abril 22, 2004
O buraco
Os dias demoram a passar quando são desprovidos de amor.
É como se uma roda gigante girasse sobre si mesma de forma repetitiva e monótona. O Sol sobe ao horizonte, depois vem a Lua, depois o Sol e os anos passam mesmo sem darmos por isso.
Pelo caminho fiz alguns amigos e uns quanto inimigos que mais tarde vieram pousar no meu colo em busca de redenção e carinho. Pior. Aceitação. O ódio é um sentimento gémeo do amor. Só o sentimos quando amamos muito alguém.
Há quem diga que é fácil amar-me. Eu digo que é tão fácil odiar-me como amar-me. Talvez ainda mais fácil porque há quem comece pelo ódio mas eventualmente é lá que todos terminam.
Ainda assim o rio que sulcou os meus caminhos foi a inveja. É avassaladora a inveja. O cíume. Existiram pessoas que me amaram consumidas em cíume e outras ainda que fingiram amar-me imersas em inveja. O cíume e a inveja também são sentimentos gémeos.
Se pensarmos bem não existem sentimentos lineares. Todos eles têm duas faces. Ou muitas faces. Umas horrendas e outras belas. Depende muito de quem os olha, da perspectiva, do sentido da linha que nos sai do indicador e percorre o sentimento.
No meu quarto escrevo contos e poemas de amor. São eles que fazem o Amor sorrir-me da sua campa.
Como um fantasma eternamente puro. O Amor é inocente, jovem e inconsequente.
É único. Depois do Amor, outros virão, mais baços e mais estilhaçados.
Meras reproduções de qualidade duvidosa. Quando olho nos seus olhos são dois buracos ocos e negros.
Embora não o diga alto (a voz pode acordar antigos monstros e quezílias semi-ultrapassadas), no dia do funeral do Amor, surgiu um ponto negro na minha alma.
Primeiro era um ponto muito pequeno. Quase imperceptível. Depois começou suavemente a pulsar como se de um coração se tratasse. Ainda me recordo que foi numa noite em que chovia copiosamente que a minha percepção abraçou o ponto e se começou a tornar dificil ver sem ser através dele. Esse ponto aumentou com os anos. Agora é um buraco. Um buraco onde poderia caber o meu corpo bem aninhado.
Resisto à tentação de lá entrar porque não sei o que habita o buraco que cresceu na Alma. De resto não sei se haveria retorno depois de deixar o meu corpo lá dentro.
Ainda assim todas as imagens que me chegam do mundo exterior são filtradas pelo buraco negro da Alma. Por vezes acho-as mais nítidas e outras mais distorcidas. Um delicado equilíbrio de anormalidade dentro da percepção.
Não sei em que medida isso afecta as minhas relações, decisões, critérios... Sei apenas que está lá... Ele ainda pulsa em noites de chuva copiosa...
Interrogo-me se estará vivo... Se dentro do seu negrume cresce algo e se algo também pulsa.
Porém tenho medo... Medo da resposta.
(continua)
Publicado por Fairy_morgaine em abril 22, 2004 09:25 PM
O medo é irmão da esperança. (intro.vertido)
Eu digo também, que é muito facil amar-te... o que despertas, chama-se amor... Bjinhos
um confronto de sentimentos.
É sempre bom porvocarmos uma mistura de sentimentos nas pessoas, para além de nos sentirmos vivos, sabemos que não somos indiferentes..as maneiras de sentir sao deveras controversas, autenticas caixinhas de supresa, talvez um dos maiores enigmas...pk não ha forma de controlar os sentimentos, vem das profundezas do ser, e simplesmente emergem sem pedir autorizaçao..
justbe
Uma vez mais consegues falar por tantos de nós...
Muitos decerto já habitaram esse mesmo buraco; os mesmos medos em confrontar os próprios vazios, em serem obrigados a confrontarem-se consigo próprios na resposta. Assusta pensar que podemos estar do outro lado da mesma, sem defesas...
Os gritos são teus; os medos são teus; o que sentes, vives, choras, não importa, é teu...SÓ teu...mas as palavras que escreves são também nossas; porque as partilhas e porque dizem o que muitos sentem também.
A tua escrita é universal.
Por isso voltamos sempre aqui.
Fica bem!
Olá!
Estou conhecendo o seu blog. Sensíveis textos. Vamos trocar idéias. Apareça.
Abração.
Antonio Jr
Salvador, Bahia
www.nosilenciodanoite.blig.ig.com.br
estou a gostar.. é muito bom ler quem tem essa riqueza para partilhar. bjs
o medo. essa eternidade imensa. na nossa dor. no nosso intimo.
abraço.
"Do teu génio e outras partilhas", deveria ser o título de uma dissertação que mereces. Mas iria contra a lógica do comentário.
Preciso dizer-te quão bem escreves?! - Não me parece.
Beijos meigos Sílvia.
vim aqui parar pela primeira vez... gostei muito da tua escrita... volto para acompanhar mais de perto este teu blog... :)
Estou fazendo uma pesquisa sobre buraco e o seu texto conseguiu fazer com que pensasse de forma diferente uma situaçao a qual estou vivendo e nao consigo expressar.O amor pode ser o oposto do odio e vice e versa, isto pode se torna um caos sem precendente onde alguem sempre ira se machucar.Deus te abençoe