junho 25, 2004

Auge

Sinto-te.
Embora não estejas cá.
Será que compreendes isso? A presença subtil de uma ausência amarga e inevitável.

Sinto-te.
Mas não estás em mim.
Estás algures perdido nos teus mundos... Tento em vão perder-me nos teus braços. O teu olhar que é meu está agora desfocado, perdido, apaixonado por imagens que não as minhas.
Bato aos portões desse céu onde te resguardas e tu uivas, mas não abres.
Eu sei que sentes a falta viciosa do meu beijo suave, tão suave que mal te toca os lábios entreabertos.

Sugo-te.
Sim, amor, sugo-te quando penetro o teu céu. Sabes, é que a beleza sempre me apavorou. A luz incandeia-me.
Preciso da escuridão para conseguir esvoaçar pelos espaços vazios do amor.

E tu perguntas-te: "mas o amor tem vazio?".
E eu desiludo-te ao dizer-te, que logicamente, como tudo o que é imperfeito, tem vazios profundos.

Sim, o amor é imperfeito.
Mas porquê? - pensas tu. Porque senão morríamos extasiados com o seu brilho estupidamente inebriante.
E isso ainda não aconteceu.

Ainda.

Embora eu anseie pelo momento em que iremos ambos morrer depois do orgasmo, cobertos de suor e cinzas. Cinzas dos nossos cabelos, incendiados.
Tudo o que é sublime é fugaz, meu amor.
É por isso que o orgasmo dura alguns segundos e não horas inteiras. Porque assim que nos habituássemos a ele, não o iríamos mais saborear. Porque iria ser banal, comum, estúpido.

Nós não somos fugazes. Mas eu rezo, eu mastigo o momento do fim.
Do fim deste momento ridículamente perfeito.

O teu céu desafia o meu parco equilíbrio.

Preciso de um ponto negro onde me agarrar. Um varão de escada, sempre a descer.
Para um poeta a escada é sempre a descer. Nunca a subir.
É de sentido único.

Mas para um amante a escada é o fim do possível... É o muro de onde se atira.
É o mar que lambe os pés descalços.

Para o amante a escada é o dilema.
O dilema de assassinar o amor, atirando o corpo mole pelos degraus de pedra fria. E assim tornar o amor imortal porque ficou espelhado no último sorriso. Nos olhos abertos e cheios de uma última imagem.

A minha última imagem és tu.

Quando morrermos velhos, assoprados de dores e sentimentos agudos e malignos, rancores e palermices da idade, a imagem que nos vai morrer no olhar é tão só a dor amor perdido porque não foi assassinado.
Foi uma perfeição que nos escorreu pelos dedos apenas porque não foi terminada no seu auge.

O auge é a escada de todo o amante. Aquela que leva ao suicídio... Aquela que leva à ultima imagem que és tu.

Publicado por Fairy_morgaine em junho 25, 2004 09:42 PM
Comentários

Fui mais uma vez atravessada pela fúria de te ler ininterruptamente...

Um Beijo

Afixado por: Sílvia em junho 25, 2004 10:13 PM

Sem dúvida...Beijinho

Afixado por: Lacshimi em junho 25, 2004 10:33 PM

/me esfrega as mãos...

Cof Cof.

Sabes que eu concordo contigo?
Deixamos fugir a perfeição, deixamos fugir o momento do auge e tudo o que se segue é pura desconstrução do que fora sentido. Por isso nunca acabamos em grande como nos filmes, nunca toca aquela música perfeita, nunca estão as pessoas perfeitas no momento da nossa morte. Estamos tal como somos. Imperfeitos. Demasiado Imperfeitos.

O teu texto não está cheio de imperfeições e isso prova que quando escrevemos temos alguma facilidade de atingir o auge, de chegarmos mais próximos do orgasmo, de ficarmos perto perto do actual ideal de perfeição.

Gostei muito. Quero que saibas. :)

Beijinho Grande.

Afixado por: Catarina em junho 26, 2004 12:53 AM

Caramba, como gosto dos seus textos. Que lindo esse. Que maravilhoso. O amor, para mim, resvala nesse sentimentos cheios de dúvidas, certezas, contradiçòes, medos, desejos...
beijos e um supre fimde para ti
///~..~\\\

Afixado por: Arabella bella em junho 26, 2004 02:14 PM

Muito, muito bonito :)

Afixado por: Ardente_Mente em junho 26, 2004 05:41 PM

Lembrei-me do mito de Ícaro que se aproximou demasiado do sol brilhante e o calor que deste emanava derreteu a cera que colava as suas asas. Vale a pena VOAR mais alto? Vale a pena MATAR o momento? Aquele que escolhemos? O MAIS PERFEITO dentro dos IMPERFEITOS? Talvez...
Beijo,

Afixado por: Filipa Sousa em junho 26, 2004 11:59 PM

o amor nos sugando...nos tomando conosco?
Oq é poder sentir uma pessoa que esta conosco de alguma forma?é como de repente ela se tornasse o vento...o ar e beijasse nosso rosto em busca de nossa alma?
ando confusa..
as vezes sinto como se caminhassem comigo...

fantasmas....aqueles meros que ainda continuam querendo tomar conta de nosso coração

Afixado por: Deb em junho 27, 2004 01:34 AM

afinal ainda há príncipes encantados. porque é que eu nunca te encontrei?

Afixado por: leonor em julho 8, 2004 04:11 PM