Procura febril
Procuro a tua mão, a tua sombra
nas ruas, nas esquinas,
corro e corro e corro
e procuro-te sem cessar,
olho para os espelhos,
dentro dos caixotes,
nos bolsos das crianças,
nos rebuçados ainda por desembrulhar,
procuro-te na tinta das paredes,
procuro-te ainda nos filmes,
nas músicas,
no vento norte,
nos olhos do meu irmão,
no regaço da minha avó,
no bigode do meu avô,
na água do banho, na alface,
no arco-íris de oito cores
(o meu arco-íris tem mais uma cor e mais um tesouro),
no sapato da Cinderela.
Procuro os teus olhos dentro do tacho
e não estás,
procuro a tua boca na maçã vermelha,
na lágrima do gato persa da D. Maria do terceiro andar,
no assobio do vento,
no dente podre do presidente,
no cabelo loiro do bébé
e não te encontro.
Procuro-te no peito do meu amor,
procuro-te na minha pele ao acordar,
nas minhas pantufas velhas,
na promessa de um dia melhor,
vou pela manhã a procurar-te,
baixo-me para espreitar pelas saias
da menina gótica do metro
e não te encontro,
eu nunca te encontro,
eu busco-te e não te sei.
Numa última tentativa
tento ver-te na Lua,
na nuvem, na fauna,
mas não estás.
Não me surpreendo por não estares.
E no sonho, à noite,
busco-te ainda,
as mãos trementes de ansiedade
e não te alcanço,
estremeço e não te sinto.
Acordo suada pela viagem,
torno a buscar-te no espelho,
na sanita, no prato,
no quotidiano,
na filosofia, na psicologia,
na matemática,
nas flores, em Beethoven,
espreito-te em Dali e não, não te encontro.
Mas não páro. Parar é morrer.
A busca é que me alimenta,
a procura de ti,
de Ti,
de ti que me escondes a mim,
que me encerras, me ocultas,
me embriagas,
me seduzes,
me amarras
e me aqueces, me dás vida
para buscar-te, para te amar,
para ser tua, para te querer,
e não recuar perante nada,
perante NADA e
amanhã é outro dia e vou-te procurar
nos mesmos sítios,
em sítios diferentes,
em sítios ousados,
em todos eles, em todos, mesmo em TODOS
porque tu... tu és EU.
Publicado por Fairy_morgaine em abril 14, 2004 10:31 PM