setembro 16, 2004

Café com natas - parte II

- Que se passa afinal contigo? Porque te negas aos outros quando tens uma necessidade ímpar de te dar?
- Sinceramente, não me quero dar a quem não sabe receber.
- Estás a ser injusta como sempre - mexeu o café lentamente enquanto remoía as palavras da amiga. Seria possível existir alguém tão amargurado? Será que era ela e não ele a ver bem o mundo lá fora?
- A tua noção de justiça, como sabes, é muito diferente da minha.
- Tu és como uma paisagem, Íris. És magnificente mas… assustas… Apagas de nós as memórias do lar. Ficamos completamente assombrados pelas construções que escondes na tua mente. E depois… partes. E deixas-nos perdidos sem saber se corremos atrás de ti ou procuramos o caminho de retorno. Apenas para descobrir que o retorno não é possível depois de te amar.
- Ninguém me ama, Rui. Ninguém me conhece. Ninguém pode amar alguém que não conhece. Amam pedaços de mim. Pedaços que pensam ser parte do todo. E podem ser apenas miragens, ilusões.
- Tu podes ser uma ilusão. És?
- Quem sou eu? Não sei. Tu sabes?
- Sim. És uma mulher que se esconde atrás da amargura. És assustada. Frágil. E tens medo de o ser.
Risos.
- Tens a certeza?
- Deixa os jogos mentais, Íris… - pegou-lhe na mão - conhecemo-nos à tanto tempo… o que me falta descobrir em ti?
- Tudo… Todo o ser humano é infinito e está sempre a sofrer infinitas mudanças… Pelo menos é o que acredito. A cada dia existem infinitas coisas novas a descobrir.
- Será esse o segredo do amor eterno? Nunca desaprender de descobrir?
- Quanto ao amor não sei. Mas é o segredo da atracção eterna. Do fascínio… Eu sou fascinada, Rui. Fascinada pelo mundo, pelos segredos que se escondem dentro dele. Somos tão pequenos, tão ínfimos e porém… tão complexos.
Risos.
- Devias ter cursado filosofia.
- Achas? A filosofia não é um curso. É uma forma de encarar os mistérios da Vida.
Rui ficou sentado a remoer as palavras da amiga enquanto esta pagava o café.
Tudo em Íris fazia um estranho sentido sendo simultaneamente caótico.
- Vens? - ouviu-a dizer à porta do café.
- Sim… Amanhã é outro dia.
- O amanhã nunca chega.


in "café com natas"

Publicado por Fairy_morgaine em setembro 16, 2004 10:35 AM
Comentários

adorei a continuação!!Fizeste um diálogo óptimo acerca das inquietações,angústias,incertezas,que mts d nós temos.Identifiquei-me bastante com o k escreveste.E kero ver este projecto nas bancas ;)
Beijinho

Afixado por: lacshimi em setembro 16, 2004 12:01 PM

Continua.
É um texto bonito que toca pontos vividos por muitos.

Como eu o entendo!

Afixado por: João Norte em setembro 16, 2004 04:20 PM

Fascinante...pouco mais seria capaz de lhe fazer justiça. Beijo

Afixado por: iceblackice em setembro 16, 2004 10:39 PM

Belissimo**

Afixado por: Black Rose em setembro 17, 2004 12:33 AM

Subscrevo o que lacshimi disse em cima. Sem dúvida que expões muito bem os sentimentos e as dúvidas que nos povoam.

Afixado por: Filipa Sousa em setembro 17, 2004 01:24 AM

Perdidos no nosso labirinto...faz sentido o que dizes.
Um beijo.

Afixado por: Monalisa em setembro 17, 2004 09:56 AM