outubro 21, 2004
Greve
Mil e uma caras a preencher-me. A preencher os vazios que preciso fiquem imersos na solidão do meu corpo.
Fecham-se as portas do metro. Ouve-se aquele som característico. Olho em volta... Uns dormitam encostados ao vidro. Outros agarram as malas com força como se isso os pudesse salvar da falta de nexo do mundo.
Sobram os que se entretem a meter os dedos no nariz provocando o nojo aos que os rodeiam mas antes o nojo que a indiferença, penso eu.
Ali ao lado um corpo deitado, esventrado. Uns passam e pisam-no. Outros desviam os olhos como se soubessem que depositar o olhar no corpo morto era por si só assumir culpas... E obrigações. "Não vejo nada" - pensam eles, com o corpo a tiritar com os primeiros frios de Outono. Ou será com o medo que o corpo se levante e os acuse da sua passividade?
Da sua perversidade?
Da sua mendicidade da alma?
"Peço-vos o vosso auxílio"... ouço ao longe a voz do cego do costume. É uma cantilena que nos embala como o metro nos embala os cansaços e as mãos escondidas atrás das malas moles.
O cego tropeça no corpo mas continua, auxiliado por alguém. Ouvem-se moedas a tilintar
Alguém sente os testículos entumecerem enquanto se esfrega na mulher mais próxima. Todo o jogo de sedução se resume a esse momento de tesão mal disfarçada no metro.
Tudo o que importa são os genitais em íntimo confronto por baixo dos tecidos das roupas da moda. Das lojas da moda. Onde os cegos não pedem e os corpos não se amontoam.
Mil e umas caras a bocejar num gesto único. Pondero silenciosamente se eles também têm horas programadas para bocejar. Se será sincronizado.
Sou acometida por imagens de humanos com cristais verdes em cima das cabeças enquanto um qualquer jogador distraído arrasta o ponteiro do rato e nos manda: mijar, comer, dormir, trabalhar, mijar, comer, dormir, mijar, foder, ter um puto, dormir, trabalhar, trabalhar ainda mais, comprar uma televisão como recompensa, mijar, comer, dormir... Imagino-me com um cristal verde e um terapeuta a perguntar-me numa qualquer língua incompreensível se gi amgimonk tnirnaibuig binpons poan.
(mijar, comer, tomar banho, dormir, foder, ver televisão, mijar..)
"Estação terminal"... Acordo do meu estado letárgico pela voz monocórdica da gravação do metro. "Foda-se perdi a estação...". Arrasto-me para mudar de linha.
"He pah hoje há greve não sabias?" - diz-me uma rapariga qualquer, com uns livros quaisquer nas mãos e os pés necessariamente trocados.
"Barricaram aquela merda?"
"Não pah... Mas não há aulas..."
Passam por mim tanques de assalto e militares desesperados... "Oh Ana.. Maria... Oh colega... Mas não era suposto não estarem barricados?"
"Diz?" Já ninguém se ouve por entre o fumo... "Que merda é esta?" "Acho que é gás..."
Caminho tonta por entre as paredes brancas que encerram velhos caducos e cheios de si... "Porra... onde raios é a sala hoje - penso completamente confusa". Tropeço num corpo qualquer...
Dou-lhe um pontapé... Mas ninguém tira esta merda deste corpo da estória? Quem é que tirou este tipo do metro para a faculdade?
"He pah isso é o ministro, porra... Quem é que matou o ministro? Tamos todos fodidos...".
Agarro-me a um tipo qualquer com um aspecto um bocado duvidoso, cigarro no canto da boca e olhos vivos... "Consegues-me ouvir?" - grito. "Não muito bem... Isto tá confuso aqui dentro... Chamaram os bófias..." "Para quê?" "Hoje é greve não sabias?"
Explode uma mina dentro dos corredores, ouvem-se pessoas a correr, gritos histéricos. Tropeça-se no corpo moribundo do ministro.
Alguém agarra em livros da biblioteca e começa a fugir por entre os escombros.
"A MALTA UNIDA JAMAIS SERÁ VENCIDA".
Outra bomba dentro da faculdade... Ouvem-se os aviões... "Fujam... Ouvi dizer que o Portas vem aí com os submarinos..."
"Com o quê?!" Ninguém se ouve, ninguém sabe bem onde está, que ala será aquela, e eu agarrada ao tipo com ar duvidoso...
"Olha - gritou-me ele - e se fossemos dar uma queca ali atrás? Com a confusão ninguém vê..."
Arrasta-me por entre a confusão. Eu só quero sair dali.
"Estação terminal" - acordo confusa no metro. Merda... adormeci de novo.
Levanto-me meia dormente e mudo de linha.
"Oi... então tás boa? Sabias que hoje há greve?"
Publicado por Fairy_morgaine em outubro 21, 2004 01:00 PM
Que saudades de Lisboa...
perfeito.. adorei beijo Rose*
fechamos tudo, mas eles fecham-nos a nós na sua ignorância e desprezo.-Sr ministro de que cor quer o seu bmw 325 turbo?
"perfeito.. adorei" diz tudo. Apenas acrescento que é nos sonhos mais estranhos que desmembramos a estranheza das coisas.
OI, gostei da tua observação e da maneira como a
relatas :))
BJS
LIZ
Oi Fairy, só eu te faço rir? Sou palhaça então. rsrsrsrs. Que bom! Sabes que fico contente em fazer um amigo rir? Poisé... o meu riso contamina, todos que me conhecem dizem, é que sou feliz. kkkkk
Nem sei comentar este texto, mas como foi tu quem escreveste, tá tudo certo, ahuahauaahua.
Muitos beijinhos e todos doces, alguns para o ministro tb, assim adoça-lhe a vida.
Lisboa é aquela cidade....... ;)
Inquietante...
O princípio, no metro. O sonho, também. O mundo é que é inquietante!
(claro que fui reler aquele "Morreste-me".... belo, cada vez mais belo!)
A vivacidade do costume.. :)
Logo vi que de tão irreal tinha de ser um sonho ;)
Voltei :) peço desculpa pela minha ausência mas tive imensos problemas com o meu computador e no espaço de duas noites tive que o formatar 2 vezes :( o tempo também anda escasso devido às aulas, mas são responsabilidades aos quais não posso fugir. Ainda não me familiarizei bem com o meu novo horário e com o trabalho que tenho, ando a tentar gerir o melhor possível o tempo... há coisa de dois dias que comecei a regularizar as minhas visitas aos blogs mais queridos e o teu é um deles :) adorei as tuas palavras, escreves de uma forma muito solta e muito bonita. Gostei imenso. Bjs e tem uma óptima semana***
Lisboa uma cidade para mim quase desconhecida, espero em breve a poder visitar para a conhecer melhor.
Beijinhos...
O caos da vida a perturbar os teus sonhos.
Beijinhos.
O clima onírico, pejado de referências, labirintos e alçapões...A nossa inquietação pode transformar-se numa revolta sangrenta. Os nossos movimentos quotidianos em passos num jogo de computador. Depois "game over" e o sonho acabou - mas a realidade pode ser tão sinistra....
A melhor coisa que fiz hoje foi passear pelos blogs.Tenho visto coisas lindas