novembro 13, 2004

Mad world

Li aquelas palavras, aqueles risos.
Li e senti-me encolher pequenina... pequenina.
Queria gritar que não é assim, não é.
Mas invés disso sinto uma dor no peito a crescer,
a crescer, a inundar-me.
A sentir-me pequenina.
"Mãe o doutor não vai fazer doer pois não?
Pois não, Mãe? Pois não?
Mas Mãe... Eu não quero que ele me veja assim,
nua, desprotegida, não quero
que ele me veja onde mais ninguém me vê
a não ser quem amo.
Mas Mãe eu queria ser uma menina normal...
Mas Mãe..."
Ouves-me Mãe?

Deixo que as lágrimas inundem os meus olhos
até ouvir as íris silencarem-se perante
a imensidão da minha dor...

E sinto-me tão pequenina.

Eu sei, eu sei que não devia doer assim.
Não por causa de uma piada...
Mas... dói.

"Mas mãe porque fazem os meninos
anedotas da dor dos outros?
Porquê mãe?"
Ouves-me?

E eles riem. Eles aplaudem.

Sinto-me pequenina, sozinha neste mundo
meu. De homens de batas brancas a
corromperem-me. Devagar.
"Mãe... Eu sei que é para me curar de um dói-dói,
mas mãe... Ficas comigo? Ficas aqui a agarrar-me a mão?"
Essas palavras que ninguém ouve
são a base das suas anedotas.
Esses sorrisos pintados de lágrimas
que ninguém vê.
Esses arranques de dor no meu ventre.
A expulsar uma negação de Vida.

Ouves-me?

Eu não sei gritar que não se fazem piadas
com a dor dos outros. Com a amargura.
Com a anormalidade do ser.
Eu não sei.
Eu só sei gritar palavras ocas num papel...
É lá que ecoam todas as minhas palavras.
Todas as minhas palavras.
As minhas palavras...
As minhas.

"E elas abrem as pernas e dizem... olhe tá a ver aqui xôr dotôr?"
E as pessoas riem-se.
E eu encolho-me.
Eu encolho-me.
Sabes o que é um mundo de inversão num corredor
branco?
Sabes o que o mundo a girar no teu ventre?
Sabes o que é... O mundo somente girar?
Sou tão pequenina... Pequenina, agarro-te na mão e murmuro baixinho...
"Mãe... e se doer tu fazes a dor ir embora?
Mãe... apagas de mim estas lágrimas? Esta mágoa...?
Mãe... apagas de mim estes poemas?
Mãe, dás-me outras palavras?
Outros poemas?
Oh Mãe... não me deixes aqui sozinha.
Não me deixes aqui, aberta, exposta, minha Mãe".

"Mãe.. porque é que os homens se riem
quando outro cai? Mãe... porque é que os homens se riem
quando alguém tropeça?
Mãe... explica-me.
Explicas?"

E fico ali. A inverter o mundo nas mãos.
A incompreender as pessoas.
Se eu pudesse.
Se eu pudesse explicar. Se eu soubesse
gritar.
Apagas de mim esta imensidão de sal
cravado no meu rosto?
E eu choro.
Por mim. Pela minha privacidade violada.
Pelos homens que tropeçam e caem.
Pelos homens que se riem.
Pelos que aplaudem.
Pelos que são meninos encolhidos
no colo das suas mães.

Vem a música e lava-me numa corrente de água.
Numa corrente de sons lentos e sinto a mão.
A mão que afaga o cabelo.
O sorriso que diz...
"Já passou, filha... Já passou.
Estou aqui."
E a dor devagarinho transforma-se num lago,
num lago...de braços a estreitarem-me o corpo.
De dedos no meu cabelo.
A música que me fecha as feridas de novo.

"All around me are familiar faces (...)
going nowhere, going nowhere
Their tears are filling up their glasses
no expression, no expression
Hide my head I want to drown my sorrows
no tomorrow, no tomorrow

And I find it kind of funny, I find it kind of sad
these dreams in which I'm dying are the best I've ever had
I find it hard to tell you, I find it hard to take
when people run in circles it's a very very
Mad World, Mad World
"


"Mad World" - Michael Andrews by Gary Jules, Donnie Darko soundtrack

Publicado por Fairy_morgaine em novembro 13, 2004 11:41 AM
Comentários

sinto-me honrada por ser a primeira a comentar este post. Acreditas que quase me fez chorar?
Pelos homens que tropeçam, pelas crianças desamparadas (que somos todos nós), mas também pelos que riem e troçam (que também somos todos nós)... é um texto dedicado à humanidade e ao medo e à desconfiança e à crueldade que nos fazem ser tão humanos. O que me custa mais no meio disto tudo é saber que ninguém escapa a esta humanidade. Pois todos somos as crianças que choram e as crianças que riem das que choram, e tudo simultâneamente.
Obrigado pela pureza.
bj**

Afixado por: Silent Girl em novembro 13, 2004 12:31 PM

Parabéns pelo teu blog... é mesmo um grito de silêncio:) beijitos*

Afixado por: rainbowsky em novembro 13, 2004 04:30 PM

temos k falar...

Afixado por: ricardo em novembro 13, 2004 05:49 PM

talvez seja melhor não voltares ao meu blog... pode voltar a acontecer o mesmo...

Afixado por: ricardo em novembro 13, 2004 05:54 PM

And I find it kind of funny, I find it kind of sad
these dreams in which I'm dying are the best I've ever had... as vezes apetece tanto ser pequenina outra vez para puder correr sem problemas para o colo da mãe... chorar sem dizer porquê.. ter carinho a toda a hora sem pedir.. sem qualquer preconceito... ou inibição... apetece tanto.. que chega um tempo na vida que a situação muda... em vez de serem alguns os momentos em que queremos ser pequeninos... são sim, alguns, os momentos em que queremos ser donos independentes da nossa alma..

Afixado por: Shadow dweller em novembro 13, 2004 09:27 PM

A incompreender as pessoas.. é a frustração de um ser curioso.
Muito sentido este post..

Afixado por: OffLimitZ em novembro 13, 2004 10:02 PM

pequenas lagrimas rolam pela minha face.. Rose*

Afixado por: Black Rose em novembro 13, 2004 10:23 PM

Falta de ar!!....

Beijos

Afixado por: Sara em novembro 14, 2004 08:11 PM

Essa música é sem dúvida kk coisa de...fantástico..O texto então...Parabéns.Beijinho

Afixado por: lacshimi em novembro 14, 2004 09:13 PM

"A inverter o mundo nas mãos."
Simplesmente, lindo. Um bjo

Afixado por: Ninagasol em novembro 15, 2004 12:15 AM

"Olho à minha volta
risos descontrolados fazem com que eu
mergulhe na loucura
Mãe..faz eles pararem
mãezinha..onde estás?..
sinto-me tão pequenina
íbis de cristal que perfura a minha alma
fazendo me recuar no passado
Mãe..
mãe...
tenho medo de adormecer.."
Rose*

Afixado por: Black Rose em novembro 15, 2004 01:16 AM

Acho que a Sara disse tudo... "Falta de ar...", do pequenino que não é grande o suficiente para se agarrar a uma nuvem...

Afixado por: ebola em novembro 15, 2004 11:28 AM

Deixaste-me de tal forma cheio de imagens, sentimentos e um panóplia imensa de coisas que não consigo comentar este texto, tenho de guardar para mim. Um beijo

Afixado por: contador de histórias em novembro 15, 2004 12:50 PM

As palavras, o ar, a vontade, tudo é pouco. Lindo, doloroso, intrigante...
Já conhecia a música, é a preferida de uma grande amiga minha. Fiquei com calafrios quando este me disse que só tinha na cabeça essa música...
Se precisares de falar podes contar com um ombro, dois, um ouvido ou os dois...dispõe!
Jinhos e fica bem!

Afixado por: Blue em novembro 15, 2004 02:37 PM

"E de novo quero aprender a chorar,desamparada e em silêncio, como as crianças."
Foi dificil evitar a lagrima.
beijinhos

Afixado por: Ana em novembro 15, 2004 04:22 PM

És um ser humano único Sílvia.
Beijito minha querida.

Afixado por: LetrasAoAcaso em novembro 15, 2004 07:17 PM

Parabéns pelo seu blog...lindo!

Afixado por: Dani em novembro 15, 2004 08:29 PM

A intensidade da tua escrita, traduz concerteza uma alma desmesurada.
Beijo.

Afixado por: Monalisa em novembro 15, 2004 09:26 PM

Um sorriso nada custa, mas vale muito , muito
Enriquece quem o ganha e quem o da não fica pobre
Dura apenas um instante , mas pode na lembrança
Durar eternamente.
Ninguém é rico assim que possa desprezar
Nem é tão miserável que possa recusar
Traz ao lar felicidade, nos negócios é esteio
E é a prova mais palpável de uma profunda
AMIZADE
Um sorrida repouso a quem se acha cansado e
Quem está desanimado dá nova força e coragem
Consola na tristeza, e em todas as nossas penas é o
Mais caseiro remédio.
Ninguém o compra, nem empresta, nem o rouba pois Só vale no instante em que o damos livremente
E se um dia encontrares quem te negue seu sorriso
Dá-lhe generoso o vosso, pois ninguém precisa tanto
Do conforto de um sorriso como aquele pobrezinho
Que fechado em si, sozinho não
Aprendeu á dá-lo...
Gostei muito... vou voltar...

Afixado por: Ruca em novembro 15, 2004 11:17 PM

Quem não conhecia a escrita da Silvia fica espantado. Quem já a conhecia continua embebecido com a beleza sofrida das suas palavras.
Este texto é um grito alucinante de dor. Dor por si e por todas as mulheres.
É um apelo ao afecto e à compreensão.

Noutros a Silvia espalha em palavras tapetes de flores na nossa frente. Noutros impõe-nos profundas reflexões.

Como diz "letras ao acaso" Ela é um ser único.

Afixado por: João Norte em novembro 16, 2004 11:27 AM

Silvia.. qdo te leio..
um carinho imenso por ti..
Gostaria de estar perto para te dar um forte abraço.. não quero tanto entender, como sentir
o que tu passas..
indescritíveis sentimentos..
bjs bjs bjs...

Afixado por: em novembro 16, 2004 12:42 PM

"Mad World" - diz tudo. De facto o mundo é uma loucura.
*A

Afixado por: Alexandre em novembro 16, 2004 02:12 PM