julho 01, 2004

O ser humano é um puzzle sempre interminado

O ser humano é um puzzle sempre interminado.

Sinto a alma quebrar-se em pedaços que me rebentam nas têmporas.
Sinto-me encardida de amor e náusea.
Descubro-te. Desnudo-te. Receio-te.

Tenho a mente corrompida de tantos gritos e silêncios inesperados.
Não poderei chamar-lhe tristeza. Quiçá uma amarga melancolia. Quiçá uma solidão que se alojou profundo na alma.
Quando a solidão se torna a nossa única esperança de sobrevivência, descobres a tua face no espelho.
E o reflexo nunca é o que esperavas.

Tenho as mãos a escorrer de sangue dos inocentes.
Agarrei-os na queda. E eles esbofetearam-me, arregaraçaram a sua inocência perante os meus olhos, cuspiram-na a meus pés...

Nada na vida é linear.

Os abandonos vivem-nos para sempre gelados nos dedos...

Conheces a traição? A traição da pele. Quando se despe um casaco de amor e se veste uma pele de insinuações e abusos?

Conheces a minha alma?

Tenho as pernas atravessadas de espinhos. Tenho o sangue comido do veneno dos que amei. Tenho o rosto violado das lágrimas, do desespero e da loucura.
Conheces o outro lado do amor?

Vou-te sussurrar um segredo... Queres? A minha poesia é toda ela sentida, é toda ela verdadeira, é toda ela amargura de viver... Sussurro-te... e tu não ouves.

A música desce-me pelos ombros e aquece-me. É fogueira de sentires.

Guardas o meu segredo? Conheces-me e amas-me assim?

Tive medo. Medo do nojo dos outros. Tive medo e por isso (re)criei-me forte e segura.

Sabes o que é afogar uma criança no mar? Eu afoguei a minha criança no mar, cega de desespero e dor. Eu deixei-a a boiar sozinha nas águas salgadas e revoltas.
Porquê? Porque não podia ser criança.

Mas não contes... não digas a ninguém... Eu ainda tenho medo do exterior.
Eu vivi em mim demasiado tempo para agora sair sem sentir tonturas e me precipitar nos teus braços.

Guardas o meu segredo?
Eu voltei ao mar onde me deixei.
Mas o meu corpo já não estava lá.
Gritei por mim mas ninguém respondeu.
Gritei por mim e engoli as lágrimas...

Sabes o que é escrever pedaços de ti em papel, arrancá-los de coração?
Sabes o que é chorar sílabas para a brancura imaculada da criação?

Conheces a faca que te rasga o pescoço? Conheces a mãozinha inocente que a segura?
Conheces a traição do amor? Conheces a traição?
Conheces o amor?
Conheces a faca?

Eu afoguei-me...
Eu afoguei-me em palavras e poesia.
Eu aprendi a projectar-me para não perder o senso.
Eu perdi-me... mas ainda assim ganhei-me outra vez pela palavra, pelo segredo...

Vamos fingir que é tudo mentira, agora.
Vamos fingir que a minha vida é poema.
Vamos atirar conchas ao mar.
Vamos fugir daqui para sempre.
Vamos recriar-nos em nós...

Guardas o meu segredo?
Morri a tentar afogar-me no mar.
Onde vivo agora, não sei.
Onde moro dentro da minh'alma?

Existem tristezas tão profundas que se recusam a sair cá para fora.
Vivem em nós para sempre. Abraçadas ao nosso coração.

Vamos morrer no mar...


Amanhã renascemos abraçados, nus, perdidos, (in)felizes?

(sussuro-te) guardas o meu segredo?

Publicado por Fairy_morgaine em julho 1, 2004 04:24 PM
Comentários

Que belo poema...que profundo.beijinhos da luacheia (www.luacheia.blogs.sapo.pt).

Afixado por: Joana em julho 1, 2004 04:31 PM

Vamos recriarmo-nos nas palavras.

Todo o poeta se desfaz e se refaz em cada poesia.
As palavras são os seus tecidos desfeitos, arrancados das entranhas e refeitos nas palavras com que se recria e se projecta em cada poesia.

Afixado por: João Norte em julho 1, 2004 06:23 PM

sempre doro e muito vir até aqui e saborear suas palavras. Pena eu não ter tido mto tempo para tal. Mas, sempre que posso, venho, viu?
bjus
///~..~\\\

Afixado por: arabella bella em julho 1, 2004 06:36 PM

=) beijinho...

Afixado por: Lacshimi em julho 1, 2004 08:40 PM

Lindíssimo! vc tem muito talento, gosto imensamente do que escreves.
Querida mto obrigada pelo recado. (liguei)Valeu!!!
Deixo-te muitos beijos, e antes de ir releio-te.

Afixado por: em julho 2, 2004 04:08 AM

Aqui estou eu, lendo-te novamente.Encantada.
Tenho tantas sensações, ao ler-te. Algo meio inexplicável (como tudo..
Silvia, eu poderia postar um dos seus textos no Luz?? Seria uma honra para mim, levar-te para lá!! se não te importares, me avisa..
bjs e bjs..(vou sem ir)

Afixado por: em julho 2, 2004 01:06 PM

"O ser humano é um puzzle sempre interminado" - Ainda bem.
Gostei das (tuas) palavras.
...a criança afogada que boia...(imagem daquelas!)
**

P.S - O nome do blog: 10 points!

Afixado por: D. em julho 2, 2004 07:12 PM

Já não consigo chamar ao que leio aqui talento; esse permite as mais das vezes apenas escrevinhar. E tu não escreves, muito menos escrevinhas; respiras poesia, simplesmente. Somente os eleitos conseguem dar às palavras a ilusão de simplicidade...

...e tu juntas-lhes ainda uma força rara; percorres com ela uma viagem íntima, profunda, onde te descobres e revelas, morres e renasces continuamente,mais forte e mais conhecedora da tua própria verdade e sem no entanto retirares às TUAS palavras e ao que com elas dizes a universalidade que as faz também, tal como ao que escreves, em parte, pertencente e igualmente válido para cada um dos que aqui te lêem.

Sublime!

Afixado por: João em julho 2, 2004 08:19 PM

Eu também concordo. Aliás, tenho quase a certeza que penico de barro não enferruja.

Afixado por: Acolito Espirita em julho 3, 2004 01:44 AM

da minha boca sairá nada...
sairam apenas palavras de confirmação,
dir-te-ei apenas, sim,
vamos morrer no mar, porque lá renasceremos uma e outra vez, para novamente morrermos nos nossos lábios.

Afixado por: bruno em julho 3, 2004 02:52 AM

sinto-me mesmo, mtas vezes, como um puzzle e, pior, não me imagino coseguindo encaixar todas as peças...
bjus e um super fim de semana
///~..~\\\

Afixado por: arabella bella em julho 3, 2004 03:55 AM

O que tu sentes, daí o que escreves, é tão belo que me arrepia de uma forma indiscritivel... Deves estar farta de ouvir isto dos teus leitores mas a verdade é que me sinto plenamente identificada com tudo o que escreves! És definitivamente uma génia da literatura blogueira! Bjos !!!

Afixado por: Gilly em julho 3, 2004 10:53 AM

Gritei por mim mas ninguém respondeu... Essa sensação tão comum hoje em dia... Lindo texto! Beijocas,

Afixado por: Anielle em julho 3, 2004 07:30 PM

Ai! Que texto! Maravilhoso!
Silvia minha linda, consegues parar a minha respiração quando te leio. Provocas muitas sensações e encantas. Esta criança jamais morrerá, mesmo que a afogue várias e várias vezes pq ela é forte e renascerá sempre.
Beijinhos.

Afixado por: anne em julho 3, 2004 07:46 PM

Não o comentei no dia em que o escreveste deliberadamente, na altura não soube o que dizer, não soube o que sentir, não soube o que pensar.

Hoje, depois de o ler novamente, também não sei. Não existe nada que possa destacar, porque todas as sílabas mereceriam o destaque, nem posso acrescentar nada, porque neste texto não permites acrescentos - está completo.

Não sei se o ar que respiras é bom, sei apenas que quando sai do teu peito ele vem mais rico.

Um beijo grande.

Afixado por: Catarina em julho 3, 2004 08:38 PM

Alguém me recomendou que viesse.
Letras ao Acaso. E acabei por ficar rendida à tua escrita.
Bela. Belíssima.
Sem palavras por agora.

Inicias logo de uma forma encantadoramente assustadora:
«Sinto a alma quebrar-se em pedaços que me rebentam nas têmporas.»

Vou continuar a ler.
Isto sim, é escrever.

Beso

Afixado por: Alma em julho 4, 2004 12:32 AM

Gostei tanto que tenho de voltar com mais calma.
Beijos

Afixado por: Sara em julho 4, 2004 11:48 AM

mto belo. Gostei bastante. Tmbm eu virei visitar-te em breve para ler melhor os teus pensamentos, tormentos, whatever!
bjcs

Afixado por: Zoo-music girl em julho 4, 2004 12:51 PM

Fuja...minta...viva...voe...
facas oq sua amla desejar pq assim podera ser mais do que uma alma...
conheces sua alma...
sonheces seus sonhos...
e sabes que sempre tera asas...mesmo que sua fe as apague por algum dia...


estava com saudades...vc sumiu...

bjinhuss

Afixado por: Deb em julho 5, 2004 06:25 PM