Ópera dentro do coração
(Ela)
Cresce em mim uma vontade de gritar.
Quebrar os vidros. Quebrar-te e às tuas certezas,
despojar-te de emoções, despir-te, humanizar-te, comer-te...
oh sim comer-te, trazer-te em mim, penetrar-te os olhos
com os dedos, assimilar as tuas experiências,
ver pelos teus olhos, ver o teu corpo nu no acto do nascimento,
deitar-me a teu lado anos a fio, ver o teu corpo crescer.
(voz)
e depois, depois, depois do acto do amor, do acto de pavor
o que resta? restas tu... ah só tu. a tua alma desprotegida dos ataques
falsos e cobardes da filosofia que te enche de dúvidas.
merda para a filosofia, para o certo e o errado, para a complexidade,
para a simplicidade também, para a dualidade de sentimentos e emoções
roufenhas. ah amor. o que amo em ti é a ausência de espírito,
os olhos vagos de qualquer espelho de alma.
entendes finalmente que em mim ninguém pode viver?
(eu)
Sou um campo, um campo minado de incertezas, sou um ponto de interrogação,
contorcido sobre si mesmo, a espinha torcida em dor, a pele queimada,
toda consumida em ácidos que nunca tomei e me fizeram engolir:
"faz bem, vais ver, vais ver mais longe, vais ver branco e azul,
vais ver verde, negro, vais ter o arco-irís dentro de ti".
(outros)
a quem importam os teus gritos, os teus silêncios e ausências dentro de ti mesma?
diz-me. és patética. o corpo agarrado em espasmos.
liberta-te. voa. tu sabes voar. só tu sabes voar. ninguém te pode ensinar.
dos teus olhos nasceram pombas negras. e elas ainda voariam, não tivessem
sido abatidas no natal passado para aquecerem os pézinhos de Cristo.
assassinaram as tuas pombas. não... não chores. não vale a pena.
ninguém vale a pena.
(eu)
Tudo vale a pena se a alma... (a quem quero eu enganar?).
Calo, calo, calo, calo tudo em mim. Prendo, repreendo, amarro,
não liberto, não, não, não, não liberto.
O grito rasga-me a garganta ao meio, o sangue jorra para o chão.
(outros)
o teu sangue... aquele que cospes e engoles com uma velocidade medonha.
quem és tu, anjo-menina-demónio-mulher?
não. não sorrias esse sorriso escarninho. de nada te adianta.
entendes isso? entende que em ti nem mesmo a filosofia pode proliferar.
(eu)
Sim. Sou árida. Sou seca. Sou imperfeita. Sou cruel.
Porquê? Porquê?
(voz)
esconde-te de novo.. como és cobarde.
esconde-te deles. dos que te magoam. não os rasgues de novo (riso louco)
rasga-te a ti. ÉS LOUCA. como pode alguém não retaliar?
(eu)
(silêncio)
(outros)
VIRGEM MARIA, CHEIA DE GRAÇA...
(voz)
derrotada.
assume.
(eu)
NÃO! Ainda não morri. Eu vivo... eu respiro!
Eu vou aprender a ser eu.
(voz)
de novo o grito do silêncio... até quando?
(outros)
vem... vem até nós. vamos julgar-te.
(eu)
Assim seja.
Publicado por Fairy_morgaine em abril 15, 2004 06:15 PM