março 26, 2004

Carta aberta

Sabes.. às vezes quero-te dizer que a dor é demasiado real para ser apenas alucinação.
Às vezes, quero abraçar-te e implorar-te que não vás... Que fiques aqui e me embales como a uma criança pequena.
O pânico invade-me. Depois começo a sentir uma espiral, uma espiral que me atira contra a parede e me engole toda a vontade de estar perto das pessoas.
São as lágrimas que se cristalizam na garganta e criam um imenso nó. Elas já não descem pelos olhos. Desaprenderam esse movimento ancestral. Agora só querem viver eternamente nas minhas cordas vocais, onde se depositam e se deixam desfalecer.
Sabes... às vezes quero-te dizer que só a tua presença me acalma esta ânsia da tua voz e dos carinhos, dos afagos que habituaste a minha pele.
Outras apenas quero ficar a ouvir o silêncio gritar enquanto de olhos fechados te transmito anos e anos de fantasias quebradas e gelos que inundam o meu corpo.
Ouço músicas, vejo filmes, tento em vão esquecer o teu rosto e o calor das tuas mãos e só elas, só elas, amor, me conseguem acalmar esta intensa mágoa de todos os beijos que nunca dei.
Não consigo falar com eles, sabias? Eles percorrem a mesma casa que eu, mas são meros espectadores silenciosos das minhas constantes mudanças de humor.
Sempre tive riso fácil. Prostituo a minha boca em gargalhadas que nunca me beijam o coração.
Sempre fui a mais forte. Sempre fui o farol em dia de tempestade. Então eles acham que será sempre assim, que sempre nos maus momentos eu irei confortá-los e que também me confortarei a mim mesma.
E tu? Confortas-me?
Estou tão doente.. sinto-o nos ossos. Sinto-me a definhar, a minha mente está tão debilitada...
Sabes, amor, o cansaço é uma doença que nos deixa fracos. E eu estou tão cansada... Quando acordo penso que acordo para um novo sonho porque tudo se me é baço aos olhos.
Eu sei que isto vai acabar. Eu sei que esta espera que me gasta os joelhos vai terminar e tudo vai ficar bem.
Eu repito-o para os outros. Como se fosse uma ladaínha. Sorrio-lhes. Afago as suas temeridades e sussurro que a vida é um imenso rol de pedras na estrada e que nem por isso a estrada acaba.
E é verdade... quem acaba sou eu. Eu é que me acabo nestes silêncios, nestas constantes implosões, nestes destroços que escondo por trás do ar desleixado e confiante.
E depois inundo-te de dor e dúvidas, e lágrimas que nunca sei chorar e que só escorrem na voz.
Eu sei que amanhã é um novo dia e que eu sempre fui mestre a fingir forças e ternuras.
Eu sei tudo isso.
Fui eu que inventei as mais belas frases de consolo e depois as repeti a mim mesma enquanto no ar choviam acusações.
Fui eu que acariciei os meus dedos nas noites em que ninguém vinha ver se os cobertores eram brancos e perfumados.
Fui eu que escrevi os mais poéticos contos para me entreter os gritos que se semeavam nos cadernos, nos diários, nas paredes, nas palavras que nunca deixei sair do peito.
Sim amor. Fui eu. Eu que teci muros em volta do meu eu tão moribundo e me resgatei suavemente.
Porque não o sei fazer agora?
Porque agora não estou sozinha. Agora estás aqui. E o meu eu já não responde aos contos, nem aos meus dedos, nem às minhas frases.
Apenas às tuas.
Só a tua presença acalma esta necessidade de me refugiar.
Nunca falei a mesma língua que as outras crianças. Nunca fui inocente e pura. Mas fui sonhadora.
Ainda sou.
E depois veio a escrita. O meu pecado e a minha redenção.
Eu queria dizer que ela existe porque tu existes. Ou que ela existe porque é boa. Mas não. Ela existe simplesmente porque eu existo.
É consequente da minha voz apagada como a sombra é consequência do Sol.
Sabes... às vezes quero tão só dizer que te amo... E é essa a única certeza que tenho neste lodo que é a minha alma. Onde chafurdo nos meus próprios dejectos e indecisões.
Outras... nas outras estou demasiado entretida a fingir felicidade para me lembrar o que penso ou quero ou planeio.
Vou aguardar o teu regresso. Sei que voltas sempre para os meus braços. E eu vou alimentar-me da tua presença como um malmequer se alimenta dos raios solares.
Até lá grito silenciosamente. Para não os acordar e assustar... Vou continuar a tolerar as suas presenças tão subtis, tão cómodas, tão cegas.
Vem salvar-me... preciso de ti... A noite é demasiado assustadora. Vem... estou aqui... porque não me ouves? Onde estás? ... Quase te posso sentir, mas não te consigo tocar. Aqui ao lado eles continuam as suas vidas paralelas à minha.
À minha vida que só o é quando estás comigo.

Publicado por Fairy_morgaine em março 26, 2004 10:10 PM
Comentários

gostaria de escrever que ouvi a tua dor espelhada à minha e que senti memórias e momentos por mim morridos mas não sei se compreenderás. estas palavras que me conduzem a vida de silêncios angustiantes são as únicas mentiras capazes de esboçar algo no vazio dos dias e sei que só através delas poderás saber que existi num abismo paralelo ao teu.

Afixado por: ... em março 26, 2004 10:42 PM

a ausência é o maior perigo do amor

Afixado por: fernando esteves pinto em março 27, 2004 01:33 AM

Outro que me transcende...

Afixado por: wind em março 27, 2004 03:48 AM

A ausência. A solidão.
Ausência e solidão dentro de nós. Esta "paleta" onde os poetas pinta os seu quadros. As sombras, os castanhos dos invernos da nossa alma, do nosso sentir poético.

É um texto que penetra no interior de quem lê.

Lindo!...Muito lindo1

Afixado por: João Norte em março 27, 2004 01:51 PM

Mais uma vez parabéns Sílvia, mas quero se me permitem aqui dizer que este texto ou esta prosa tem muito mais do que ausência, solidão.
Muito mais e na minha modesta opinião tem muito de intimo desse teu Sílvia.
E eu não tenho sequer palavras para comentar, discutir este belo texto.

Abraços e protege-te

Afixado por: fernando em março 28, 2004 12:24 AM