setembro 20, 2004

multidão - café com natas parte IV

- Então como correram as aulas? - mexeu o café enquanto fitava a amiga.
- Sabes aquela solidão tremenda que se abate sempre que estás no meio de imensa gente? Eu até lhe poderia chamar o síndrome da multidão - sorriu sarcasticamente - É sempre assim que me sinto em sítios com muitas pessoas… Fico presa a imaginar os seus enganos, as suas máscaras sociais, as mentiras que contam a si mesmas e aos outros.
- Tu e as complicações. Complicas tudo, Íris! Chegas e dizes bom dia! Bolas, não é assim tão difícil.
- Bah… Experimenta fazê-lo num local hostil cheio de pessoas.
- Tu é que pensas que o local é hostil… É apenas uma sala de aula.
- São pessoas que eu não conheço e que não me conhecem e que certamente imaginam mil e uma coisas acerca de mim assim que me vêem e que provavelmente não correspondem à verdade.
- E tu não imaginas sobre elas?
- Não. Encaro as pessoas como livros abertos com os quais me posso deliciar ou simplesmente desiludir. Eu nunca crio grandes expectativas em torno de alguém.
- Porquê?
- Porque não adianta… Desiludo-me sempre que o faço. Ninguém é tão saboroso ou misterioso como tu o vais imaginar. Há sempre comportamentos que afectam a tua relação com essa pessoa.
- Estás apenas amargurada…
- Rui… Tu é que falas com toda a gente, és uma luz que brilha em qualquer escuro. Como uma estrela que ofusca qualquer um que esteja junto de ti.
- Não sabia que me vias dessa forma - fez um esgar que dificilmente podia ser confundido com um sorriso - é sempre bom ver o que a nossa tão perfeita Íris pensa dos outros.
- Eu não sou perfeita.
- Estás perto.
- Oh Rui… Poupa-me. Tu é que insistis em ver-me como alguém acima de ti quando no fundo não o sou. Eu sou tão estupidamente banal… Se soubesses como me dói a minha banalidade, a forma como tentando ser diferente sou tão igual aos outros.
- Ser igual não faz de ti alguém desprezível.
- Aos meus olhos faz. Invejo-te Rui. Queria poder ser como tu que conheces todas as pessoas e és querido por todas.
- Dificilmente se conhece todas as pessoas que se cruzam connosco… Na verdade, a única pessoa que eu conheço minimamente és tu. São estas conversas no café que nos fazem descobrirmo-nos… Os cafés com natas que te pago - riu-se.
Íris sorriu-lhe docemente, contagiada pelo bom humor do amigo. Segurou-lhe na mão e percorreu-lhe os dedos.
- Como consegues escrever palavras tão bonitas? Quando olho para os teus dedos tento lê-las aqui mas nunca consigo. E, no entanto, é daqui que elas nascem, dos teus dedos perfeitos, esguios, suaves…
Ficaram num silêncio ligeiramente incómodo mas que se impunha e tirava a vontade de ambos de o interromperem.
Às vezes é tão mais fácil rendermo-nos silêncio…


in "café com natas"

Publicado por Fairy_morgaine em setembro 20, 2004 11:39 PM
Comentários

Morgaine,
comentei este texto e deixei-te um recado... mas enganei-me e fi-lo nos comentários ao poema anterior. Desculpa, sou distraída. Andei a ler e "perdi-me no teu blog!"......

Morgana (!)

Afixado por: FataMorgana em setembro 21, 2004 01:00 AM

Pareceu-me que eu era uma mosca a ouvir esta conversa tendo como intervenientes eu e o meu namorado. Para mim ás vezes é tão dificil estar com as pessoas...pelo menos com muitas ao mesmo ontem...outras há em que me sinto muito bem. Mas é como dizes...são complicações...no meu caso complicações da minha cabeça. Talvez seja por ter já tido muitas desilusões com pessoas que achava que eram estupendas e afinal eram exactamente o contrário. Adoro o teu blog. Beijinhos

Afixado por: musa6 em setembro 21, 2004 10:27 AM

áquele silêncio que nos afaga...

Afixado por: Ardente_Mente em setembro 21, 2004 10:57 AM

Com sabes Sílvia sou um solitário por opção.
Entendo-me bem com os silêncios.
"Quanto mais conheço os homens, mais gosto dos cães" faz todo o sentido para mim.

Outro excelente excerto, ao teu melhor nível.
Beijo-te

Afixado por: LetrasAoAcaso em setembro 21, 2004 11:31 AM

Como consegues escrever palavras tão lindas?

Ainda bem que as escreves. fazes a felicidade de quem as lê, pelo menos no momento em que lê.

Afixado por: João Norte em setembro 21, 2004 11:33 AM

perdi-me *

Afixado por: Black Rose em setembro 21, 2004 06:56 PM