junho 21, 2004

Medo

Era uma palavra... Apenas uma palavra e no entanto os meus lábios selaram anos de inconformismo e dor.
Como se o organismo se recusasse a ser feliz, a fazer as coisas bem...
Sabes que deixar de ser "eu", para ser nós é um processo lento e nem sempre bem sucedido.
A mente é dona de estranhos buracos e armadilhas.
Penso que também sabes isso.
Por isso torna-se inútil dizer-te palavras que conheces e mesmo assim recusas entender.
Dói-me lembrar-te ajoelhado a meus pés a implorar perdão por um pecado que nem sabes que cometes. Dói-me porque queres apagar as minhas lágrimas com as tuas.
Era apenas uma palavra... uma palavra a negar a estranha necessidade de ser tua sem o ser.
Sabes que quis fugir? Fugir de ti, fugir do amor que te tenho e me prende as asas... Fugir de ti e consumir-me nesta infelicidade mórbida.
Ainda assim, agarraste-me com força, as lágrimas a escorrerem-te pela face, a desfazerem-te o coração.
Sabes que sou cobarde? Sim... profundamente cobarde.
Estupidamente cobarde e no entanto amas-me assim. Ou aprendeste a amar-me.
Qual das duas foi, interrogo-me... Mas por muito que o faça nunca vou descobrir.
Porque as tuas mãos se selaram em volta das minhas, os teus braços esmagaram a minha cobardia, o meu medo de amar.
Ser feliz nem sempre é fácil, sabias? Ser feliz às vezes também dói. Porque ter-te a meu lado é toda a minha felicidade, a minha única felicidade e no entanto por vezes parece-me tão distante, tão hercúleo.
Mesmo quando abafas as minhas lágrimas nas tuas.
Já te disse que ficas lindo quando choras? Na infelicidade também existe poesia. Nos teus olhos perfeitos de lágrimas também existe amor. E por isso é belo.
É nas tuas lágrimas que vejo o meu coração. Porque ele está dentro de ti. Numa profundidade que só as lágrimas alcançam.
Sim... é em ti que vivo e no entanto quis fugir de ti, trazendo a morte no regaço.
Porquê, perguntas-me tu, e deitas-te em mim, e sufocas-me de beijos e amor.
Porque amar-te é a única coisa que não sei fazer. Porque me surpreendo a cada dia com este amor. Porque ele me ultrapassa e me enche de maresia.
E por isso amor, tenho medo. Medo da grandiosidade. Medo de precisar de ti mais do que precisas de mim. Medo de acordar de um sonho e morrer a recordar os teus lábios...
Medo do medo de amar.
E ainda assim, enlaças-me em ti.
Quero-te, dizes tu. E eu sei, estranhamente, que é verdade. Sei... e assim silencio o medo, apago as lágrimas e adormeço em ti.

Publicado por Fairy_morgaine em junho 21, 2004 10:25 PM
Comentários

é dos textos mais bonitos que já li, a sério! adorei! Um grande beijo e um obrigado pelas palavras lindas!!

Afixado por: Filipa Sousa em junho 21, 2004 11:05 PM

Vou deixar de comentar os teus textos! É que me vão faltando as palavras para não me tornar repetitivo...

SOBERBO...e com tendências para melhorar (como se tal ainda fosse necessário...)!

Obrigado por compartilhares as tuas viagens interiores tão profundas e emprestares a tua voz de forma tão sublime a um grito que é também de tantos dos que aqui te leêm e que não sabem romper os seus silêncios...

Afixado por: João em junho 22, 2004 12:52 AM

Uma viagem pelo cérebro, pela alma pelo coração. estilhaçar de sentimentos contraditórios que se querem charneira para a felicidade.
Quase cosmológica esta tua viagem pelo mais recôndito de ti.Desnudas-te sem te desnudares.
Uma crónica. O que acabaste de escrever é uma crónica. A finalidade é reflectires, fazendo reflectir.

Não com a maestria, mas como génio que te é tão peculiar. É teu.

Por me faltarem palavras. curvo-me.
E beijo-te.

P.S. A Lu veio vistar-te por indicação minha. Disse-lhe e bem, que a tua escrita é genial.
Pequei por defeito.

Beijos

Afixado por: LetrasAoAcaso em junho 22, 2004 01:02 AM

Adorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Boa semana para ti!! :)Beijos.. Bruno

Afixado por: Bruno em junho 22, 2004 05:38 AM

:) um sorriso para conter a emoção transbordante deste texto magnífico...Beijinho *

Afixado por: Lacshimi em junho 22, 2004 05:13 PM

Ñ tens nenhum texto ou poema sobre aquelas «coisas secas» q ñ envolvem sentimentos? O q + me desgosta na «literatura feminina» é a montanha-russa afectiva: ao primeiro olhar surpreendo-me, ao segundo quase me entusiasmo e ao terceiro já me aborreço... mas eu tb sou suspeito. Escreves mto bem.

Afixado por: KLATUU em junho 22, 2004 06:26 PM

O Medo é irmão da Esperança.

Afixado por: João Norte em junho 22, 2004 06:58 PM