Solidão
No fim, apenas a solidão é palpável.
Ouço as vozes lá fora dizerem
que nunca estou só, que tenho os seus corpos
e as suas almas para me alimentar.
Mas o negrume que me cresceu no ventre
só eu posso entender. Só eu
consigo sentir. É mais do que uma simples tristeza,
é mais do que amargura, é muito mais
que um corpo que escondo.
Dentro de mim há um casulo.
Dentro de mim eu erigi um túmulo onde
a deixo a repousar,
eternamente bela e jovem.
As mãos quedadas nos seios,
a selarem o coração.
Um dia ela sussurrou-me,
a voz parecia uma melodia tão antiga
como a canção nocturna do vento,
e no entanto o seu canto era jovial
e inocente. E ela sussurrou-me:
"vou dormir. acorda-me apenas
quando alguém chegar. até lá sorri.
sorri e inspira fundo. vou inundar-nos
com a água do tempo. o tempo é uma água
que Poseídon não soube controlar.
espalhou-se pelas frestas das casas,
pelos frutos, pelas romãs,
e agora é toda a realidade.
só o tempo... só o tempo é real aqui dentro,
dentro de ti"
Depois desse adeus sem palavras,
deixei-a adormecer e beijei-lhe a testa.
Ela ainda dorme dentro de mim.
As vozes dizem-me que a sentem. Eu
apenas sorrio. É impossível.
Porque ela dorme em mim.
A doçura, a beleza, o ar de anjo
é dela. É só dela. E eu não o sei ter.
A mim pesa-me. Desfiz a beleza em fios de
algodão, prendi os pulsos com eles
à árvore mais próxima e deixo-me beijar
enquanto dos olhos me escorrem lágrimas
lágrimas de tempo, não são de água as minhas lágrimas,
são de tempo.
O tempo que me cresce em mim e me inunda.
Mal consigo respirar.
E ela dorme ainda. Por vezes quase juro
que a vejo sorrir.
Mas é mera ilusão. O tempo cobre-me os lábios,
sela-me os olhos, abandona-me moribunda dentro
deste casulo onde ela nos encerrou.
"Quando morrer quero morrer contigo"
beijo o seu túmulo de cristal, arranho-o,
abraço-o..."volta...volta para mim... não me deixes
sozinha.. NÃO ME DEIXES SOZINHA COM ELES"
Publicado por Fairy_morgaine em abril 15, 2004 05:43 PM