abril 16, 2004

Traição

O tempo desacelera dentro de mim.
Só os meus dedos se mexem para tentar expressar algo que os meus lábios não conseguem. O sono gelado da morte. Aproxima-se terrível e grandioso. Nestes momentos morro para o mundo e renasço para mim.
Afasto o corpo da estrada para não ser atropelada de novo. As pessoas passam mas raramente vêem os corpos que estão deitados no asfalto. Têm pressa de chegar. Onde, não sei. Pressa de chegar a qualquer lado que não seja aquele de onde vêm. Qualquer um onde possam fugir de si mesmas e das vozes que as acusam. Há sempre em nós uma voz estridente que nos acusa de qualquer coisa. De certeza que tu também a conheces e a odeias.
Ela incomoda. Tal como eu incomodava. A minha voz. O meu tom de voz. A minha voz acusadora e pressionante. A minha voz estridente. A que odeiam. Porque é estridente. Porque incomoda.
A minha voz atravessa os ossos. Entra pela boca, sai pelos olhos, deleita-se com as entranhas. Foi o que me disseram no tribunal. Mas disseram ainda mais. Disseram que era condenada por ter uma voz que acusa.
Uma voz proibida aos mortais.
Existem pessoas que chamam consciência a essa voz. Outras chamam-lhe voz interior. Eu digo que é um demónio que nos lambe as mãos. Porque todos os demónios foram belos anjos, puros, inocentes. E depois cairam, loucos de sofrimento e horror.
Eu sou o teu demónio. Eu sou a voz que grita no escuro e te incomoda. Eu sou a voz que te viola a mente.
Por tudo isso sou condenada. Arrastaram-me o corpo pela lama até uma árvore onde me amarraram e chicotearam. Deram-me o meu sangue a provar. Eu conheço-lhe o sabor. E sorri.
A voz morreu-me nos lábios entreabertos.
Depois arracaram-me a língua e sussurram-me ao ouvido: "para que nunca mais fales, nem corrompas os tímpanos dos outros, para que nunca mais acuses, para que nunca mais sussurres, para que nunca mais sejas gelo, para que nunca mais cuspas palavras que são dedos esticados que nos condenam".
E deixaram-me ali. Entregue aos cuidados da natureza. Choveu como nunca chovera antes, no meu mundo. Contorci-me febril.
Arranco-te de mim. Perdi toda a noção, todo o rumo. Amanheceu lá fora e eu não disse nada nem nunca mais vou dizer porque já não posso.
Por isso atirei-me na estrada. Para que me atropelassem tantas vezes até a dor passar à força de sentir dor física. Mas nem assim melhorei. Por isso agora afasto-me para não ser atropelada de novo.
Olho para o céu. Quero acreditar que um anjo me vem resgatar. Mas nunca ninguém vem. Só a chuva. E dentro de mim nada mais ficou que o vazio.

Publicado por Fairy_morgaine em abril 16, 2004 08:46 PM
Comentários

sempre inquietante.

Afixado por: fernando esteves pinto em abril 16, 2004 11:09 PM

Estou boquiaberta.Nunca tinha visitado o teu blog e fiquei estupefacta com o que li aqui.Parabéns Fairy.Não acredito que alguém não goste do teu modo de escrever mas a nível do meu gosto pessoal que é onde me posso basear escreves muito bem.Muito bem mesmo...assim que tiver um bocadinho adficiono-te nos meus links.Parabéns pelo talento.

Afixado por: Lara em abril 16, 2004 11:49 PM

Está certa demais Fairy, independente do que sabemos que possa acontecer, devemos sempre olhar para o céu. O lugar mais alto, leve e bonito que conhecemos.

Afixado por: Anie em abril 17, 2004 01:25 AM

Não me importo de ser importunado por um Demónio que me dá a beber palavras de Anjo :))

Afixado por: Bom_a_F em abril 17, 2004 01:52 AM

existe sempre. em nós. a esperança. e no céu. também existe. mesmo que de cor diferente que daquela dentro de nós.

abraço.

Afixado por: João em abril 17, 2004 02:56 AM

É tão vivo o que escreves que, nesta fase, me perturba muito. Fico arrasada...
Um beijo de grande admiração.

Afixado por: Maria Oliveira em abril 18, 2004 02:11 PM

Sílvia, querida... e eu agradeci-te o "sê bem vinda..." Aiiiii como eu ando....

Afixado por: Maria Oliveira em abril 18, 2004 06:01 PM

Nossa Fairy, cheguei a tremer com teu texto. Escreves muito bem e passas toda a dor,todo sofrimento. Que todos os anjos venham ao teu auxílio, sempre que precisar.E eles virão, é só saber enxergar. Beijinhos e digo-te, estou com saudades de ti. Boa semana querida.

Afixado por: Anne em abril 18, 2004 07:45 PM

A força das palavras!

Só acessível aos iluminados/as.

Beijos

Afixado por: AcasoDeLetras em abril 18, 2004 09:24 PM

Em alguns momentos realmente nossa voz interior ou "nosso demônio" nos assola e nessas horas temos vontade de coloca-la em uma árvore amarrada para nos deixar em "paz".

Afixado por: Dona do bar em abril 19, 2004 08:45 AM