setembro 19, 2004

o mundo é tão teu

O gesto normal de procurar.
A caneta. Procurar a forma
de se expressar.
Procurar a forma.
Separou-se nos seus constituintes mínimos,
Os seus pequenos e sagrados segredos,
os seus
abismos,
Os seus
pedaços.

Esquartejou-se.
Tirou de si frases.
Poemas.
Sentires.
A sua face a escorrer
da tinta da caneta.

Ouvia respirares lá fora.
Fora de si.
Do seu corpo. Do seu
sentir.
Eram eles.
Eles.
Os outros. Os que não eram
Ela.
E não sentiam como
Ela.
Não amavam como
Ela.

Atirou-lhes um naco
da sua carne.
Sorriu…
Silenciá-los era tudo o que
desejava.
Mesmo que para isso se
servisse num banquete insano.

Continuou a escrever frases,
Poemas, sentires, sensibilidades.

Ouvia-os comerem-na.

Deu-lhes um poema para
sobremesa.
Para
alimentar as bocas
dos esfomeados.
Dos pobres esfomeados.

O mundo é dos pobres.
Dos pobres de espírito.
Dos que violam.
Dos que assassinam.
Dos que abortam crianças
nos vãos de escada.
Dos que
acreditam na impunidade do
segredo,
do silêncio protector.
da muralha do dinheiro.
O mundo é teu.

O mundo é tão teu…

Denuncia a criança que rouba o pão.
Não denuncies o homem,
o homem que lhe come as entranhas
à noite a troco de algum dinheiro.
Não denuncies…

Não apagues de ti
o que faz de ti humano.
Não apagues de ti a capacidade
de esconder.
De fingir.
Que não vês.

Que não me vês.
Que não te vês.
Que não vês crianças…a morrerem…
Indignamente.

Todos temos o direito à dignidade na morte.
Jura que não vês os pequenos corpos
nus,
comidos pelo tempo
a secarem ao sabor do vento
Conspurcados pela guerra, pelos pénis alheios
pela fome, pela vida…

PELA PUTA DA VIDA.

A humanidade meu irmão,
meu amor, meu amigo, meu leitor
é podre.

A humanidade é doença.

A humanidade alimenta no seu seio
as piores perversidades
os mais atrozes crimes.
E apaga-os com dinheiro…
Apagam-se as consciências.

És consciente?
O mundo é tão teu…

Abraça-o em ti.
Jura-me que não vês.
Que não sentes.
O meu grito que é o grito de uma
consciência ferida
pelo absurdo da sociedade.
Jura que não sentes vergonha
das imagens que consomes com
prazer sádico, com prazer voyerista.
Diz que não pensas.
Diz que não sentes.
Diz que não respiras…
Mostra-me os teus segredos.

Mostra-me que o mundo é tão teu.

Às vezes dói-me.
As dores de um mundo podre.
As dores da loucura a atingir milhões, biliões,
mundo.

Diz-me que não és humano…
Diz-me que o mundo não é teu.

Eu ainda tenho esperança em ti.
Apaga a luz.
Vamos dormir.
Vamos sonhar
sonhos de algodão doce.
Vamos devolver nos meus sonhos os sonhos
das crianças.
Vamos fingir que não vemos gerações a nascer e
a crescer no ódio de não serem nada.

Ah… o mundo é tão teu.

Publicado por Fairy_morgaine em setembro 19, 2004 10:21 PM
Comentários

Uma sequência indignada dita da forma mais bela.
"Somos todos filhos do ódio" Sílvia.
Vivemos num Mundo insano.
A abstracção será resposta? - Não de todo. - Acredito que tudo pode mudar.
Um beijito

Afixado por: LetrasAoAcaso em setembro 20, 2004 01:07 AM

Exemplar este grito do silêncio que rasga a alma e nos obriga a abrir os olhos...

Afixado por: Dora em setembro 20, 2004 02:02 AM

Ah...o mundo e tão nosso...

Notaveis estes teus poemas. De grande sensibilidade humana e estética eu diria.

Insito...O mundo é tão nosso...

Afixado por: Michel de Garcia em setembro 20, 2004 04:12 AM

Cheguei aqui esfomeado...
Saiu mais que saciado desta minha fome de palavras e sentimentos.
Senti a tua raiva neste texto...

e por isso volto mais tarde, pra me saciar de novo!

Beijo

Afixado por: Sandro em setembro 20, 2004 09:33 AM

Sim, é.

Afixado por: Kearinn Keira em setembro 20, 2004 11:06 AM

Querida Amiga,

Respondi a esse teu maravilhoso Poema no meu Blog.

Então esqueceste-te de me linkar?...

Beijos Fraternos

Afixado por: Fernando Bizarro em setembro 20, 2004 02:11 PM

Sugiro-te um tratamento psicológico urgente. Raramente li textos tão mal escritos e depressivos/deprimentes. Rapariga tu escreves mesmo mal!!

Afixado por: pat em setembro 20, 2004 03:36 PM

Gostava de saber quem é este/esta "pat" que a menos que esteja a brincar não sabe fazer mais nada do que falar mal do trabalho de cada um. E já a gora também gostava de saber que é que ele/a escreve para também ficar com uma ideia a respeito da sua escrita, mas nem se deu ao trabalho de colocar um link de algo que escreva.

Afixado por: ofeliazinha em setembro 20, 2004 06:28 PM

;) **

Afixado por: lacshimi em setembro 20, 2004 07:06 PM

Teste...

Afixado por: anne em setembro 20, 2004 10:11 PM

e este mundo que não se acaba e nem se apruma.
os seres tão inumanos que colocam em suas ruas crianças abandonadas.
estas se transformam nos mais novos monstros...
aqueles que nos envolvem na gelada teia do medo.
tenho esperança;;;
mas já não sei onde vou

Afixado por: Nefertari em setembro 20, 2004 10:12 PM

Sacolejou-me! Quando penso em dormir, venho cá e acordo, mas de maneira triste. O teu grito desperta-m e entristece-me por não saber o que fazer com essa loucura que há no mundo.
Acredito que já chegamos ao fundo do poço querida Silvia. Urge que a humanidade saia da lama, tome um banho e abraçe o mundo sedento de tudo que é bom.
É urgente que façamos isso.
Beijo-te, linda.

Afixado por: anne em setembro 20, 2004 10:18 PM

Gostei deste Grito...que é tudo aquilo que sentimos. Beijo !

Fairy: daqui fala o Eheh...lembras-te ? :)

Afixado por: Finurias em setembro 20, 2004 11:34 PM

Olá Fairy Morgaine. Este encontro não deixa de ser um bocadinho constrangedor... (risos)
De vez em quando passo aqui e encontro sempre um texto muito bonito. Nunca comentei porque fico sempre a pensar "bolas, o que diz a Morgana à Morgaine?!"... (só nos falta uma Morgan le Fey =)Hoje, finalmente, diz-lhe o que acha: escreves muito bem.

Tens aqui "pat" um/a carrapato/a muito parecido/a com um/a que apareceu lá no meu blog... Não ligues meia! Nunca vi ataques destes em blogs que não prestam, é sempre nos bons que eles aparecem. E também é evidente quem beneficiaria com o tal "tratamento psicológico" aconselhado.

Afixado por: FataMorgana em setembro 21, 2004 12:56 AM

Escreves palavras lindas falando de coisas tão sérias que quase nos fazes esquecê-las.

Afixado por: João Norte em setembro 21, 2004 11:30 AM

Tu escreves mesmo muito bem...
beijinho *

Afixado por: joana em setembro 21, 2004 11:39 AM

Eu gosto do/a pat... pelo menos é sincero/a... Acho que a Sílvia precisava de mais pats na sua vida e não de lambe-cus idiotas e hipócritas, distribuindo beijinhos, abraços e outras coisas piores a torto e a direito.

Benvindas as vozes discordantes, porque é do caos que nasce a ordem, porque é do adverso que se tempera a nossa força!...

Afixado por: joZef vengoZ em setembro 28, 2004 04:44 PM

(Uma lágrima)...

Afixado por: Magnólia em setembro 29, 2004 04:21 PM