junho 16, 2004
As filhas da puta
Sinto-me totalmente entupida de palavras. Elas são tantas e tão intensas que me rompem os olhos e ainda assim não querem aprisionar-se no papel.
São imensas, estas malditas palavras. Escravizam-me a alma, de tão poderosas e senhoras de si. Queria poder libertar-me das suas amarras e escrever, escrever, escrever febril e apaixonadamente mas elas não se dão.
Entopem-me, as filhas da puta. Preciso desse momento íntimo entre mim e a minha alma que se concretiza em forma de poesia, preciso urgentemente desse momento como quem agoniza num leito de morte.
Se eu pudesse ao menos explodir em sílabas e significados de veludo... se eu pudesse num texto transmitir toda a dor, todo o nojo, toda a ausência de esperança e compreensão...
Mas infelizmente, elas fogem... Elas negam-me. E eu nunca mandei nelas.
Alguns poetas (e outros menos poetas) pensam que as palavras são apenas matéria prima do sonho e que se desleixam, se deixam tocar e aprisionar facilmente.
Lamento.. mas isso não passa de uma mera ilusão. As palavras mandam no poeta, elas vergam o poeta, elas pesam ao poeta.
Sempre foram elas a comandar os passos da dança. E são caprichosas, as filhas da puta.
Raramente se entregam sem luta, sem suor, sem sangue no chão.
Sim, porque as palavras são como um relâmpago no céu.. completamente selvagens. São avassaladoras.
Ironia das ironias são elas a mais nobre expressão do espírito humano. Arte por excelência. Os quadros são meninos de nariz empinado, são belos, são quase perfeitos...
Mas as palavras, essas, são deliciosamente imperfeitas... Cheias de rugas e pedaços de significados complexos e misturados.
Ainda me lembro que quando terminei o meu primeiro poema senti um rasgão na pele e ainda trago a cicatriz a lembrar-me a minha primeira luta.
Enganam-se os que pensam que o poeta alguma vez ganha uma luta. Isso é como dizer que o humano é um deus. O poeta ganha-se a si mesmo. Às vezes... quando muito ganha o respeito e as lágrimas dos outros.
Poeta que é poeta forrou a casa com lágrimas e suor. Poeta que é poeta ganha-se às palavras... Poeta que é poeta nunca se assume nem se diz poeta. Que os poetas são loucos largados nas estradas nuas.
Poeta que é poeta viola-se pelas palavras... Fode com as palavras. Amarra-se às palavras. Morre pelas e com as palavras.
E no fim ainda murmura... "filhas da puta... ganharam-me mais uma vez". E morre sufocado pelas próprias lágrimas e vergonha de todos os poemas nunca escritos e que ficaram suspensos entre os lábios e os dedos, para sempre inacabados, sem alma e sem voz...
Largados.
E eu, raios, eu sinto-me entupida! Como uma caravela que sem rumo se perde nas águas à espera da inevitável derrota.
Hoje derrotaram-me as palavras. E é derrotada que com vergonha seguro nas pontas do poema que não escrevi...
Neste poema que simboliza todo o meu sentimento... E que eu não soube capturar.
Publicado por Fairy_morgaine em junho 16, 2004 10:44 PM
Devo dizer que sou um pouco analfabeto, para não dizer todo analfabeto.
Devo dizer que não tenho palavras para falar deste genial grito de silencio,
Mas que merece ser grito do maior som possível. Devo dizer que, hoje fiquei
Feliz por um tempo ainda que pouco ao ler o teu poema no dia de aniversário.
Obrigada por me dares, ou melhor por partilhares esses dom que tens.
Se entendo o teu grito, Sílvia!
A cada dia, a tua escrita é mais consistente, bela, sempre mui bela.
Forte, devastadora e sensível a um tempo!
Essa dualidade, faz de ti génio.
Beijitos, amiga.
Excelente texto. Identifico-me em muito com ele.
Tanto e tanto que, só agora entendi porque, por vezes, sinto as palavras f....das comigo. ;)
Beijos.
Li, reli e entupi.
As minhas palavras não chegam para dizer mais nada.
" E eu, raios, sinto-me entupido!"
Vai ao meu blogue.
Depois clica em "Jardim de Poesia"
Vê e lê o que está lá..
Beijitos
"Poeta que é poeta viola-se pelas palavras..."Tu fazes parte das vítimas...:) mas uma vítima kn choca e sim deleita pk do seu sofrimento não s notam as lágrimas e sim o esplendor da tua escrita...beijinho ;)
ah! que bem sabe ouvir alguém a gritar a sério(p.s.:: fernando, se leres isto dá um salto à minha barraca)