me entristece porque gostaria que os outros fossem sempre felizes e não se abandonassem a si mesmos.

Afixado por: pedra em novembro 18, 2004 09:23 AM

Oi Linda, as palavras servem para isso, adoro as palavras, estão todas aí para nos satisfazer. Um belo desabafo.
Se for verdade, eu te amo, se não for, tb te amo, por que meu amor é incondicional, amo assim mesmo, querendo ou não. rsrs.
Um texto assim, toca, vai lá dentro, sobe a cabeça, deixa-nos zonza, desce para as pernas, deixa-as bambas. É... consegues tudo isso. Menina escritora, poeta, inteligente e muito mais...
Sil, adorei ser chamada de minha princesa por ti, nossa! Senti-me a própria, kkkkkk...
Uma beijoka querida amiga.

Afixado por: anne em novembro 18, 2004 03:03 PM

A princípio compreendia-te, mas não te sentia...
No fim, senti-te, mas não te compreedi.
...e a verdade é que também não me compreendo!

Bonito texto, porque de certa dorma, li-te!

Afixado por: Paula em novembro 18, 2004 05:04 PM

posso tocar(te)? :))

Afixado por: Ardente_Mente em novembro 18, 2004 06:38 PM

Subscrevo as palavras de Paula...Beijinho

Afixado por: lacshimi em novembro 18, 2004 07:10 PM

Escrever ajuda a seguir um caminho no labirinto. E sim, partilho : não quero que me compreendam, quero só que me gostem, com tudo.....
Beijos

Afixado por: Monalisa em novembro 18, 2004 08:50 PM

e nao podemos aprendar a amar os opostos?os extremos?Nao podemos juntar as pontas?Nao podemos sonhar juntos?
gosto =)

Afixado por: Ana em novembro 18, 2004 11:01 PM

Ajeito-me na cadeira e demoro-me largos minutos nas tuas palavras, toco-lhes como se se tratassem de pontos estratégicos, toco-lhes como se a chave do poema fosse comparável a um ponto G. Mas comparável é apenas a sensação eléctrica de estremecimento brutal, é apenas a sensação de convulsão e de posterior apaziguamento.

Nem sempre te consigo tocar porque nem sempre estou disposta a estremecer e a sentir no meu corpo o arrefecer da pele e a consequente sensação de pele de galinha. A verdade é que me demoro muito em cada palavra, a verdade é que as sorvo com uma sofreguidão imensa, como se o estranho líquido fosse o veneno doce do apodrecimento da alma. Como se as tuas palavras fossem o texto que se lê na folha de uma autópsia, uma radiografia autêntica do eu crú que mortos (alguns vivos) somos...

Um beijinho Pequenina,

Afixado por: Catarina em novembro 19, 2004 01:21 AM

Lindas palavras.

Beijocas grandes...

Afixado por: mauro_mars em novembro 19, 2004 10:27 AM

Queres tanto...

Afixado por: meninaperdida em novembro 19, 2004 06:12 PM

Não vês que vivo nelas?
Não vês que apenas sinto por elas?
Não vês que as respiro,
as mastigo, as atiro para fora
num gesto que me rasga por dentro?

.... Se não me podem amar não
me toquem, não me
aqueçam no calor de uma chama
inexistente..... mt bom! mt mt bom mm... foi das melhores coisas em português que já li. parabens... (e obrigada pelas visitas)

Afixado por: Shadow em novembro 19, 2004 10:11 PM

-Sim eu
"quem tu?"
-Sim.. Sim eu..
"não percebeste ainda quem tu és?"
-o que eu sou?
"Tu não és nada"
-Porquê?
"porque assim tu queres"

Afixado por: Black Rose em novembro 20, 2004 11:42 AM

'não quero que me digam "entendo-te".
quero apenas "amo-te".'

o que penso para mim todos os dias.. *

Afixado por: louka de plantão em novembro 20, 2004 06:32 PM

Este poema, feito ao correr da pena, lê-se, relê-se, o olhar vai ficando turvo e toma-se a consciência que "MESMO DIFERENTES, SOMOS TODOS IGUAIS".
Obrigada por este momento.
Beijo

Afixado por: Oceanos em novembro 22, 2004 02:06 AM

Por vezes servimo-nos da mesma coisa para fins completamente diferentes. Um martelo tanto pode servir para pregar como para retirar um prego, tanto pode servir para construir como para destruir. Assim é também a escrita. Quando à nossa volta prolifera a mediocridade temos tendência a esquecermo-nos da nossa própria genialidade, quando toda a equipa joga mal para quê jogar bem, mesmo que o saibamos, mesmo que isso seja um dado adquirido. Que se lixe! Basta sentir, basta servirmo-nos das palavras e exprimir tudo o que nos vai na alma, não importa se com arte, com engenho, com inteligência, com pertinácia ou com o que quer que seja, que enriqueça e valorize um pouco mais a nossa escrita? Não acho. Mas então como escrever bem, como saber que se está a escrever bem, qual o segredo, qual o propósito dessa ambição? Isso é relativo. Cada um sabe de si. Mas quando somos rodeados de lambe botas, de lambe cus, de xiripitis ignorantes, que mais não fazem do que lamber-nos as botas e os cus, que na maior parte das vezes só nos encandeiam com a sua falsa luz em vez de nos iluminarem o caminho, então cada vez se torna mais difícil essa tarefa, que é escrever com qualidade, sem lamechice, sem auto-comiseração desmesurada ou sem outra intenção senão gritar, gritar, gritar, sentir, sentir, sentir, sentir, sentir, gritar, gritar!... A ser assim, grandes poetisas, grandes escritoras passaram então pelo atelier do Tomás Taveira, não achas, Sílvia. Se conhecesses alguns dos críticos que eu conheço, se converssasses com eles uma só noite, o mais certo seria ires para a cama cheia de dúvidas em relação a ti mesma e ao valor da tua escrita, mas depois de uma noite em claro, imaginando mil e uma torturas aos que aviltaram contra ti e contra a tua arte, acabarias por perceber que, afinal, eles até são capazes de ter razão e que a nossa arte é um filho de quem nós não admitimos que digam mal, mesmo sabendo que ele é uma peste do caralho!

A gente só aprende à cabeçada, Sílvia, só à cabeçada. Pimba! Pimba!...

Apelo ao teu desportivismo. Já te disse que o talento mora em ti, não disse? Penso que já disse tudo. O resto é contigo.

Afixado por: joZef vengoZ em novembro 24, 2004 05:00 PM

eu quero, eu sou. eu quero não querer ser o que já sou, isto que sou não sendo.

Afixado por: monstro em novembro 25, 2004 07:18 PM

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