março 23, 2004

O sonho... parte 2

Ali estava ela.
E ele tinha partido, atormentado pelos seus fantasmas e abismos.
Tinha-a afastado, como se afasta uma tentação demasiado pecaminosa e tinha saído. E dos seus lábios nem uma palavra.
Era demasiado terrível para ser verdade e no entanto ali estava ela. Completamente só.
Não tinha forças sequer para arrastar o corpo para longe do espaço onde ele estivera e o amara de forma tão completa.
Queria apenas senti-lo mais uma vez. Poder saboreá-lo.
Sentia o peso da solidão em cada silêncio, em cada palavra que não dizia apenas porque ele não estava ali.
Ele era toda a sua vida... Ele era tudo o que precisava. Queria tomá-lo de novo e enchê-lo das suas dúvidas e de si mesma.
Poder espelhar-se nele vezes sem fim, até ao limite dos seus corpos cansados.
Queria amá-lo, queria poder ouvir o grito do orgasmo, queria ser dele... E sabê-lo seu.
Porém... estava só.
Ele tinha partido para viver longe da sua urgência, das dores que ela lhe infligia, das suas perguntas e amargos de boca.
Ele não a tinha amado e isso deixava-a com vontade de morrer.
Gritou até deixar de ouvir a sua voz... Gritou e o seu grito quebrou todos os abismos, percorreu todos os dias e tempos e espaços e voltou ainda sem o perfume dele.
E isso era demasiado injusto... Como viver se o nosso alimento é a mente do outro?
Quando a voz lhe morreu na garganta deixou que as lágrimas lhe consumissem o rosto e lhe criassem uma máscara de gesso e dor.
Terminava ali a sua força e a sua alegria.
Terminava ali a sua eterna vontade de o abrir porque ele não estava lá para ser aberto.


Deitou-se e deixou-se invadir pela febre, pelo vazio, pelo frio intenso que lhe gelava os ossos...
"Amo-te!" murmurava ela, no auge do seu delírio, enquanto apertava na mão a faca com que tatuara o coração dele.
Parecia-lhe ouvi-lo ao longe, muito ao longe a chamar o seu nome... E o abismo estava ali à sua frente, a febre, a morte, o delírio...
E parecia ouvi-lo gritar... Mas era impossível...
Agora ele estava noutro mundo que não o dela. Amava outras que não a ela. Apaixonava-se por outras mentes, por outros becos..
E isso era demasiado doloroso. Ainda assim...quase jurava ouvi-lo gritar.
Num último momento de amor lançou-se no abismo da sua mente e entregou-se totalmente à febre e à doença que a iria consumir como ela o tinha consumido para sempre.

Publicado por Fairy_morgaine em março 23, 2004 04:06 PM
Comentários

?????? Este transcende-me

Afixado por: wind em março 23, 2004 06:25 PM

assustador. mas belo.

Afixado por: fernando esteves pinto em março 23, 2004 07:19 PM

É um ensaio muito lindo.
Profundo, assustador se fosse levado à letra.
É escrita. É criatividade.
O sentimento do vazio muito bem agarrado.
CIÚME!....

Afixado por: João Norte em março 23, 2004 08:12 PM

assustador, mas belo como sempre.

Afixado por: fernando em março 24, 2004 10:22 PM

este texto devia chamar-se "a consumição".. :)

Afixado por: Alexandre Monteiro em março 25, 2004 10:06 PM