Rosário
E se eu morresse?
Ias amar outra como me amas a mim? Ias tocá-la e ansiá-la como me anseias a mim?
Deixo as perguntas brotarem-me dos lábios, inseguranças, necessidades, abrigos do meu amor desmedido e sem fronteiras.
Prometes-me que não, que jamais a tua vida seria a mesma sem o meu riso fácil, os meus jogos mentais perigosos.
A sedução que se nos cola na pele.
Estranha e estupidamente dou por mim a acreditar nas tuas palavras. As palavras são armadilhas da e para a mente.
Elas seguram-nos as impetuosidades, amarram-nos as inseguranças.
Acredito em ti. Porque sei que és um homem que só ama uma vez. E porque tenho a certeza que esse amor sou eu.
Ainda assim, e pensando bem, todos os homens amam apenas uma vez. Há sempre um amor que cresce nos olhos e se propaga na alma.
Esse é o único e verdadeiro amor. Todos os outros são vãs tentativas de reproduzir a intensidade e imagem desse amor.
As pessoas sentem quando o amor não é o Amor. E mesmo sem confessarem a si mesmas a sua alma continua ansiosamente à espera do outro pedaço que se perdeu algures por alturas da Criação e anda, também ele, esfomeado da presença da outra.
Assim, entregam as suas mãos enquanto os seus olhos continuam vazios. Cheios de nada para dar.
Dão-se ao mesmo tempo que se negam e se refugiam dentro de insinuações dolorosas da mente que, implacável, grita verdades ao eu consciente.
As pessoas afogam esses gritos em silêncios de indiferença e pudor.
Anos mais tarde surgem gritos por todo o lado. Erguem-se das suas sepulturas precoces, e colam-se às paredes das casas e dos corações das pessoas.
Rebentam as canalizações e as veias. Chegam mesmo a ameaçar o equilíbrio físico e mental da casa, e dos seus donos.
As casas também têm uma mente, sabes?
É uma mente conjunta, resultante da fusão das mentes do casal, dos filhos, das visitas habituais. A casa também respira, também pulsa e quando é esvaziada para mudança também ela deprime e sente saudades dos beijos e silêncios dos seus ocupantes.
Pode-se calcular a idade de uma casa pelas rachas nas paredes. As pessoas dizem que é do desgaste, mas eu digo que são rugas. As casas sofrem com o sofrimento dos donos, dos corpos que a alimentam de felicidades e infelicidades.
Os gritos rasgam as casas. Rasgam as pessoas.
Alojam-se nas costas e curvam a coluna até que a pessoa parece doente e agastada. Os vizinhos murmuram está tão velha a Rosário, nem parece a mesma coitada, deve andar a trabalhar de mais, o marido também não a ajuda, os garotos são duas pestes.
Coitada da Rosário.
Publicado por Fairy_morgaine em agosto 11, 2004 09:24 PM