setembro 06, 2004

As palavras torneiam-me

Aqui fica um texto escrito antes das férias.


As palavras torneiam-me.
Vou ao espelho e espero ver escrito na minha testa uma palavra imensa. A escorrer sangue porque ficou tatuada na pele.
Mas vejo apenas a brancura enjoativa da minha cara. Nada mais.
Nada mais onde poderiam estar tantas coisas, tantas palavras, tantos mapas e fotografias da infância.
Olho de novo, desta vez mais demoradamente. Os olhos mais abertos. Não. Nada.
Nada.
Nada.
Nem uns lábios impressos de um último beijo furtivo na porta da tua casa.
Nada.
Todos os sorrisos me escorreram pelas mãos.
À minha volta estão lagos de lama. As sereias mortas nas margens. Inocentemente nuas. Expostas.
Nas testas delas brilham diamantes que projectam imagens do começo do Universo.
Vês?
E em mim, nada.
Afasto o cabelo do rosto. Procuro um sinal, uma seta que indique o caminho que os teus dedos percorreram quando me tocaram pela primeira vez. No contorno dos lábios encontro sílabas perdidas e famintas de pontos finais.
Lavo-me, esfrego-me freneticamente.
Sei que se procurar bem estará lá alguma palavra, escondida nas rugas que os pesadelos sulcaram na minha pele.
Nada.
Quebro o espelho. Quero esconder-me da verdade.
Quero dormir debaixo da cama onde ninguém me poderá encontrar.
Quero fugir das palavras.
Quero fugir de mim mesma.
Nada.
Pinto as paredes. Sinto que aranhas as comem enquanto durmo. Pinto-as.
Nada.
Saio para a rua, ouço as sirenes, as pessoas apressadas, as almas inchadas de arrastarem os corpos pela calçada, as bocas abertas atravessadas com gritos mudos nas gargantas.
Corro.
Corro à procura do fim do horizonte.
Crianças a pedir nos passeios. Crianças ranhosas nos passeios.
Corro.
Nada.
As aranhas que me perseguem, esfomeadas das paredes da minha casa que pintei e se tornaram intragáveis.
Atiro os pincéis para o chão. As crianças ranhosas comem os pincéis. Comem os pincéis nos passeios.
Nada.
Fujo.
O horizonte mais perto. Mais perto.
As aranhas comem as crianças.
Comem as crianças nos passeios.
Nada.
Horizonte a fugir.
Horizonte mais perto e no entanto infinitamente longe.
Tapo os ouvidos. Tapo os ouvidos. Tapo os ouvidos.
Mulheres a chorarem nos passeios.
Homens a violarem outros homens, a romper outros homens, homens a pisar outros homens, homens a comerem outros homens.
O horizonte mais perto.
O horizonte infinitamente longe.
Carros a atropelarem homens. Homens a incendiarem carros.
As aranhas ainda no meu encalço.
As pernas a quebrarem-se-me com o peso. O peso dos meus pecados. O peso dos pecados das crianças. Das mulheres. Dos homens. Dos carros.
O horizonte mais perto.
Macacos a parirem crianças. Novas crianças para alimentar as aranhas.
Macacos a conduzirem carros. A atropelarem homens.
Macacos a fugirem com o meu horizonte debaixo do braço.
Nada...
Nada...

Nem uma palavra escrita na testa.
Só a minha pele. Só a minha pele pregada no horizonte.
No horizonte preso debaixo do braço do macaco.
Deus a rir-se de nós. Deus a ver uma novela e a comer crianças.
Deus a comer macacos.
As pernas a quebrarem-se. A quebrarem-se. A quebrarem-se.
Nada...
Só o vazio a crescer. O vazio a engolir as crianças. As mulheres. Os homens, os carros, o horizonte.
O vazio a engolir deus.
O vazio.
O vazio do nada escrito na minha testa.


13-08-2004

Publicado por Fairy_morgaine em setembro 6, 2004 09:45 PM
Comentários

Choro ao ler o teu blog....
Só te queria dizer isto...

Afixado por: Paula em setembro 6, 2004 11:37 PM

Fico sempre com um grande problema quando leio os teus textos: raramente sei o que dizer.

À medida que foste avançando nas linhas, dei por mim a imaginar a tua face incrivelmente branca e livre das normais imperfeições, e perguntei-me várias vezes o porquê de o teu reflexo no espelho te devolver, a todo o instante, nada.

Depois olhei para o Livro em Branco que tenho aqui ao meu lado e abri-o, uma folha incrivelmente branca e livre das normais imperfeições, e eu escrevi, escrevi aquilo que te escrevo aqui, hoje, e percebi que essa brancura e essa perfeição permite que se escreva em ti a estória do Mundo, essa que tu nos devolves, agora que te vês ao espelho, que te sentes nada, agora que te sinto e que te sei vazia de ti e do que contaste...

É na mais branca folha que se escreve a palavra mais carregada...

*

Afixado por: Catarina em setembro 7, 2004 07:25 PM

Fairy, este teu post tem algo de grandioso. Nele vi sombras de Brueghel e de Paula Rego. E pressenti uma angústia imensa expressa como muito poucos o sabem fazer. Bem-vinda :-)

Afixado por: Dora em setembro 7, 2004 07:52 PM

O vazio que engole todo o mar.. o vasto silêncio que assombra a minha alma.. O vazio.. o vazio que escrevo no ar..
o vazio que escorre poe entre as veias o vazio do sangue bolorento a deslizar pelo punhal.. as rosas negras.. o vazio do meu corpo.. o vazio da minha alma.. o vazio...

Belissimo
Black Rose

Afixado por: Black Rose em setembro 7, 2004 11:05 PM

Bom regresso.
Espero que com a saúde em boa forma.

As palavras podem não estar escritas na tua testa, mas por baixo na tua grande imaginação.
Beijos de boas vindas.

Afixado por: João Norte em setembro 8, 2004 12:06 PM

Belíssimo post.

Afixado por: César em setembro 8, 2004 12:16 PM

Fairy, arrepiante minha querida amiga. Aqui está o nosso mundo, cabe a nós preenchê-lo de tantas coisas boas, cabe a nós... e devemos fazer a nossa parte, mesmo que não apague a grande fogueira e não acabe o grande vazio.
Beijos, todos para ti que tão bem sabes sentir a dor. Tens esta coragem, qdo tantos são omissos.
Bjinhos.

Afixado por: anne em setembro 8, 2004 07:49 PM