setembro 08, 2004

Café com natas - parte I

- Há quanto tempo não te sentes triste?
- Duas semanas... talvez mais.
- E então?
- Consegui fazer uma vida perfeitamente normal nesse espaço de tempo e isso assusta-me mais do que tudo o resto. Sabes... a tristeza eu conheço-a, mesmo do avesso. A apatia é-me também familiar. Mas a normalidade, isso não. É totalmente descolorida...
Onde a tristeza é negra, a normalidade é inexistente. Sabes... quando a poeira assenta quero partir tudo. Quero destruir as relações e as amizades que construí tão devagar... O tempo não é antídoto para a monotonia das relações...
- Da última vez que falámos estavas apaixonada... Acreditavas no amor...
- Não sou eu que acredito ou não... O amor é que não acredita em mim... As coisas estão sempre bem. Eu estou sempre bem. Mas depois sinto nojo.
- Nojo?
- Sim, nojo... Das conversas, das aparentes caras de felicidade quando se sentem vazios e também eles ententem o quão inútil é acordar amanhã num mundo que se está a cagar para eles.
- Já pensaste que podem ser felizes?
- Já.
- E?
- É impossível foda-se... Estar feliz trezentos e sessenta e cinco dias por ano é sinónimo de ser-se estúpido.
- ...
- Para além disso se não se sentissem absurdos num mundo todo ele sem nexo não bebiam que nem uns filhos da puta - risos - As figuras tristes que fazem sempre me dão para me rir durante alguns minutos... Ajudam a passar o tempo.
- Às vezes parece-me que és um bocado hipócrita. Aparentemente gostas de estar com pessoas. E depois divertes-te com a miséria dos outros.
- Não nos divertimos todos? Não brindamos todos às desgraças dos outros? Não discutimos as suas falhas em cafés de higiene duvidosa? Se bem me lembro, não há muitos anos, o mundo inteiro parou para atentar nas fodas do Clinton. Eu dou essa ribalta até ao mais palerma que conheço. Atento nas suas fodas, nos seus erros e nas suas contradições.
- Às vezes assustas-me.
- Diz antes... às vezes assusto-me.
- ...
- Obrigada pelo silêncio. O que eu preciso não é de silêncio.
- Então precisas de quê?
- Sei lá... compreensão... alguém que me ouça e me consiga dar uma resposta minimamente coerente. Não é como os meus amigos que tresandam a álcool e a esperma retardado nas calças.
- Então porque és amiga deles???
- São os que estão perto. De qualquer das formas a maioria das pessoas de hoje é assim. Dão-lhes drogas e álcool para esquecerem os vazios que crescem dentro de si mesmos. Eles fingem esquecer. Depois atingem um ponto em que só há dois caminhos: ou morrem, os filhos da puta, ou atiram-se a vidinhas sem sentido onde andam sempre a babar-se em cima das gajas do escritório e a chorarem pelos bons tempos da juventude em que tudo era rambóia e falta de responsabilidade.
- E tu... és responsável?
- Eu não. Mas também não sou hipócrita ao ponto de dizer que sou.
- Não te compreendo.
- Deixa lá. Eu também não.


in "café com natas"

Publicado por Fairy_morgaine em setembro 8, 2004 08:22 PM
Comentários

Belo conto..
gosto de reflexões.;
o pior de tudo é que hj em dia há tanta hipocrisia...

te beijo

Afixado por: Nefertari em setembro 8, 2004 08:27 PM

a normalidade, para miim, também é descolorida...
beijos
///~..~\\\

Afixado por: arabella bella em setembro 8, 2004 09:09 PM

a normalidade, para mim, também é descolorida...
beijos
///~..~\\\

Afixado por: arabella bella em setembro 8, 2004 09:09 PM

Uns dias lá vamos nós encontrar os nossos amigos, os sorrisos mais ou menos genuínos e parece que aquilo chega. A maior parte dos dias, ficamos a pôr em causa todos os sorrisos, todas as não-conversas, todas as prioridades ridículas e pensamos que o nosso lugar não existe. E ficamos em casa para não ver nada. E depois começamos a pensar que não temos lugar em sítio nenhum. Isto dava cá uma conversa...Beijinho.

Afixado por: Monalisa em setembro 8, 2004 09:21 PM

Este texto tem, como eu costumo dizer, pano para mangas - dá muito o que pensar....bjs

Afixado por: blueshell em setembro 8, 2004 10:00 PM

Muito bonito Sílvia...

beijinho
jenny

Afixado por: joana em setembro 8, 2004 10:54 PM

Excelente este texto. Lúcido e crítico. O que é o Café com Natas? Um livro teu?

Afixado por: LolaViola em setembro 8, 2004 11:19 PM

monalisa: talvez um dia tenhamos essa conversa.
lolaviola.. café com natas é um projecto talvez um futuro livro. beijo

Afixado por: fairy_morgaine em setembro 8, 2004 11:30 PM

escrever sobre o que escreves precisa de uma enorme reflexão.
nada na tua forma literária é o que parece. Induzes com mão de mestre ao erro. Chamar-lh-ía o "erro grosseiro" e nem por isso muita gente atenta nele.
Estou a ver o teu reverso. Melhor: os teus muitos reversos. As tuas multiplicidades que se explanam numa apoteose de sentidos contraditórios, incoerentes e coerentes a um tempo.
Depois fazes tudo isso com mão de génio.
Bolas Sílvia. Sem dúvida que és genial.
Beijitos amiga

Afixado por: LetrasAoAcaso em setembro 8, 2004 11:36 PM

Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez crua da verdade...

Fraternas Saudações,

Afixado por: Fernando Bizarro em setembro 9, 2004 12:11 AM

Gostei do texto. Também eu é raro me sentir normal
Se algum dia a minha vida, a minha história decorrer normalmente, acho que até vou estranhar...
Gostei do teu modo de escrever. Muito mesmo.
Bj.

Afixado por: Doryanne em setembro 9, 2004 11:02 AM

:) Um texto para pensar, sem dúvida... :)

Afixado por: Filipa Sousa em setembro 9, 2004 02:15 PM

I M P E C Á V E L!!! **;)

Afixado por: D. em setembro 9, 2004 05:39 PM

Perfeito...

Afixado por: Black Rose em setembro 9, 2004 07:17 PM

Gostei muito deste texto, principalmente pela forma nua e crua como tratas o conteúdo...

E gosto da forma forte como usas as palavras, sempre no limiar, nunca caindo no grosseiro, nunca caindo no politicamente patético.

E gosto de ti. :)

*

Afixado por: Catarina em setembro 10, 2004 12:19 AM

:)

Afixado por: lacshimi em setembro 10, 2004 01:20 PM

É isso mesmo será que nos entendemos mesmo ou por vezes fazemos de conta?

Afixado por: Oféliazinha em setembro 10, 2004 01:56 PM

Gostei...

O que é que esconde um sorriso?

E o que é que tu escondes por trás deste texto?

Gostei!

Beijo grande,

Afixado por: Sandro Almeida em setembro 10, 2004 02:41 PM

Belo texto que nos leva a pensar, gostei mt de o ler, fico a espera do "Café com natas" numa livraria perto de mim.

Beijinhos...

Afixado por: mauro_mars em setembro 10, 2004 09:27 PM

hmm... promete... e eu que gosto tanto de natas..

Afixado por: boemius em setembro 13, 2004 01:36 AM

Um peojecto?!
Só te posso dizer - força amiga! Já te tinha lançado o repto, qualidades não te faltam.

Afixado por: João Norte em setembro 13, 2004 11:16 AM

ah, a ausência de cor e a monotonia da normalidade... cruamente retratadas. Muito, muito bem.

Afixado por: Márcia em setembro 13, 2004 01:55 PM

A normalidade não me assusta. Talvez porque andei largos anos a desejá-la, sem nunca a conseguir, e é para mim agora uma nova modalidade. E gosto dela. Sendo "feliz à maneira mderna", como diz o Goldmundo. A anormalidade é que me faz tremer; sete anos ou mais nela não me fizeram habituar. Tinha um escudo forte por fora, que protegiam já cacos cá dentro.

Como as coisas podem ser maravilhosamente simples quando está tudo "bem".
A estupidez de quem é feliz o tempo todo recordou-me algo: há dois tipos de idiotas. Esse tal idiota, o feliz, e o outro que tem um grau de compreensão suficiente para ter a noção de que o é.
Seria de ser um desse que teria medo. Esses, sim, são infelizes. Os outros estão em paz.
[acho que já disse isto algures. Enfim, perdoem-me estar-me repetir]

Afixado por: ~Nevernaya em setembro 13, 2004 03:07 PM

Só os imbecis são felizes o tempo todo,(fingem)
se conformam, condicionam (morrem))
e nada mais tem a fazer do que tentar
provar a tal desconhecida emoção..(lamento)
Tu descreves cenas do cotidiano
de alguém que quer mais.. muito mais..(percebo)
bjs.. bjs!!

Afixado por: em setembro 13, 2004 09:24 PM

tão directo..tão verdade..tão inatingivél..tão perfeito..

adorei o teu blog*

Afixado por: Louka de Plantão em setembro 14, 2004 12:06 AM

Eh pá, se calhar vou ser mauzinho, mas enfim. Primeiro, estou chateado contigo porque, pelos vistos, já regressaste de férias e nem foste capaz de mandar uma palavrinha ao teu amigo (vais arranjar muitos amigos assim, pois vais), depois, queiram-me desculpar os teus acólitos, mas a verdade é que tu sabes que eu não ando cá por ver andar os outros, minha cara amiga, e o teu texto precisa de muitos reparos. Está escorreito, está sim senhor, mas é hipócrita, ou seja, padece dos mesmos males que ele próprio referencia. Muito sinceramente, o calão, e falo por experiência própria, como tu bem sabes, é uma faca de dois gumes. O seu uso excessivo pode ser intencional, de forma a enfatizar determinada ideia, mas quer-me parecer que este texto tem aspirações neo-realistas, por assim dizer. A forma escrita aproxima-se deliciosamente da que é comum utilizar-se na fala de rua, mas, muito sinceramente, duvido muito que tu (na pele da personagem principal, que eu reconheço como um teu alter-ego) fales assim tão mal, e que não te pareça demasiado piegas isto que te estou a dizer, porque não o é. Tens muito talento, Sílvia. Já tive oportunidade de to dizer mais do que uma vez, mas quer-me parecer que escreveste zangada, o que não tem nada de mal, quer-me parecer que estás mesmo muito mal com o mundo, o que se percebe perfeitamente e também não tem nada de mal, mas quer-me parecer, no entanto, que estás a canalizar a tua energia negativa e a tua revolta nas pessoas erradas, o que, na tua idade, é perfeitamente compreensível. Sendo muito inteligente, és, no entanto, tragicamente pouco atenta ao que se passa à tua volta. Se eu não soubesse (saberei mesmo?) o que te leva a andar assim tão furiosa, diria que és uma má escritora, o que não é verdade. Desculpa ir contra a corrente do que aqui já foi efusivamente manifestado pela maioria, mas é assim que eu vejo as coisas. Levem-me preso por isso.

Ah, é verdade, já vi aquele filme que tu uma vez me falaste, AS HORAS, lembras-te? Pois é, pois é... é fácil perceber porque te identificaste tanto. Terei todo o gosto em discutir o filme contigo, se é que ainda te lembras do meu endereço.

Abraço.

Afixado por: joZef vengoZ em setembro 14, 2004 01:23 AM

Numa só palavra: AMEI!!

Afixado por: Raquel em setembro 14, 2004 09:45 PM

potente, directo, obriga a introspecções ;)
gostei :)

Afixado por: Ardente_Mente em setembro 15, 2004 12:49 PM