março 30, 2004
memórias liláses
Existem coisas que são demasiado grandiosas para serem ignoradas.
A morte é uma delas. Quando chega é sempre devastador por muito avisadas que as pessoas estejam.
A morte nunca me meteu medo... a minha não...
Mas a ausência dos que amo apavora-me... E comigo estão todos os humanos que amam e têm medo de serem privados dos seus entes queridos.
Nunca se prepara ninguém para a evidência estonteante da morte.
Ela cobre-nos de um silêncio perturbador, que grita, que rompe, que rasga todos os possíveis esgares de sorrisos.
Hoje as perguntas eram quase palpáveis à mesa do jantar onde em vão se tentava ocultar os olhares apreensivos, os fungares e os sentimentos em catadupa.
Eles escorriam para os pratos onde os engolíamos de novo, em garfadas moles. Ninguém queria desrespeitar o silêncio.
Só eu. Só eu queria poder falar de ti, dos teus sorrisos e da tua filha.
Só eu imaginava a voz dela quando disser pai e receber silêncio, esse silêncio que nunca nos cabe nas mãos.
Nunca ninguém explica a uma criança que o corpo que jaz deitado é a pessoa que mais lhe vai fazer falta, são as mãos que nunca lhe irão acariciar os cabelos, são os lábios que nunca mais lhe vão beijar o rosto...
E ela... nunca te irá recordar. O tempo encarregar-se-á de apagar qualquer vestígio nobre que possa ter ficado na curta memória dela.
Mas comíamos em silêncio a mastigar a tua morte que está impressa em todos os nossos gestos.
O mais horrendo não é a morte... é a dor... A dor que devassa todos os familiares, todos os amigos...
Queria poder imprimir as tuas palavras e dá-las à tua filha, um dia...
Como eu disse hoje... "não tenhas medo de falar dele pois é nas nossas palavras que ganha vida e sorri por entre os nossos sorrisos".
Mas há neste momento um freio de dor que amarra todas as palavras e inunda de lágrimas os que te amaram...
Espero que seja onde for que a tua alma repouse haja paz... Aquela paz que transmitias aos outros e nunca encontraste.
Queria chorar mas só posso sorrir... Sorrir porque quero acreditar que viverás em nós... E nela... E nas memórias liláses que plantamos no chão.
Publicado por Fairy_morgaine em março 30, 2004 09:25 PM
n sei bem o que escrever, é so para dizer, mais uma vez, que adoro tudo o que escreves. não me conheces, mas tens aqui uma assidua fã das tuas palavras.
muitos parabens
Partilho as tuas palavras, perdem alguem é por demais doloroso, e sei do que falo, infelizmente, e quase como todas as pessoas, já perdi algumas pessoas que amava muito... Mas o tempo vai minimizando a dor, a saudade... Vivem apenas dentro de mim, e já consigo sorrir quando penso nelas, foi um previlégio um dia ter partilhado um espaço e um tempo com elas... Mas, eu continuo a levar a minha vida... elas já não... quem realmente perde, é quem vai... para elas é que tudo acaba...
A morte é o nosso eterno dilema.
Inultrapassável?!
Minha querida: a morte veste de branco.
Quantas vezes morremos em vida?!
Talvez a versão final dela, não passe apenas de uma libertação.
Olha-a. Ela tem uma longa e alva túnica branca.
Beijos
Qtas vezes o silêncio me mata.. foi tão sufocante, descobrir o grito que tem dentro dele..... como foi que nunca ouvi? pq nunca ouviram o meu silêncio??? A morte pulou em minha estrada.. levou um suspiro doce que eu amava... ainda grito(em silêncio) de dor...
mas aprendo a viver com cada grito!!!!
Parabens pelo blog maravilhoso!!!
Bjus... Cah
A Morte. Jamais seremos capazes de enfrentar a morte como fenómeno natural. A perda é sempre terrível.
É uma coisa difícil para mim acompanhar um funeral porque quero continuar a ver os amigos que partem.
" quero acreditar que viverão em nós"
Muito bem
Fairy, a partida é sempre dolorosa. Tudo que escreveu, identifiquei-me e senti o mesmo silêncio.
Tinha exatamente 6 anos, quando perdi minha mãe, bruscamente, passei muitos anos ouvindo este mesmo silêncio, qdo por ela chamava.Hoje sinto-a e até ouço sua voz, sei que parte do meu subconsciente, mas consigo ser feliz. Nunca estamos preparados para esta dor. Adoro estar aqui e ofereço meu ombro e o meu carinho. Beijinhos.