junho 22, 2004
A sensualidade da escrita
A escrita aproxima as pessoas de uma forma quase assustadora.
É como identificar nos outros parcelas de nós mesmos.
Ler nas palavras perdidas em blogs, livros, crónicas, as nossas loucuras, os nossos mais inconfessados anseios.
Os laços que se criam entre duas pessoas apaixonadas pela escrita faz com que se apaixonem entre si e partilhem silenciosamente rasgos mentais.
Um espelho por vezes algo grotesco em que vemos o nosso íntimo no íntimo do outro, o nosso sorrir no sorriso do outro.
E a dor na dor do outro.
Duas pessoas que partilham dor nunca mais poderão ser indiferentes aos vultos dos seus corpos.
Quantos desses encontros fugazes com as nossas metades perdidas no mundo, soltas a voar no espaço da criação?
Quantas palavras ficam por ser ditas nessa mútua compreensão amargamente doce.
Quantas sensibilidades iguais, atracções criadas e recriadas nesse espaço-tempo criativo e sensual?
A escrita é espaço de tentação. De tensões que aproximam e a afastam os possuídos.
Só outro possuído para compreender a possessão.
E não é isso que todo o ser humano procura? Compreensão?
Essa identificação serena e ao mesmo tempo revoltada em que queremos ser o alvo do poema, queremos ser o amor e o amado, queremos ser o destinatário dessas palavras, dessas teias invisíveis e no entanto, tantas vezes palpáveis.
Sim, a escrita, é um acto sensual.
Uma veste que nos torna tão deslumbrantes aos olhos dos outros... dos que nos desnudam devagar, com profundo deleite.
Talvez tudo se resuma a isso... A um amor imenso que nos assoma e nos entrega nas mãos que seguram a caneta. Nos dedos que batem no teclado.
Sendo dos meus leitores, não sou porém de ninguém. E isso torna-me muito mais apetecível.
Muito mais... etérea e majestosa.
Por isso me escondo. Me resguardo. Para que possam sempre sonhar com a deusa que gostam de idealizar.
E que, infelizmente, é tão humana. Tão imperfeita e estupidamente humana.
Visto-me de escrita e danço para vós. Desnudam-me devagar e eu deleito-me, num orgasmo literário, numa sensualidade crescente e viciante.
Quando saio do palco volto apenas a ser eu... Coloco suavemente as minhas vestes num armário enorme e suspiro.
Aqui nos bastidores fico sozinha. E mesmo assim cheia de outras personagens que leio e releio pelos dedos dos que amo ler. Enebriada de criatividade.
E amo... amo a escrita... amo os escritores e as suas palavras.
Mesmo quando estou sozinha... E preenchida de ti.
Publicado por Fairy_morgaine em junho 22, 2004 11:42 PM
e nós, os que te lêem, preenchidos por ti.
e como eu gosto de te ler!
A escrita de fato aproximas as pessoas.Foi bom vir retribuir a sua visita. : )
Sim se ela nos aproxima n deixa d ser paradoxo e tb nos pode afastar/repudiar...Td depende do uso k s faz das palavras...
Beijinho
Aproxima, estreita e aperta em gestos desiguais e desancorados a mesma inesgotável paixão q se perpetua em cada letra. Como um fantasma q nos guia e aqueçe sempre q o nosso ser se perde e arrefeçe.
Um beijo p ti
Eu poderia ter escrito isto.
Com menos maestria, mas ainda assim, completamente identificado com tudo o que dizes.
Criam-se cumplicidades quase orgásticas. Nudezas e nem tanto - contradições das sensualidades criativas - que deleitam outros e nos fazem tantas vezes sofrer.
Criar é tb um acto de contricção.
Beijitos Sìlvia.
Cada dia, a tua excelente escrita, amadurece mais e mais.
P.S. Visitaste o blog da LU?
Vale a pena.
É uma amiga mui especial. E tem o raro dom da escrita.
Bjs
Como é maravilhoso ler-te.
Como é maravilhoso ler-te.
Há os escribas e os escritores.
Os fazedores de versos e os poetas.
Escritores e poetas são aqueles que escrevem porque amam a escrita e a poesia.
escrever. é essencial. reside.
abraço.
escrever é uma necessidade para mim.. um vício...
meus dedos pedem pela escrita, minha mente implora para que eu passe para o papel todo o turbilhão que nasce, se cria e prescisa criar asas, dentro de minha mente...
escrever é mais.. muito mais. Ultrapassa...
Faço parte dos viciados em escrever...
bjus...
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Belo, verdadeiro, completo... o teu texto é o que sinto. Escrever, completa-me. Apaixono-me pelas palavras e pelas minhas tão simples palavras, já se apaixonaram.
Concordo que devas te resguardar, te esconder, para que o leitor possa sentir, imaginar, conforme sua fantasia. Adorei o texto, Silvia Serei sempre tua Fã.
Beijokas mil. Obrigada pelo retorno, sobre o comentar. Bom fim de semana.
o cenário da vida onde os sentimentos contracenam com as mentiras e o escritor, o espectro circundante, observa e aspira as verdades do interior humano.
todas as vezes que passei por aqui, vi o que tu viste, senti o que julguei que sentiste e entrei no interior das tuas palavras. são tuas e não minhas. se não vim aqui mais vezes foi para não tropeçar com sentimentos paralelos e para não ter que saber o que nunca cheguei a ler. agora escuto mas finjo-me muda. se pudesse oferecia-te um bolo de chocolate para agradecer a tua escrita.
Acabaste de o provar agora com este post, pois cada palavra que disseste, colou-se à minha pele e infiltrou-se nos meus sentidos! LINDO LINDO, melhor opá, melhor só mesmo PORTUGAL OLÉ OLÉ!
Texto muito bonito. Eu gosto de livros e poemas com pessoas lá dentro. Obrigada pela tua visita. Um beijinho