agosto 12, 2004

Parte XXIV

Coitada da Rosário.
Deixou a escola cedo, trabalha numa repartição, levanta-se cedo, deita-se tarde, vê novelas, faz sexo sem prazer, finge orgasmos, finge sorrisos, finge viver.
Coitada da Rosário.
Lá está ela, curvada, toda ela silêncios e gritos espasmódicos, a negar-se, a negar a felicidade e a liberdade da mente, ela sempre foi uma pessoa fiel, sempre foi íntegra, sempre foi boa mãe (he pah mas os miúdos são umas pestes, porra), sempre foi boa telespectadora, vê novelas a Rosário, lava os filhos, lava as camisas do marido, lava a esporra do marido dos lençóis, lava a cara, lava a casa de banho, curva-se, está tão curvada, deve lavar muito.
Coitada da Rosário.
Mas dizem por aí que o marido (não fui eu que vi, contaram-me entende?) anda metido com uma sirigaita do escritório, veja lá bem, coitada da Rosário, tão boa mulher, e ele a fazer-lhe aquelas coisas, malvado do homem, então não dá valor e ela lava tanto, ela esfrega tanto, ela faz tanto e engole tanto, e silencia-se tanto, e esconde tanto…
Coitada da Rosário.
Sabe que ontem ouvi uma discussão, via-se bem que era a voz da Rosário e do marido, aquele senhor forte que anda sempre com aquela pasta na mão (é contínuo mas leva uma pasta muito jeitosa para o emprego) e a trela do cão na outra, estavam aos gritos lá em casa, acho que telefonaram para a Rosário a acusar o marido de andar com uma sirigaita do escritório…
Já não se fazem homens como antigamente.
Coitada da Rosário.
Então veja lá a Rosário está separada do marido, pareciam dar-se tão bem, eram um casal tão feliz, têm dois garotos tão engraçados (caralho dos miúdos são umas pestes, partem tudo…ainda ontem me escavacaram um vaso daqueles lindos que tenho no patamar da escada) e agora estão separados, veja lá a vizinha como a vida dá voltas, uma pessoa nunca pode dizer que está bem. Então mas oh vizinha não me tinha dito que o homem andava com uma gaja qualquer lá do escritório? Oh vizinha isso são só más-línguas, coitado do senhor, nem tem cara disso, parece tão pessoa, cá para mim a Rosário engraçou-se com alguém, essa é que é essa.
Coitado do homem. É trabalhador e tal. É boa pessoa. Não merecia que a Rosário o deixasse...

in "Memórias de Rapunzel sem asas"

Publicado por Fairy_morgaine em agosto 12, 2004 05:45 PM
Comentários

Os comentários ao Projecto em si ficam para o final, quando a obra estiver ou parecer completa. :)

Neste excerto é fantástico ver os rasgos de realidade que imprimes na fantasia. É. Na realidade as pessoas também passam de santas a putas, de infiéis a santos com essa brevidade.

Ainda te queria dizer que a repetição ' Coitada da Rosário' está muito expressiva.

Estou a gostar... :)

*

Afixado por: Catarina em agosto 12, 2004 07:34 PM

Olahhh Sílvia!

Eu também estou a gostar muito do que leio... Continua.

****** jenny

Afixado por: joana em agosto 12, 2004 08:46 PM

:) beijinho

Afixado por: lacshimi em agosto 12, 2004 10:37 PM

Parecia q tava no meu "bairro" a ouvir as minhas vizinhas a falarem da vida das outras pessoas esqucendo-se elas q tb têm casa e maridos . É tao facil falar da vida das outras pessoasserve pra esconder tanto . Muito obrigado por existires e por escreveres tão bem , fico todo arrepidado c algumas coisas q escreves n te envio um beijo pq os beijos n se enviam dão-se felicidades pra ti e pra tua escrita

Afixado por: Bad Seed em agosto 13, 2004 10:07 AM

Perfeito esse texto. Adorei o título- Rapunzel sem asas.

Afixado por: Márcia em agosto 15, 2004 12:18 AM

continua!

Afixado por: nikonman em agosto 15, 2004 12:58 PM