O inferno do silêncio
O destino sempre gostou de ludubriar os poetas e os menos poetas.
Para ele é uma brincadeira cruel e amarga que adora jogar, enquanto os nossos braços se quedam, exaustos do labor da viagem, do intenso calor que se sente no inferno.
O inferno foi concebido e criado pelos homens para os poetas. Eles mais do que ninguém conhecem os seus cantos e recantos amaldiçoados.
Foi no inferno que forjei as minhas asas plumadas de fénix. Nesse limbo onde ninguém me pode seguir, onde ninguém me pode amar ou confortar (e eu sempre fui melhor a confortar do que a ser confortada). Onde ninguém sabe gritar mais alto que o silêncio.
Vieram amigos do passado compadecidos com a aparente iminência de um mundo a ruir, vieram para saborear o cheiro do corpo moribundo. O presente sempre foi mais irónico e delicioso que o passado, o que não deixa de fazer-me sorrir.
Afinal, eu sempre fui a que nasceu para sorrir por entre os despojos.
Todos os meus sonhos se estão suavemente a desvanecer nos dedos finos. Embora eu renasça por entre eles e delicadamente tente, em vão, criar novos sonhos e esperanças para substituir os que me morrem todos os dias nestes recantos negros.
Quando chega a noite eu sei sempre que a luta diária para criar e recriar sorrisos e asas de fénix é uma luta inglória, um teatro demasiado penoso para os meus ossos quebradiços. A noite é uma aliada inegável da Verdade.
Ela mostra-nos os nossos mais temidos horrores, as nossas mais extraordinárias mentiras e seduções.
Todos os dias eu minto e sou feliz. Eu sou actriz e ganho abraços e beijos tenros nas faces. Eu choro no ombro invisível da cama que nunca mais cheirou a lavado... Eu adormeço e acordo com o travo de fel nos lábios...
Eu drogo-me todos os dias para aguentar as horas que antecedem a noite mágica e Verdadeira.
Mas nem isso me chega... Eu levanto-me e vou e eles mandam-me drogar mais porque o organismo está debilitado, sorriem eles, e não consegue aguentar a viagem, sorriem eles, e não consegue ser apenas um organismo, sorriem eles, ele é teu inimigo, sorriem eles, o tempo é teu inimigo, gritam eles, TU ÉS TUA INIMIGA por isso droga-te, droga-te para não doer... Droga-te porque assim entorpeces o corpo e violas a alma.
Acordo.
A noite é suada. A noite agora é sempre suada.
O coração palpita-me no peito. Acaricio a pele branca, porque ao menos o coração sempre funcionou bem nas máquinas deles, penso eu.
Desço as mãos... mas não me toco mais.
O inimigo cresce em mim. É o meu único filho nestas noites abafadas. Quase cedo à tentação de conversar com ele, com aquela voz melada das mães.
Quase...
Não existe droga para a alma.
Não existe dia que apague o pesadelo da noite.
Nada consegue calar o grito do silêncio que me ensurdece.
Nem o teu corpo quando dorme junto ao meu.
De manhã dizes que me abraçaste de noite. Dizes que o meu corpo se contraía em espasmos e o agarraste com medo, medo, medo do futuro incerto e dos sonhos que já não sabemos recriar.
Sim, tens a certeza que me abraçaste, dizes tu. Eu era violada por todos os meus terrores nocturnos.
Ias dizer mais, penso eu, mas as palavras morreram antes mesmo de terem sopros de vida.
Olhas-me com esses olhos castanhos imensos, dois mundos que vivem em ti, abraças-me e juras-me que tudo vai passar e vai ficar tudo bem... e não... a vida não me vai enganar mais.
Quando a noite chega ambos sabemos que não podes prometer o que não me podes dar.
A Verdade da noite é inegável.
Ouves a voz do filho que não te vou dar? Eu ouço... Todas as noites.
As noites que me arrancam os sorrisos, me sugam a alma...
Amanhã vou ser fénix e à noite morro novamente para depois me erguer das cinzas na hora da alvorada.
O destino quis-me aqui, onde só o silêncio me faz companhia e onde apenas ele, e tão só ele sabe gritar.
Publicado por Fairy_morgaine em junho 6, 2004 09:21 AM