abril 24, 2004

A estranha dualidade de ser

As pessoas que me rodeiam também sentem o buraco, embora não o digam e tentem esconder qualquer tipo de comportamento mais estranho que possa indiciar que elas o conhecem.
Afagam-me os cabelos, apertam-me contra os seios e mordem-me as mãos. Soluçam sempre que lhes lembro o Amor.
O Amor é passado e como todo o passado não se deve pensar ou falar mais nele sobre pena de sermos condenados a uma existência fantasmagórica e ilusória, presa nesses dias felizes (?), donos das suas próprias dores e enganos. Mas como em tudo uma dor que já doeu é conhecida e é nossa e por isso mesmo não dói tanto como uma que nos possa surpreender e fazer-nos sangrar.
Nos dias chuvosos elas afastam-se de mim mas mantém sorrisos assustados e nunca, mas nunca, dizem que sentem o rufar do buraco e do desconhecido que nele habita.
Por isso mesmo criaram-se assuntos tabu que ninguém fala e recusa serem tabu porque segundo eles nem sequer existe assunto para ser falado.
Uma vez, lembro-me ainda, quiseram levar-me ao médico. Segundo elas era um homem velho e respeitado e poderia talvez descobrir a doença que me aclara a pele e me ambacia os olhos. Mas nunca mencionaram o negrume da Alma.
Pensou-se no assunto, foram tomadas providências para que assim fosse, garantiram-me elas, mas no final o velho morreu e eu nunca o cheguei a conhecer a contaminar com as minhas dúvidas e o negro da existência que não existe a não ser nas vagas memórias dos outros.
Perdi a esperança de ser curada. Hoje também eu sorrio quando falo do buraco. E quando o faço é como se sonhasse e fico a pensar interiormente que tudo não passa de um sonho alucinado, provocado pela excessiva exposição aos dilemas humanos e dualidades crescentes. Porém, quando acordo de noite angustiada pelo som que emana do buraco eu sei que é verdade, que as memórias do funeral não foram construídas e que ele existiu mesmo e me vai afectar para sempre.
O sol nasce sempre mais tarde nesses dias. E quando nasce, eu acordo exausta, arrasto-me até ao espelho mais próximo e do outro lado vejo uma menina de olhos negros, cabelos negros, pele negra, unhas negras, toda ela contaminada e moribunda do abraço do Buraco...
Grito. Grito sempre nesses momentos e no entando da minha garganta não sai nem um som. Apenas vazio. O vazio que talvez esteja no Buraco e em mim.
Ou será caos? Caos dentro do vazio?
Grito apenas para me encontrar de novo na cama e fico-me a perguntar durante largos instantes se teria sido mais um sonho ou se terei um qualquer sonambulismo raro que só ataca nas noites de chuva ou de intensa lua cheia.
Será que existem gritos no Caos? Gritos no Vazio? Vazio no Caos? Vazio nos Gritos???? VAZIO EM MIM????
Ou tudo não passará de um sonho demente e recorrente de uma Alma sem eco e sem leis?
A estranha dualidade de ser... A humanidade no fio de espada da minha percepção afectada pelas leis do Buraco...

(continua)

Publicado por Fairy_morgaine em abril 24, 2004 02:06 PM
Comentários

Não há "alma sem eco".
Mas o eco da tua alma ribomba nos sentidos de quem te lê. Quem te lê, uma só vez que seja, não esquece a tua existência e a tua sensibilidade.
Sei que uma alma poética é, geralmente, uma alma triste.Todavia, quem tem o dom de escrever como tu , só por isso, deve sentri-se feliz.

Afixado por: João Norte em abril 24, 2004 02:35 PM

Todos sofremos desse sonambulismo raro? Se for verdade, compartilho dele com você. O grito no caos será parte do caos e não da garganta que gritou, o caos talvez seja o lugar onde nada tem dono. E eu que por tantas vezes aprendi a me comportar como um bicho doméstico, corro sem voz e destino.
Aguardo a continuação,
Bjs,

Afixado por: Anie em abril 24, 2004 06:48 PM

para onde vamos. a esta velocidade. de desespero. que não existem gritos maiores. que nos acalmem.

abraço.

Afixado por: João em abril 24, 2004 10:04 PM

Chamar-lhe-ía "Estranhas DUALIDADES so ser".
Somos muitos num só.

Beijos e força. Desejo-te que tudo corra pelo melhor. E irei estar atento.

Afixado por: LetrasAoAcaso em abril 25, 2004 09:58 AM