julho 13, 2004
O meu mundo não faz sentido sem a tua voz
Ouço a tua voz pausada e leio por entre os espaços mortos que abraçam as palavras, que a tua voz se quebra e se encaminha para um vale de dor.
Abraço-te junto a mim e com mãos de pluma seco-te as lágrimas cansadas, murmuro-te palavras de conforto que não tive, nem tenho para mim.
Afago-te a pele enrugada e ouço as palavras dos outros ressoarem-me nos ouvidos.
Eles têm razão. És muito bonita, avó. Tão bonita e tão pequena, um ser frágil e etéreo e simultaneamente tão forte, dois braços que embalaram os netos, as desgraças e as tormentas.
Quando olho a tua face não vejo os anos de punhos cerrados a lutar por um futuro. Vejo uma mulher que embora anciã me parece uma menina, e imagino-te, avó, imagino-te criança a brincar ao toca e foge.
"Quando eu era mais nova e vivia com o teu bizavô..." , começas tu e eu sento-me perto de ti a beber-te as estórias e a sabedoria.
Eu, mais do que ninguém sei os teus sorrisos e as tuas preocupações. A tua pele de veludo e cheiro doce de creme hidratante.
Depois ouço-te murmurar: "não..eu não compreendo..." e sei no meu íntimo que te culpas e lanças sobre ti toda a tortuosidade dos caminhos que nem são teus. E ouço-me dizer.."eu também não". E ficamos em silêncio, numa partilha muda da indignação e vergonha que nos cobre os corpos.
Continuas e desfias por ti anos de sofrimento e cansaço. Protestas contra a ausência das nossas crianças, dos seus barulhos e birras. Dizes que elas te fazem falta para afogar as recordações, para apagar todo e qualquer vestígio de pensamento.
Olhas para mim e eu sei, eu sei avó... Não preciso que o coloques em palavras.
Deito-me no teu colo como não fazia há muito tempo... E nesse gesto ouço-te cantar-me, ouço-te recontar vezes sem conta a história da Gata Borralheira (era a minha favorita, lembras?) e vejo-te nas festas da minha escola primária com os olhos inundados de orgulho. Ouço-te na noite do baile de finalistas do secundário dizer..."a minha menina é uma mulher...". Vejo-te sorrir.
Estiveste sempre lá, avó. Onde mais ninguém esteve. Só tu.
Apenas eu aprendi a compreender os teus silêncios. Os teus olhares gélidos quando o avô te carrega os ombros com o seu temperamento díficil.
E sim, avó... A tua comida sempre foi a melhor.
Queria apagar de ti todos os abusos, toda a miséria, todos os anos a comer sopa ao pequeno almoço. Queria dar-te a tua mãe, queria dar-te a minha. Mas as minhas mãos estão tão vazias como as tuas.
Ainda que o meu coração esteja preenchido contigo.
Não quero imaginar que um dia não me vais sorrir, nem me vens trazer o lençol de banho quando o esqueço, não me vens perguntar se quero leite quente antes de dormir.
O meu mundo não faz sentido sem a tua voz.
"Então vens ao café com a avó?
Sim vou... onde é que pus a mala?
Mas tu nunca sabes onde pões as coisas? - gargalhadas.
Ora pequenina... já encontrei...vamos lá...tu queres é miminhos da neta..."
Publicado por Fairy_morgaine em julho 13, 2004 10:23 PM
Um linda homenagem à avó. A frase " queria apagar de ti todos os abusos, toda a miséria, todos os anos a comer sopa ao pequeno almoço " até me arrepiou.
Um linda homenagem à avó. A frase " queria apagar de ti todos os abusos, toda a miséria, todos os anos a comer sopa ao pequeno almoço " até me arrepiou.
Mais do que te falar da excelência da tua arte, prefiro falar-te de uma outra arte que dominas na perfeição: a arte de te dares.
É muito mais do que uma homenagem. É o reconhecimento de que sem a figura da avó nada seria possível, o que a transforma para sempre numa referência importantissima para ti. Um dia, lembrar-te-ás que te escrevi isto.
Beijo-te Sílvia
O neto é a hora do carinho ocioso
e estocado, não exercido nos próprios filhos,
e que não pode morrer com eles.
Por isso os avós são tão desmesurados
e distribuem tão incontrolável carinho.
Os netos são a última oportunidade
de reeditar o Afeto.
Muito lindo Sílvia..
Obrigado pelo seu estimulante e simpático comentário, ao meu post, no Memórias do Presente. Fiquei muito sensibilizado com a sua escrita. Tão bonita, tão repleta de sentimento, tão comovedora, como a deste seu post.
Coloquei lá um link para não me esquecer de vir cá mais vezes. E vou pôr outro no http://puxapalavra.blogspot.com/ onde blogo com outros amigos para eles não ficarem prejudicados.
;) uma bela homenagem sim...akele beijinho
Gostei da ternura, Fairy. Muito bonito
Devido à minha recente paixão fotografica.. resolvi criar o
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Que o Oculto esteja do teu lado....
†Luna†
Feliz a avó que tem uma neta que sabe dizer estas palavras tão bonitas. palavras sentidas, porque só o coração sabe ditar palavras como estas.