outubro 13, 2004

Palavras que escreves para ela

Deito-me suavemente nas palavras que escreves para ela e jamais escreveste para mim.
Não quero acordá-las. Elas dormem sossegadas.
Deitada nesta cama de palavras sinto-me atravessada de espinhos. Rasgada pela inegável noção da falta de amor.
Revejo anos de sorrisos apagados, releio poemas de desespero por um amor que se cravava na minha garganta demasiado estreita para deixar passar o pesadelo que tornaste a minha vida.
Às vezes deleito-me num prazer masoquista de remoer o passado a tentar compreender o porquê de todos os (des)amores que me deixaste ter enquanto procuravas ainda os meus lábios e os meus braços como refúgio para a tua dor de estares vivo.
Era fácil. Era fácil dançares comigo até à exaustão e depois deixares-me deitada nas palavras que escreves para ela. E era ao lê-las até ao ponto de as decorar que acalmava o coração e ensinava ao espírito que quando amamos quem não nos ama estamos condenados a dançar até rasgar os pés sem que nos vejam ou sintam as lágrimas com que tecemos camas de penas que nunca vamos partilhar.
É tão fácil corromper quem nos ama.
Voltavas a mim como um dia que se repete, uma falha no espaço-tempo e sussurravas baixinho: "ama-me... cura-me... ela dilacerou-me, diz-me que sou belo, diz-me que sou bom, diz-me que me vais cobrir com o teu amor e afagar-me na escuridão da noite."
E eu arrastava os meus pés, embriagada de amor e impossibilidades.
Foram sempre os meus dedos que estagnaram as tuas hemorragias de desilusão e amargura.
Por isso não quero acordar as palavras que escreveste para ela e que me pedes que leia... "desnuda-me, lê-me, precisa-me... és o bálsamo que gosto de passar nas minhas chagas".
Disfarcei-me de sorrisos enquanto me perdia nas palavras que sei nunca escreverias para mim.
Porque ninguém ama o vulto que está sempre atrás de nós a amparar-nos a queda. A paixão é caprichosa. Só se enamora de quem nos faz tropeçar.
"eu amo-a porque não a tenho, entendes? eu não te amava mas tinha-te e isso era tão fácil, porque estavas ali e curavas-me e agora não me curas e estou perdido, estou perdido dentro de mim, resgata-me só mais uma vez".
Resgatar-te é uma missão que me engole todas as forças. Desculpa... Mas não o posso fazer.
Tenho o corpo suspenso por um fio de teia que me balança e lá em baixo só vejo vazio... Quem me resgata a mim?
Quem?...
Tu continuas ocupado com as letras com que escreves palavras que jamais escreverias para mim.
Não me ouves nem me sentes suspensa.
Eu salvei-te... e no caminho perdi-me. E ainda não me consegui encontrar.

Publicado por Fairy_morgaine em outubro 13, 2004 03:47 PM
Comentários

não há palavras... beijo Rose*

Afixado por: Black Rose em outubro 13, 2004 07:17 PM

:o

Afixado por: lacshimi em outubro 13, 2004 07:20 PM

"É tão fácil corromper quem nos ama."Acho k disses te tudo ,os teus posts deixam me sempre sem palavras.Nao ha comentarios possiveis,beijokas***

Afixado por: Monica em outubro 13, 2004 09:35 PM

Sílvia:uma vez mais constato o óbvio. Escreves genialmente.
Um texto muito bem estruturado, na forma, na arte, no conteúdo.
Tem vida própria!
Beijos.Meigos.

Afixado por: LetrasAoAcaso em outubro 13, 2004 10:22 PM

Ficamos secos depois de tanto chorarem por outros no nosso colo,quando nós apenas queriamos que sorrisem um pouco por nós...

Afixado por: Contador de Histórias em outubro 13, 2004 10:36 PM

"As palavras que nunca te direi"

*A

Afixado por: Alexandre em outubro 13, 2004 11:29 PM

Como eu estava em falta, Sílvia. Não me leves a mal.
Noto diferenças... Ficarei atenta.
Deixo-te um beijo.

Afixado por: Maria_Oliveira em outubro 14, 2004 12:57 AM

Comoveu-me tanto o teu sentir...
Compreendo cada palavra pesada e dorida que escreveste..."a paixão é caprichosa.Só se enamora de quem nos faz tropeçar...", como defines bem a triste realidade de quem sente o desamor....!
Parabéns poetisa!
Beijinho...e fica bem.
biona.blogs

Afixado por: Ana Paula em outubro 14, 2004 11:10 AM

Tens razão... não se ama um vulto! E muito menos se amam palavras que não são escritas para nós.
Segue o caminho para trás só até onde te perdeste de ti mesma, depois vira em sentido oposto ao que seguiste... E vive!

Um beijo

Afixado por: Sandro em outubro 14, 2004 03:31 PM

Venho a este blog com alguma frequência mas este post e o poema anterior preencheram-me. Sou um homem mas revivi nas tuas palavras uma ferida recente que tarda em sarar. Admiro a estética da prosa e do verso. Podes visitar-me em pedraapedra.blogspot.com.

Afixado por: pedra em outubro 14, 2004 05:09 PM

Silvia..
vc transborda emoções.. sentires!!
O que tu escreves com tanta maestria
sempre me alcança..fatalmente!!
beijos do Brasil!!

Afixado por: em outubro 14, 2004 08:20 PM

oi Fairy, adorei o texto, mas não das cartas que ele escreve para ela... ora, ora!
Beijinhos, linda!

Afixado por: anne em outubro 14, 2004 08:41 PM

Arrepiante, este texto! Um retrato expressionista do sofrimento amoroso. Lindo e dilacerante.

Afixado por: Dora em outubro 14, 2004 08:46 PM

Nunca deixas de me surpreender. Mais um momento, mais um poema muito bem escrito, de uma descrição arrepiante que me fez ler um punhado de vezes este texto. Lamentavelmente, só espero que isso não seja apenas fruto de desilusões, mas que faça parte um pouco do teu imaginário.. Não consigo imaginar-te a sofrer dessa forma e ninguém merece!
Beijo*

Afixado por: Sete-Luas em outubro 14, 2004 09:55 PM

Maravilha de texto! Gostava de não ter esta impressão de que "é verdade!".

Tens todo o direito - e até o dever - de olhar em volta. Há sempre alguém que está mortinho por nos salvar! Quando nos libertamos de uma amarra como a que descreves, parece que uma Sabedoria Cósmica se põe em movimento e as coisas começam a acontecer de uma maneira diferente. Só é preciso ter a força para dizer "mais não", e a grande alavanca é accionada =)
*

Afixado por: FataMorgana em outubro 15, 2004 12:01 AM

Pronto...já terminei...até estou cansada, canecos...

Afixado por: blueshell em outubro 15, 2004 12:28 AM

«Porque ninguém ama o vulto que está sempre atrás de nós a amparar-nos a queda. A paixão é caprichosa. Só se enamora de quem nos faz tropeçar.»
É simplesmente GENIAL!
E depois matas-me com a ideia de que «(...)estamos condenados a dançar até rasgar os pés(...)»
Parabéns...ainda bem que visitei o teu blog. Vou acrescentar-te lá em casa.

Afixado por: Blue em outubro 15, 2004 01:05 PM

Estou de volta...espero! É que este início de ano lectivo está a dar cabo de mim...

Afixado por: whiteball em outubro 15, 2004 05:10 PM

Mas continuas Viva, vertical e com força para seguir em Frente.

A Arte das tuas palavras fascina-me.

Obrigado, Companheira das Letras, continua lançando o teu Grito no Silêncio da tua revolta.

Fraterno Beijo,

Afixado por: Fernando Bizarro em outubro 15, 2004 08:53 PM

Fiquei sem palavras ao ler este post... continua assim!
******** beijinho
jenny

Afixado por: Joana em outubro 15, 2004 09:07 PM

mt bom mesmo... parabens uma vez mais

Afixado por: Shadow Dweller em outubro 15, 2004 11:58 PM

'Porque ninguém ama o vulto que está sempre atrás de nós a amparar-nos a queda. A paixão é caprichosa. Só se enamora de quem nos faz tropeçar.'

Porque ninguém sobrevive a overdoses de amor, porque ninguém está preparado para o sentimento perfeito.

Quem faz as feridas, deve lamber as chagas. Se possível beijar o sítio que se bateu. Sentir aquele ferver no estômago de ódio e de paixão.

As pessoas não gostam de marés calmas, não sabem lidar com elas, são demasiado sublimes, por isso preferem as grandes tempestades, gostam de conciliar as palavras pérfidas com as juras de amor, e isso, incrivelmente, fá-las sorrir.

Fá-las sorrir o quanto choraram, as garrafas de lágrimas que encheram a custo daquele grande amor, que é turbilhão, amor, amor-cão.

(Eu sei que me entendes.)

Beijinhos Linda,

Afixado por: Catarina em outubro 16, 2004 11:29 AM

Sinto-me envolto no encantamento da tua escrita. Este texto encerra verdades, daquelas que fazem sofrer.
"Eu salvei-te... e no caminho perdi-me. E ainda não me consegui encontrar" - tudo tem um preço. Por vezes demasiadamente alto.
Continuarei a vir aqui.

Afixado por: nikonman em outubro 17, 2004 10:07 AM

Parece que não sou o único que fica sem palavras quando te lê.

"Ningúem ama o vulto que está atrás das costas e nos ampara"

Por entre palavras sentidas, verdades incontornáveis.

Textos que dão vontade de ler e reler.
Não é possível comentar, porque seria necessário fazê-lo linha a linha, palavra a palavra.

Sou posso acrescentar que é impossível ler-te sem sentir por ti um enorme afecto, uma enorme amizade.

Um beijo grande.

Afixado por: João Norte em outubro 18, 2004 02:43 PM

Sentir assim so te pode fazer mais forte e mais bela. Brava, pela coragem de manter o coracao aberto!

Afixado por: Xana em outubro 27, 2004 12:01 PM

querida,
obrigada por ter a coragem de expor seus sentimentos em um blog. Vivi a poucos meses
uma história parecida. Parabéns pela coragem.
Que isso sirva de aprendizado. A partir de hoje
eu vou dizer mais NÃO, afinal de contas: "Porque ninguém ama o vulto que está sempre atrás de nós a amparar-nos a queda. A paixão é caprichosa. Só se enamora de quem nos faz tropeçar."
Beijos
Nós vamos viver, o universo nos recompensará de uma forma que nunca esperaríamos.

Afixado por: érica em novembro 23, 2004 04:07 PM