abril 06, 2004

Dá-te

Dás-me o teu sangue quando anseio água.
Dás-me o teu rosto que me arranha suavemente
para que eu te beije o queixo,
te lamba os lábios apenas com a ponta da língua.

Arrancas a tua pele para me cobrires.
Embriagaste em mim e no meu cheiro
embora saibas que te drogo nas minhas complexidades.

Gemes quando te espremo as feridas,
as abro, as purgo, as limpo,
tirando delas palavras, pontos, reticências,
dás à luz silêncios
com que me cobres os ombros.

Soluças a minha ausência,
desenhas-me nua na madeira da mesa,
contornas-me,
abraças-me,
beijas-me
e... e... e...
e não sei.

Que fazes depois?

Grita-me.

Quero ouvir...

Quero ouvir o grito que irrompe
da tua garganta,
quero sentir os poemas que me inspiras
a romperem-te os olhos,
a cairem no chão.

Dizes com sorrisos amplos
que não comentas,
não me desvendas a tua alma
e por isso te amo de uma forma
absurda. Por isso te pego suavemente
com as minhas mãos pequeninas
e te aperto contra mim
como se fosses o boneco
que me apagava as lágrimas
enquanto menina.

Entras dentro do relógio,
pulas os ponteiros,
seguras-me na tua imaginação
nas telas que constróis.
Sonhas-me e eu sou tua.
Presa no sonho.
Presa em ti.

Bebo de ti para em seguida
te dar a beber de mim
como um ciclo abençoado
de fluídos, de trocas, de necessidades.

Dás-me do teu sangue quando anseio água.
Descubro que só dele consigo beber.
Só tu me matas a sede...
Só tu...

Dá-te...


Escrito por Ela

Publicado por Fairy_morgaine em abril 6, 2004 06:47 PM
Comentários

Fairy, que poema bonito! A força da tua expressão é fantástica, atinge a minha alma. Um beijo e boa páscoa.

Afixado por: Anne em abril 6, 2004 07:54 PM

poema da sede de amar. de resto a anne disse tudo.

Afixado por: abstracto em abril 6, 2004 08:15 PM

A tua escrita é absolutamente inebriante. Estou agora a começar a conhecê-la. Mas estou a entrar nela de forma muito empenhada.
Continua.

:)***

Afixado por: Sandra em abril 6, 2004 09:13 PM

"Revejo as tuas longas e esbeltas pernas
Repletas de sonhos ainda por cumprir


Vejo o teu corpo desnudado
Em seios de desejos ardentes
Duros, redondos, belos."


Os meus lábios percorrem o teu corpo
Transformado
Em ânsias prementes
De beijos e bocas por abrir.

Afixado por: AcasoDeLetras em abril 6, 2004 09:50 PM

parece uma história. mas sem história. apenas presença de sombras. de desejos. de saudade.

continua.

:)

Afixado por: João em abril 6, 2004 09:51 PM

sangue? já a fonte secou há tanto ao jugo de mãos como essas, que agora apertam numa pose de guilhotina os próprios dedos

Afixado por: pedro moura em abril 6, 2004 11:19 PM

Leio uma e outra vez.
Tento entender quanta profundidade há neste poema.

Não sou capaz de comentar. Ultapassa-me.

Afixado por: João Norte em abril 7, 2004 05:16 PM

cheio de acção e intensidade. sujo de voracidade e insaciedade. enfim.. mesmo bom! bjs

Afixado por: PEdro em abril 7, 2004 06:37 PM

Bonito:-)

Afixado por: wind em abril 9, 2004 09:27 PM