julho 09, 2004

Os teus pés percorrem, hoje, caminhos que a mim já me cansaram

Se me queres ensinar o valor de uma lágrima fá-lo. Mas não me grites o quanto dói ser diferente, o quanto dói ser tão igual e, no entanto, desejar a diferença do fundo do coração.
Se tentas, ainda que em vão, provar-me a tua miséria, o teu infortúnio, então ergue-te e canta-mo do alto do orgulho de se ter atravessado a nado sem sequer pisar uma ponte.

Mas não, isso não, não me enchas de palavras e falta de atitudes, não me tentes nem me atires aos pés cansados, teorias de solidão e amargura.
Porque neste mundo ninguém conhece a solidão de estar tão só no meio de tanta gente, como eu.
Não procures em mim compadecimento e compreensão. De mim só ouvirás palavras de ordem: "levanta-te, ergue-te, atira-te de um penhasco mas vive...".
Fico à espera que te suicides de uma vez ou que aprendas a morder a vida com raiva e com desfaçatez.

Se procuras em mim olhares de piedade e conforto... enganas-te. Eu sou aquela que nunca te irá abraçar o corpo mole e incitar-te à preguiça, ao desmazelo, à cegueira com olhos vivos e não usados.
Sou, isso sim, aquela que te empurra, te esbofeteia, te grita, te incita, te atira do penhasco se tu não te atirares por ti mesmo... Aprende a voar de uma vez, porra!
Cansas-me os cansaços que me restam depois de anos a mastigar o próprio infortúnio.
Eu isolei-me, eu rasguei os laços de amizade e pseudo-amizade, eu gritei e chorei e mortifiquei-me e com isso a doença ganhou-me e alimentou-se de mim até eu me encolher de dor e rezar, rezar, rezar por piedade e colo de Mãe.
Hoje, erguida, renascida, controlada, conformada com os desaires do destino cuspo nos dias e memórias de fraqueza...
Não... a auto-piedade não nos leva a lado nenhum. Deitarmo-nos numa cama a morrer, a cheirar a nossa própria podridão só nos leva aos limiares da loucura.
Estive doente de corpo e de alma. Mas ESCOLHI continuar. Continuar sempre, pisar os meus próprios dejectos, rir-me do meu fado e ainda assim continuar.
A vida são meras espirais de ciclos mais ou menos longos.
Ciclos sagrados que tu vês passar sem lhes tomar o sabor...

Por isso se esperas que te abrace e te conforte, desculpa, não o farei.
Mas puxo-te o braço, seguro-te o corpo, amparo-te a queda, sorrio-te em noites escuras, embalo-te os pesadelos e beijo-te a fronte nos momentos de desilusão.
Mas piedade, não.
A piedade morreu-me nas noites em que gritei sufocada pela dor, à espera de uma mão que não vinha, um colo que nunca chegou... um beijo que nunca aconteceu.

Publicado por Fairy_morgaine em julho 9, 2004 09:53 PM
Comentários

Absolutamente espantoso..

Afixado por: OffLimitZ em julho 10, 2004 04:17 AM

Imaginásses tu, querida Sílvia, o sentido que todas estas palavras fazem para mim. Cada vez mais, sinto a tua verdadeira dimensão. Um grande beijinho.

Afixado por: Maria Oliveira em julho 10, 2004 03:44 PM

Um texto duro, incisivo, real e pertinente. Assinaria embaixo.
Um beijo do outro lado mar.

Afixado por: Márcia em julho 10, 2004 03:55 PM

sem dúvida k o teu grito é cada vez mais denso e profundo...;) akele beijinho

Afixado por: lacshimi em julho 10, 2004 08:18 PM

Piedade não!...
Respeito. Compreensão e Admiração por essa força que imana do teu espírito, da tua inteligência, da tua vontade de viver.
Só te posso oferecer um beijo de agradecimento pelo que nos ofereces, pela beleza das tuas palavras.

Afixado por: João Norte em julho 10, 2004 08:47 PM

Isso é força ou raiva?

Afixado por: Pedrosa em julho 11, 2004 02:36 AM

És espantosa. É fabulosa a forma como tu descreves os teus variados estados de espirito.
Força
Beijo.
MAD

Afixado por: MAD em julho 11, 2004 05:56 PM

Adorei a energia desse texto, parece um grito, aliás, é um grito!
Bjs!!!!

Afixado por: Anielle em julho 11, 2004 06:29 PM

Menina! Arrepiou-me! Difícil não sentir a tua fortaleza neste post.Incrível Silvia. A cada dia que te leio, mais parabenizo-te pela capacidade de estrita. Uauuuuuuuuu! É isso mesmo amiga, força, determinação. A vida dispensa os fracos. Um beijinho e obrigada pelo e-mail.

Afixado por: anne em julho 11, 2004 07:40 PM

Lembraste-me as palavras inicias da "Cidadela", do Saint-Exupery: "É que nao foram poucas as vezes que vi a piedade enganar-se.". Olá, Fairy. Não sabia que te encontrava aqui. Se não, teria vindo há mais tempo, muito mais tempo.

Afixado por: Goldmundo em julho 11, 2004 11:11 PM

Encontro aqui tanto poder nas palavras. Erguer, lutar. Não esperar que a dor domine. Auto-comiseração? Atitude mesquinha de quem nada tem. Nem orgulho de si. Tu és força. És palavra. Saio maravilhada cada vez mais com a forma como escreves. Besos

Afixado por: Alma em julho 12, 2004 12:40 AM

Amiga, tu escreves mesmo muito bem... não deixes essa dor te sufocar, liberta-te dela porque como tu dizes e bem "A vida são meras espirais de ciclos mais ou menos longos".Só não há remédio para a morte e essa ainda não chegou... beijos

Afixado por: Lara em julho 12, 2004 06:21 AM