setembro 17, 2004
as impossibilidades - café com natas parte III
- Quando te leio inspiro-me - sorriu ela.
- Penso até que te roubo palavras, sentimentos, pensares. Penso sempre em ti quando escrevo e na (im)possibilidade de um amor entre nós.
- Gosto que me leias e me desnudes - disse ele.
- Mas não estás a compreender… Eu sugo-te. Eu roubo de ti o que dás aos leitores, eu torno-me a tua única leitora, imersa em ti e nos teus recantos.
- Eu sei. Na verdade sempre soube.
- E não te sentes invadido? Violado?
Gargalhadas.
- Eu escrevo para ti…
Ela parou de mexer o café e olhou-o nos olhos.
- Para mim?
- Temos sempre um leitor favorito… ou não?
- Eu não tenho leitores… Só te tenho a ti, é a ti que quero impressionar, entendes?
- Sim… Enredei-te nas minhas teias para que sentisses dessa forma. Tomei-te nas minhas mãos como se fosses uma personagem dos meus contos e delinei-te o destino.
Ela sabia que devia sentir-se aborrecida com aquele comentário… Talvez até humilhada… Mas queria sentir-se atravessada pelas palavras dele…
Era imperativo… Ele era o seu começo e o seu fim.
- Então como está a Marta? - mudou bruscamente o tema.
- Como sempre. Numa reunião, no ginásio… Em qualquer lado.
Bebeu um trago de café… queimou a língua mas por algum motivo isso fê-la sentir-se bem.
- E a Beatriz?
- A esta hora está no colégio.
- Ah…
- Sofia… tínhamos prometido que não íamos falar das mulheres da minha vida.
- Pensei que eu fosse a mulher…
- Não - interrompeu-a - tu és a minha leitora, a minha personagem, a minha fantasia. Se passasses disso tudo perdia o encanto, entendes?
Sofia não respondeu e mergulhou em mais um dos seus silêncios demasiado reveladores.
- Eu tenho uma vida, Sofia. Uma vida estupidamente mesquinha, é um facto, mas uma vida. Construída em cima de determinados princípios.
- Diz antes aparências.
- E não é assim com todos, Sofia? Não devias ter ciúmes de ninguém. Tu és em última análise o meu amor. O amor que me faz escrever palavras para ti. Existe maior dádiva que as palavras?
- Sim… existem corpos entrelaçados, mãos suadas em cima dos meus seios… Existe isso tudo.
- Para isso tens os teus outros amores. Mais novos que eu. Mais belos que eu. Mais intensos que eu.
- Quando me masturbo é em ti que penso, Mário…
Ele sorriu e levantou-se para pagar a conta…
- Também eu, querida… Também eu…
Beijou-lhe a testa e saiu para o dia chuvoso enquanto Sofia tentava em vão aquecer as mãos na chávena de café já frio.
in "café com natas"
Publicado por Fairy_morgaine em setembro 17, 2004 02:17 PM
Esta tua "mania" de me surpreenderes a cada texto, deixa-me sem palavras adequadas para te comentar.
Bolas Sílvia, assim não vale.
Já te o disse muitas vezes. Mas repito-te. Não conheço muita gente a escrever ao teu nível.
Fazes o encadeamento perfeito da história. Eu sou muito mais caótico.
Constróis a frase muitissimo bem, argumentas e contra-argumentas de forma superior.
Curvo-me.
Beijo-te também com muito carinho.
Aiii esse tema... demasiado familiar... :)
Quanto à maneira como o tratas, posso apenas dizer-te que a achei sublime.
*
sublime...é mm isso.beijinho
Caí do céu exatamente aqui, rsrs.
Menina (miúda)como podes escrever assim?
Oi minha amiga, passei uns dias fora da rede, por probleminhas de saúde do meu vô, mas hoje já postei e estou aos poucos a visitar os amigos. Adoro entrar e ler tudo que tão lindamente escreves, Beijos e bomfds . Obrigada pela visita ao meu cantinho, ok? O teu blog é um encanto porque, tu Silvia, encantas. O Zé está certo, por isso adoro visitar-te. Gosto de ti, linda. Feliz tudo. bjus
Quando te leio inspiro-me.
Qualquer que te leia sente-se inspirado e preso à tua escrita.
um beijo grande
sem palavras...sem palavras...
beijo daqui.
oi! nossa, as poesias sao maravilhosas! parabens mesmo! adorei o blog! bjus
todo autor e poeta tem um amor.
para quem ele direciona suas letras...
pior, quando nao as lê, nos torna vazios...
te beijo
Que texto denso!!! Aliás, fiz o poema "Sociologia para Aurélio" citando Sá Carneiro ao pensar na musicalidade proposta pela Adriana Calcanhoto.
Beijos,
Oh! O que mais dizer e que ainda não o tenha dito, Sílvia? Que és demasiadamente bela e que a tua alma é demasiadamente maravilhosa avassaladora? Que sempre e tudo o que te leio faz estremecer-me e encontrar-me em cada palavra que escreves? És única.. Divinalmente única!
Beijo*
Lindíssimo...
Realmente és única Sílvia!
beijinho *