junho 10, 2004

Duas da manhã

São duas da manhã.
O vento sopra baixinho.
São duas da manhã.
E eu estou aqui à espera de mim.
Há pouco saí, bati com a porta, corri pelas escadas, atirei-me no lago e morri.
Era meia noite e eu morri.
E agora são duas manhã e aguardo o meu regresso.

Donde me ergo todas as noites, não sei.
Onde molho os pés, não sei.
Onde molho o cabelo, não sei.
Onde deixo as minhas lágrimas, não sei.
Onde me esqueço e me abandono, não sei.
Em mim nada mais há. O futuro é apenas um sonho da mente, um sonho de sobrevivência e desamor.

Pintei o meu rosto na árvore.
Pintei o rosto na casca da árvore mais alta.
Pintei a árvore no rosto. Pintei-a mais alta no rosto.
Pintei-a somente.

Foi o vento. Foi o vento que me molhou os pés e me lambeu os cabelos, me entregou desamor, me abraçou em dor, me agarrou e me largou no lago.
E eu morri.
Ele largou-me e eu morri.

Ele tocou-me e eu morri.
Ele beijou-me e eu morri.
Ele seduziu-me e eu morri.
Foi o vento.

Foi o vento que me pintou na casca da árvore mais alta.
O meu rosto. O meu rosto e eu morri.

São quatro da manhã e aguardo o meu regresso.
Teço em silêncio o rosto da árvore.
Que pintaram em mim.

Oito da manhã e não voltei.
Corro, saio, bato com a porta, atiro-me no lago, procuro-me, enlaço-me, abraço-me, embalo-me, sou eu e não sou, sou vento, sou árvore, sou o lago murmurante...

É meio dia e não voltei.
Não me aguardo e não me resguardo.
Morri e morro. A cada dia, a cada hora, traída pelo vento, desamada pela árvore, perdida no lago.
Perdida.
Morta.
Em mim.

Publicado por Fairy_morgaine em junho 10, 2004 08:59 PM
Comentários

Olá..venho várias vezs ver o teu blog..e perante o impacto das tuas palavras as minhas intimidam-se....e acredita que não é fçil...a verdade é que o silencio ganhou um novo sentido para mim..hoje gosto de usar as palavras quando sinto que elas falam mais alto que eu..que lutam desenfreadamente p algo dzerem...hoje nas tuas senti uma mistura muito grande de emoções,a revolta foi aquela que mais me tocu, talvez por tantas vezs eu propria me sentir assim...os meus gritos são mtas vzes em silencio, e sao talvez os mais dolorosos..saber que n ha kem possa ouvir...me sentir..reconheço o meu eu, mas nem sempre o sei controlar...sao nesses momentos que as palvras se exaltao e nada parece fzer sentido, nem o que escrevo..peço dsclpa se acntcer o msmo nste meu comentario...mas o que escreveste catapultou esse meu lado hje..n pude fcar inerte e nda escrever...n sei pk senti k opodia fzer aki...e k poderias cmpreender, por mais confuso que tudo o k escreva seja..enfim..gosto do poder das tauas palavras...interiorizei-as...e ao memso tempo fizeram-me questionar + uma vez tudo, nada...acima de tudo lembraram-me que estou viva..
jinhos
justbe

Afixado por: justbe em junho 10, 2004 11:50 PM

:) algo k m soa a músicalidade...como sempre mt bom.. ;)

Afixado por: Lacshimi em junho 11, 2004 10:28 AM

Noite de insónia em que o filme do passado persiste incomodativo na memória.

Profundamente "Neoromântico"

Afixado por: João Norte em junho 11, 2004 10:54 AM

A cada dia que passa se torna mais dificil comentar-te.
Porque tu fazes das letras, arma, escape, sedução, beleza.

Beijos miúda.

Afixado por: LetrasAoAcaso em junho 11, 2004 01:05 PM

E como já aqui foi dito, é realmente dificil comentar-te, por isso digo-te apenas, que gosto de cada palavra tua, que elas me prendem, que és fantástica!! Continua sempre assim!! Beijinhos e bom fim de semana

Afixado por: Maria em junho 11, 2004 11:32 PM

É fantastico a sintonia que mantemos mesmo afastados. Posso encontrar sempre aqui um pouco de mim e o pouco de ti que é meu. Lindo como sempre. Obrigado sis *

Afixado por: Hades em junho 12, 2004 01:45 PM

engraçado encontrar-te. sim , só podes ser tu.

Afixado por: zulu em junho 12, 2004 02:48 PM

É a 1ª vez que cá venho.Fui "atraída" pelo titulo do blog. E olhe lá- Fiquei impressionada pelo seu poder de expressão...Voltarei....

Afixado por: Valeria em junho 13, 2004 02:56 AM

Bem acho que grande parte de nós morre cada dia que passa.
Uns menos outros mais, os tristes, os rejeitados, os abandonados,
Os que sofrem do sofrer da dor que não se vê, os que são traídos
Mesmo que não seja pelo vento.
E esses são tocados e morrem e não regressão. Porque
Até ninguém os aguarda.

Uma um abraço Sílvia

Afixado por: fernando em junho 14, 2004 03:36 PM