junho 07, 2004

Espiral

Existem estados de espírito que se tornam instrínsecos a nós e às palavras que deitamos em laivos de criatividade ou melancolia.
A escrita foi a minha terapia e agora é o meu vício particular. Poderei mesmo dizer que por vezes é tóxica e corrosiva. Quando começo a escrever a minha linha de raciocínio é muitas vezes recta e linear. Mas após as primeiras linhas ganha vida e adquire um semblante próprio.
Por vezes rasga-me intempestuosamente na sua ânsia de sair e ser sílaba. Outras escorre-me lânguida e pálida.
Sou sempre eu que soluço poesia por entre as nuvens negras do meu rosto. Embora o meu eu seja tão vasto e tão ilimitado.
Eu não conheço os limites do meu eu. Se isso é prova ou não da sua imensidão ou prova da minha pouca capacidade de compreensão é um dilema que ainda não solucionei mas que me parece pertinente.
A escrita nunca foi um acto solitário. Pelo contrário, é um gesto de amor e entendimento entre mim e todo e qualquer leitor que nela resolva mergulhar.
Porém devo dizer que ler algo é um um percurso curiosamente perigoso. Podemos sempre perder o contacto com a realidade palpável do dia a dia e descobrirmos nuances mais esbatidas da vida que nunca tínhamos notado (embora estivessem lá desde o ínicio dos tempos).
Um dia, ainda me lembro bem, comprei um livro e engoli-lhe a capa. Confesso que a príncipio me senti um pouco enjoada, prenhe de cores e pincéis mas depois rebentaram-me os poros de arco-íris e bolas de sabão.
Guardo uma marca por baixo do seio esquerdo que prova que o livro era autêntico e que eu o engoli apressada, escondida dos demais, envergonhada pela minha fome de poesia e letras.

O livro era todo branco por baixo da capa. As suas páginas eram campos que nunca nenhuma criança tinha semeado.
Na última página tinha a tinta azul uma única palavra e o seu som encheu todo o meu quarto, atirou-se da janela e foi morrer junto à capela mais próxima.
Ao lado escrevi com a minha letra o meu nome e deixei o livro repousar numa estante velha e escura.
Ontem voltei lá e apenas encontrei um rasto de prata. Penso que o livro foi habituar outra criança ávida de ser mulher e escrever nomes e azuis.

O acto sagrado da escrita repete-se. É a espiral simbólica da minha psique.

Publicado por Fairy_morgaine em junho 7, 2004 09:31 PM
Comentários

Olá, quantas saudades! vim aqui várias vezes e ficava triste a pensar que havias abandonado teu lindo cantinho, onde deitas tua alma para repousar.
Escrever é um vício e completa-me. Assim é com todos que sentem esta necessidade. Que vício bom, não é mesmo?
Deixo o meu beijo e obrigada por voltares, linda.

Afixado por: anne em junho 8, 2004 12:50 AM

É...eu também gosto muito de ver os morangos com açúcar, e também gostava muito do kubanacan. fiquei fodidissímo quando acabou, acho que deviam repetir ininterruptamente na sic gold, enquanto a tvi devia dar o inspector max intercalado com o carlos ribeiro a fazer 1 directo do canil municipal de oliveira de azemeis e o sexy hot dava 1 hora de canzana.
Volta Salazar, redentor da pátria!

Afixado por: Acolito Espirita em junho 8, 2004 02:28 AM

Debaixo do teu seio esquerdo ficou um enorme livro. Um livro cheio de poesia, de sentimentos, de emoções. Um livro que vais abrindo aos teus leitores, que te amam porque na tua escrita transparece esse livro escondido sob o teu seio esquerdo, porque é grande demais para ficar aí escondido. Um livro que deves estimar para que continui a brindar-nos com palavras tão carregadas de beleza que nos emociona.

Afixado por: João Norte em junho 8, 2004 10:21 AM

o joão norte é um dos melhores críticos que passam por estas páginas.

quanto à tua escrita: a sensibilidade permanece intacta e prende-nos.

Afixado por: fernando esteves pinto em junho 8, 2004 02:23 PM

Tens toda a razão fernando. O joão é uma cereja no topo do bolo...
Uma mais valia neste espacinho de gritos silenciosos :)

Afixado por: fairy_morgaine em junho 8, 2004 02:39 PM

..e todavia esperas as minhas palavras, tal qual eu espero as tuas.

Esperei e deseperei por estes momentos em que na nossa infinitalidade, nos tornamos cúmplices nas letras.

Agora, estou um pouco mais em paz, pq escreves de forma divina..

Beijos Sílvia.

Afixado por: LetrasAoAcaso em junho 8, 2004 09:14 PM

Somos naturalmente imperfeitos. Por isso desculpar-me-ás decerto o egoísmo que também me faz estar hoje aqui; não pela sinceridade com que saúdo o teu regresso, nem pelos sentidos votos que te encontres bem, tão pouco pelos sempre invitáveis elogios que a tua escrita sempre merece, mas sobretudo porque não consigo deixar de pensar, com muita felicidade (a tal "pontinha" de egoísmo) que o teu regresso aqui ao teu cantinho me permite também regressar...ao que de melhor encontrei por esta "blogosfera".

Parabéns...e FORÇA!

Afixado por: João em junho 9, 2004 11:14 PM