agosto 22, 2004

Chuva no meu peito

Era chuva nesse dia de Verão que caia no meu peito triste
e eu vergada que estava pelo sabor do teu beijo cansado,
nem a sabia, nem a sentia, nem a saboreava.

Era chuva que via escorrer na pele do crocodilo mais próximo,
aquele que se espreguiçava indolentemente na lagoa
azul, tão azul que parecia ter sido recortada daqueles livros
que não li em criança e tanto me pesaram anos mais tarde,
na sua inusitada ausência.

Era chuva no meu peito, a escorrer-me dos seios, a pingar-me dos mamilos,
a suar-te os lábios negros com que me sugavas o leite virginal,
a pender-te nos cantos da boca sôfrega desse mamar primordial.

Era chuva, penso eu, e no meu íntimo desenho caminhos que vão dar ao teu ser
monótono e monocórdico (deito-me junto à lareira e espero ansiosamente pelo intervalo
deste filme erróneo e cheio de nós).

No fim deste encantamento melódico das gotas fartas que me empastam o cabelo
relembro o teu nome e num sopro trémulo envio-o pelos esgares do tempo
para que numa outra era, num outro mundo, uma outra realidade, outras possibilidades
ao ouvi-lo te possa saber e amar suavemente como não soube e não pude
enquanto chovia no meu peito e eu não sabia.

22-12-2003

Publicado por Fairy_morgaine em agosto 22, 2004 01:58 PM
Comentários

Era chuva.
A escorrer pelos teus seios.
Era chuva o amor que corria dentro do teu peito.
Era chuva o carinho com que te dás.
Era chuva o encanto que transmitem as tuas palavras.

A chuva... esse renovar da vida. esse eterno retorno.

um beijo, minha amiga.

Afixado por: João Norte em agosto 22, 2004 03:08 PM

É a 1ª vez que aqui venho, dei uma vista de olhos e gostei.
Este texto demonstra que és uma pessoa sensível e que escreves de uma forma profunda e tão bela os teus sentimentos de amor. Gostei muito.
Bjo.

Afixado por: Estrela do mar em agosto 22, 2004 10:42 PM

Não sabias. A inocência é esse estado em que não sabemos. Nessa altura vivemos na Arcádia. Depois, sentimos a dor e aprendemos o sentido das gotas de chuva que tudo querem inundar.

Afixado por: Dora em agosto 23, 2004 10:28 AM

A tua chuva parece quase um constatar de uma realidade indesejada...

A tua chuva parece um escorrer das tuas lágrimas sobre ti mesma.

Dá vontade de dizer: - Não chores...Mais tarde ou mais cedo a vida dá uma volta! Dá sempre..

Beijo grande

Afixado por: Sandro em agosto 23, 2004 10:40 AM

Mais uma vez...Brilhante.

Afixado por: lacshimi em agosto 23, 2004 08:18 PM

A chuva faz de nós seres escorregadios, e seres poucos tocáveis... Faz...

É inevitável passarmos pelo Tempo da Chuva, é inevitável marcarmos encontros para uma outra era, é inevitável querermos mexer no Tempo, é inevitável mas o Tempo da Chuva passa e também encerra a sua Vida dentro de nós.

Talvez estejamos no Tempo da Chuva pequena.

*

Afixado por: Catarina em agosto 23, 2004 11:04 PM

É chuva...mas de poesia e de sentimentos...que a chuva não pare

Afixado por: IceBlackIce em agosto 24, 2004 06:07 PM