setembro 27, 2004

Luísa

Por vezes o processo criativo exige papel.
Papel que engole as nossas palavras, a boca babosa escancarada, faminto de sangue e corpos animados.
As personagens, essas criam-se por e para si mesmas.
São egoístas. São-o talvez porque se tenham cansado de estar na sombra das minhas palavras imperfeitas. Porque elas, enquanto criação, são perfeitas. As suas falhas são meticulosamente pensadas, as suas revoltas e os seus erros.
A mão da escritora (?) é que não é muito precisa.
Às vezes pinto-lhes olhos onde deveria ser a boca e a boca nos sexos. A Luísa foi uma dessas criaturas. Tive de a fechar num armário porque os gritos dos seus lábios (lábios de boca onde deveriam ser lábios vaginais) acordaram todas as velhas e cães do bairro.
Foi uma chinfrineira como não se ouvia desde que a Rosário deixou o marido e começou a foder o gajo do talho.
Quase fui despejada por causa da gritaria da vagina (ou seria a boca?) da Luísa.
Depois desse incidente resolvi criá-los a todos mudos e de olhos violeta.
Durante algum tempo parecia ter descoberto a solução para recriar o Éden. O silêncio era um predicado apreciado por todos. Até pelos cães e velhas da vizinhança.
Não preciso dizer que não durou muito. Enlouquecidos pela aparente perfeição arrancaram os olhos e engoliram-nos numa marcha de revolta. Mesmo o da Luísa que estava no lugar da boca, lembram-se?
Fiquei de tal forma desesperada que os matei a todos. Queimei o caderno.
Sim, eu sei que é uma vergonha matar os próprios filhos. Mas Deus não faz isso connosco?!
O meu caderno ardia num êxtase de loucura.
Quase desisti de escrever, de criar fosse o que fosse.
Com o tempo senti saudades a apertar. Saudades de Luísa e o seu desespero vaginal. Ela era sem dúvida o meu pedaço mais amado e a sua perda pesava-me agora nas costas e curvava-me perante a evidência da derrota.
Foram tempos de jejum para o papel, que amareceleu raquítico.
Os dias tornaram-se mais compridos, quase intermináveis na sua lenta caminhada para a morte. É que inevitavelmente todo o poeta morre e com ele todas as palavras por escrever.
Definhei. Os meus dedos choravam pelos contonos macios de Luísa e a sua boca vaginal.
Recriei-a.

(continua)

Publicado por Fairy_morgaine em setembro 27, 2004 10:15 PM
Comentários

uau...

Afixado por: Black Rose em setembro 28, 2004 12:57 AM

deixar de escrever é cmo deixar de sentir o coração bater, o sangue que corre ardentemente pelas veias quaimandos-as deixa de existir...amiga..eu não consigo deixar de escrever. por mais que as coisas não façam mais sentido, escrever é o que me faz respirar...
As linhas desalinhadas do meu caderno, o lápis gasto , os sentimentos perdidos... fazem parte de mim
beijo Rose* * *

Afixado por: Black Rose em setembro 28, 2004 10:29 AM

heheheh...agora fiquei curiosa...vou voltar! Abraço, WB

Afixado por: whiteball em setembro 28, 2004 02:12 PM

heheheh...agora fiquei curiosa...vou voltar! Abraço, WB

Afixado por: whiteball em setembro 28, 2004 02:13 PM

Silvinha.. obrigado pelos e-mails!!
Venho tb eu, recolher aqui as tuas pérolas.
As vezes prefiro sentir, em vem de dizer.
Um bj querida.. *aguardando a continuação!

Afixado por: em setembro 28, 2004 02:34 PM

Silvinha.. obrigado pelos e-mails!!
Venho tb eu, recolher aqui as tuas pérolas.
As vezes prefiro sentir, em vem de dizer.
Um bj querida.. *aguardando a continuação!

Afixado por: em setembro 28, 2004 02:35 PM

Silvinha.. obrigado pelos e-mails!!
Venho tb eu, recolher aqui as tuas pérolas.
As vezes prefiro sentir, em vem de dizer.
Um bj querida.. *aguardando a continuação!

Afixado por: em setembro 28, 2004 02:36 PM

Por vezes deixas-me sem palavras.

" todo o poeta morre e com ele todas as palavras por escrever"

O que é que eu posso dizer?

Apenas mandar-te um beijo de admiração e carinho.

Afixado por: João Norte em setembro 28, 2004 03:22 PM

...que texto...
Fico ansiosa para ler mais.

Afixado por: MAD em setembro 28, 2004 03:35 PM

Eh eh eh eh!... Pelos vistos andas a ler muitos sul americanos: Isabel Allende, Gabriel Garcia Marquez, não!?... Boas influências, diga-se de passagem, visto teres melhorado substancialmente em relação ao Café Com Natas, mas deixa-me dizer-te que o absurdo é um pau com dois bicos. Penso que a tua intenção não seja propriamente reinventar ou ressuscitar o absurdo como género literário. Estás a experimentar, nota-se perfeitamente, e isso é de saudar, Sílvia. Continua.

Afixado por: joZef vengoZ em setembro 28, 2004 04:56 PM

Eh eh eh eh!... Pelos vistos andas a ler muitos sul americanos: Isabel Allende, Gabriel Garcia Marquez, não!?... Boas influências, diga-se de passagem, visto teres melhorado substancialmente em relação ao Café Com Natas, mas deixa-me dizer-te que o absurdo é um pau com dois bicos. Penso que a tua intenção não passa propriamente por reinventar ou ressuscitar o absurdo como género literário. Estás a experimentar, nota-se perfeitamente, e isso é de saudar, Sílvia. Continua.

Afixado por: joZef vengoZ em setembro 28, 2004 04:57 PM

gosto :)

Afixado por: Ardente_Mente em setembro 28, 2004 08:05 PM