julho 16, 2004

O primeiro dia do resto da sua vida

- Não receias o meu silêncio?
- Não - respondeu-lhe ele ao ouvido - amar é ouvir e saber compreender os silêncios e os sorrisos envergonhados do outro.
- Nunca desconfias que possa estar a pensar num amante? Num outro homem que não tu?
Ele sorriu-lhe e beijou-lhe os dedos da mão pequenina.
- E tu? - retorquiu-lhe - nunca tens medo dos meus sonhos, dos meus olhos fechados a meio da manhã, dos meus dedos que tentam em vão aprisionar o Sol?
Ela sorriu-lhe, enigmática, escondendo os pensamentos e as palavras.
- Não te escondas - implorou-lhe, beijando-lhe as pernas esguias - não te feches assim quando tento entrar em ti.
Clara abriu as pernas, deixou que ele a tocasse, ávido, embriagado com o seu perfume e os seus becos mentais, as suas perguntas sem resposta.
Deixou que ele a descobrisse, que a penetrasse e a tomasse, iludido na sua sensação inválida de posse.
Sabia interiormente que não o amava nem o iria amar. Mas gostava da quando ele lhe passava a língua pelos ombros, pelas costas, pelas nádegas de branco leitoso.
Deixou escapar um gemido e fechou os olhos.
Preferia não ter de o olhar directamente e ler-lhe nas linhas do rosto o amor desmedido, cego que o ligava a ela.
Contorceu-se no orgasmo.
- Foi bom? - perguntou ele, inocentemente ávido da sua aprovação, do som quente da voz feminina.
- Sabes que desprezo perguntas a seguir ao sexo - disparou Clara, enquanto se erguia e se vestia suavemente.
- Não tapes os seios.. Deixa-me afundar-me neles mais uma vez...
- Estou atrasada, tenho uma aula daqui a uma hora e sabes como é o trânsito a esta hora...
Sabia que estava a ser fria, talvez até rude, mas os olhos lânguidos de Marco enjoavam-na, faziam-na sentir que de alguma forma o tinha violado, lhe devia algo mais que um beijo rápido nos lábios.
"Estou a matar a minha liberdade e amor próprio nesta relação sem futuro" - pensou amargamente.
Desceu as escadas do prédio ainda com o sabor amargo a tabaco dos lábios dele.
"Preciso acabar com isto... prometi a mim mesma que me ia deixar destas relações inconsequentes, destes encontros pálidos... Quero ser vulcão e sou apenas um rio parado nas margens" - sorriu para o espelho do carro, um sorriso irónico e cheio de sentimentos perdidos, rasgados, soltos no tempo.
Pegou no telémovel e enviou-lhe uma mensagem.
Amanhã iria ser o primeiro dia da sua nova vida.

Publicado por Fairy_morgaine em julho 16, 2004 09:48 PM
Comentários

Sensual e brutal.
A decisão justa e egoísta da nova mulher para um novo milénio.
E mais... bem escrito. As palavras podiam fácilmente ter morto o conteúdo. Congrats. Again.

Afixado por: OffLimitZ em julho 17, 2004 12:34 AM

´Bem feito!.. Quem o mandou fazer perguntas parvas?!::: (brincando)

Mais um texto intenso como são sempre os teus.

Afixado por: João Norte em julho 17, 2004 07:04 PM

:) akele bjinho

Afixado por: lacshimi em julho 17, 2004 08:18 PM

não receio o teu silêncio

Afixado por: fernando esteves pinto em julho 17, 2004 10:48 PM

De novo ao teu melhor nível, Sílvia.
Forte, intenso e belo.
Beijos

Afixado por: LetrasAoAcaso em julho 17, 2004 11:35 PM

A dificuldade de romper com uma coisa que afinal é tão boa para nós é tão, mas tão grande...

É-me muito difícil comentar este post...

Está Lindo.

*

Afixado por: Catarina em julho 18, 2004 01:19 PM

Penso que não posso acrescentar muito mais ao que aqui já foi dito. Estás, como disse o/a LetrasAoAcaso, no teu melhor nível. A escrita, apesar de ser em prosa, possui toda a sensualidade do verso. Um poema narrado. O assunto que, infelizmente, é tão comum, foi tratado por ti com uma delicadeza imensa. Adorei mesmo muito este teu post. Continua :)

Afixado por: downthesun em julho 18, 2004 05:34 PM

Fairy,Vim agradecer-te o comentário, porque acho que ainda não o fiz, embora venha muitas vezes ler o que escreves.Admiro a tua forma de escrever. Beijo

Afixado por: Monalisa em julho 18, 2004 06:47 PM

"Quero ser vulcão e sou apenas um rio parado nas margens"
Essa frase é soberba e resume o conto. Parabéns. Um beijo daqui.

Afixado por: Márcia em julho 18, 2004 07:50 PM

Sentimentos e sentidos assim acontecem, bela percepção sua......paabéns!
Al

Afixado por: Al em julho 18, 2004 08:05 PM

Sensual e com uma lição a aprender... não alimentar relações sem amor mútuo... não prender as asas em sensações mortas e ensalúbres... bjs***

Afixado por: †Profetiza†Morta† em julho 18, 2004 08:08 PM

uma amostra de ond estaria o amor hoje? dificil e quase impossivel responder.

Afixado por: samira em julho 18, 2004 11:08 PM

Parabens, Fiquei maravilhado com a tua escrita.
Gostei em particular deste texto, que achei tão profundo, e também porque quase o relato fiel de uma situação que se passou comigo, ainda estou arrepiado só de o ler, pois o mesmo avivou nas minhas memorias uma coisa que já queria ter esquecido.

Beijinhos...

Afixado por: mauro_mars em julho 19, 2004 11:34 AM

Muito bonito :)

Afixado por: Duendezinho em julho 19, 2004 02:07 PM

Bolas... é fortemente belo este post, já senti isso.
Beijos

Afixado por: Sara(vert) em julho 19, 2004 02:12 PM

Quando alguém sente pena de um dado ser, tornasse presioneiro dessa teia invisível, que o afoga ao mesmo tempo que o conforta, por pensar que apenas não deseja maguar esse ser, deixando de se ouvir a si mesmo, ou calar o impulso do coração.

Afixado por: alicia em julho 19, 2004 11:16 PM

Não sei como comentar lol ;) Gostei, muito.

Afixado por: Filipa Sousa em julho 20, 2004 11:21 AM

Já te li bem melhor. No fim de ler isto só me ocorre uma grande verdade: de facto as mulheres não precisam de tesão para foder, basta-lhes abrir as pernas. Da minha parte posso-te dizer que pertenço àquele grupo de homens que no fim do sexo não perguntam às mulheres se gostaram ou não, e isto por uma única e simples razão: estou-me cagando. Não sei se este conto vai ter continuação, mas... muito sinceramente, espero que não...

E sabes que mais? Vem-me agora à cabeça aquele provérbio klingon no início do KILL BILL (não sei se já viste, eh eh eh eh!), que diz o seguinte:
"A VINGANÇA É UM PRATO QUE SE SERVE FRIO."

Afixado por: joZef vengoZ em julho 20, 2004 10:06 PM