abril 21, 2004

A morte do Amor

A morte do Amor foi um duro golpe na minha auto-estima. Eu tinha-o deixado morrer.
Ele morrera ali mesmo. Nos meus braços hesitantes. Eu poderia ter dito tanta coisa. Podia e não disse nada.
Resignei-me em silêncio desde o primeiro momento. As lágrimas morriam na apatia da minha expressão.
Será este o auge do sofrimento? Quando ele é tão intenso que o corpo deixa de se mover apenas para se quedar na apatia de um "nada me importa agora que o hoje acabou".
De nada me adiantaram os póstumos postais a lamentar o sucedido. As flores que vieram colocar-lhe na campa. Houve até quem vertesse uma ou outra lágrima.
Como não me conseguia mexer cobriram-me o corpo de essência de jasmim e vestiram-me com um vestido branco de algodão que ainda guardo no baú chinês onde deposito todas as minhas memórias e vestidos sem uso.
Quase tiveram de me levar ao colo para o funeral. Ouvi a última missa. Ainda me recordo das palavras do padre gordo e baboso: "vamos todos deixar um último adeus sentido ao Amor e relembrá-lo nos nossos corações pois onde ele está agora apenas existe paz, anjos e sinfonia".
Depois deram-me a mão e arrastaram-me para longe da campa alva. Já não havia nada a fazer ali, disseram. A morte quando reclama algo que é seu nem Deus a pode impedir, diziam eles em jeito de consolação.
Voltei lá poucas vezes desde esse fatídico dia. Sempre que vou colho belas flores, orquídeas, para deixar na campa do meu Amor. Do lado direito da cruz cresceu um morangueiro.
Nunca tive coragem de colher morangos. O seu sumo ia-me saber ao sangue do meu Amor.
Das raras vezes que lá fui, subi ao sotão para tirar o vestido de algodão branco do baú. Existem objectos com vida própria. O vestido é um deles. Se soubesse que tinha ido ao cemitério e não o tinha levado cresciam-lhe lantejoulas de rancor e eu não quero que isso aconteça.
Assim, visto-me, colho as orquídeas e vou visitar o Amor. Raras vezes, claro. Essas viagens deixam-me sempre exausta.
Quando regresso evito os olhares carregados de silêncio e mágoa e escondo-me dentro de mim até a tormenta passar.
O amor vive no futuro, disseram-me um dia. E eu retorqui... "não vive quando ficou preso no passado".

(continua)

Publicado por Fairy_morgaine em abril 21, 2004 07:44 PM
Comentários

O que seria a morte?um estado de gelo ou apenas o final?quem disse que não há vida na morte ou que a morte é a morte mesmo?
sentimentos não morrem...apenas se apagam..vão e vem..mas sempre resta algo dentro de nós..mesmo que td tenha acabado...as miganhas ficam...as marcas permanecem deixando-o marcado lá...

Afixado por: Débora em abril 21, 2004 09:57 PM

O Amor nunca morre! Podem matá-lo. isso é diferente.Pode morrer a pessoa que se amou.
A dor é enorme.
A dor da morte suviza-se com o tempo. Mas o amor quando foi verdadeiro, não morreu, foi apenas impedido de se apresentar.

Os teus textos continuam a fascinar-me.

Afixado por: João Norte em abril 21, 2004 10:24 PM

O Amor. Esse sentimento; emoção, vitalidade e, por vezes utopia! Mas nós quando não temos, ele não morre. Mata-nos, dilacera-nos e consome o ínfimo esquisso da nossa existência. O Amor é nada nessas alturas; e, é nessas alturas, que é tudo.

Texto excelente, gostei mesmo muito do que escreveste. Volto a dizer que tens um dom, uma qualidade, único na tua escrita. Escreve mais, continua a deliciar-me com as tuas palavras. =))) Bom trabalho!

Afixado por: downthesun em abril 21, 2004 11:14 PM

O amor não morre, apenas se transforma, mas permanece dentro de nós... menos intenso, deixa de provocar dor... mas está sempre lá... gostei imenso deste teu post, fantástico!!

Afixado por: Maria em abril 22, 2004 01:00 AM

a descrição que fazes da maior dor de todas, a que provoca a apatia total, está muito boa. o Amor.. é vida e espírito, nunca morre. bjs

Afixado por: PEdro em abril 22, 2004 01:10 AM

Não posso estar mais de acordo contigo nessa morte e vida e de novo morte, mesmo que alva - a morte é alva - Eu não conheço os msios termos. Tal como tu. Ou amo, ou não. Sentimentos insípidos e dúbios não podem ser amor.
Relativamente à forma como te expressas, só te posso dizer que és genial. Mas isso tu sabes. Porque és uma menina mui inteligente.

Beijinhos doce Sílvia.

Afixado por: LetrasAoAcaso em abril 22, 2004 02:39 PM

afinal. sempre pensei assim. escreveste isso.
a saudade. a agonia. e a ausência. são as feridas.

abraço.

Afixado por: João em abril 22, 2004 03:10 PM

É em busca de palavras assim tão sensíveis que venho sempre visitar o teu blog.Aqui as encontro...quanto ao amor não vou dizer nada porque senão ocupo a janela dos comentários toda.Beijinhos...

Afixado por: Lara em abril 22, 2004 05:04 PM

Um amor qdo verdadeiro nuna morre, fica escondido guardado nas mais belas lembranças da memoria!
Adorei o seu blog!
Parabéns!
Bjs Cicilia

Afixado por: Cicilia em abril 22, 2004 06:00 PM

Obrigado por me da o prazer de ler um texto como esse,a pessoa não deixa de viver quando morre e sim quando deixa de amar!!! gostaria que vc me escreve-se ! obrigado

Afixado por: Izilino em setembro 8, 2004 08:15 AM