março 22, 2004

o mar branco

O papel na tua mão.
A caneta na minha.
Há sempre uma fragmentação de nós
em nós mesmas.
Há sempre uma voz na noite a
sussurrar-me palavras
aveludadas que sangram e pulsam
nas minhas mãos.

A caneta presa nos teus cabelos
e no meu imenso respirar um pássaro
que voou desses dias para os meus.
As minhas tardes compassadas e mortas.

O papel junto das minhas narinas,
o perfume intenso a amanhã,
míudos na rua, míudos pequenos,
grandes, miseráveis, todos eles
cheios, totalmente inebriados
com essa vida, esse deslizar de tempo
que ainda é todo deles.

E já tão pouco nosso.

E o mar é sempre azul.

Mas naquela manhã tu disseste que o mar era todo branco
e eu acreditei.
Porque só tu me farias acreditar
que o branco das nuvens se pode espelhar no mar
e transformá-lo no papel
que agora me entregas
pedindo-me com um sorriso
que escreva e dê asas aos míudos,
aos míudos que são donos do tempo,
a quem dizem sempre que têm todo o tempo
do mundo para serem tudo
o que nós não conseguimos ser.

Embora também tenhamos sido míudos
e o tempo se tenha deitado suave no nosso colo.

O mar era azul e tu reeinventaste-o em ti...
Todo branco e prata.


E eu... Eu mais não consigo que
gritar que o mar é branco mas devia ser azul
e enlouquecer perante essa evidência
que em ti nada é como deveria ser e porém
é tão delicadamente perfeito.

Publicado por Fairy_morgaine em março 22, 2004 05:51 PM
Comentários

O mar é azul e salgado:))))) Acredita;)

Afixado por: wind em março 22, 2004 06:29 PM

seremos duplos de nós mesmos?

Afixado por: fernando esteves pinto em março 22, 2004 08:35 PM

Tal como todos e todas que fazem criação ao mais alto nível, podes inventar a cor dos mares. Brancos, qd explodem em rebentações, azuis, amarelos. Tu pintas o mar e as nossas emoções, com as tuas ousadias.
Como se escreve bem ,por aqui!
Posso deixar-te um beijo?!
(Já deixei)

Afixado por: AcasoDeLetras em março 22, 2004 10:11 PM

ola, não sei se vais conseguir ler, mas não resisto em comemtar este poema.

Demonstra um sentimento nostalgico, saudade, talvez por já não seres criança e por isso não poderes extroverter as fantasias que tens que qdo somos pequenos e nos ficam bem, mas qdo somos maiores, não. Só o amor da pessoa amada se consegue superar essa imposição social, dito por ela e com ela, para ti tudo é possivel e fiavel e o objecto é idealizado para a pureza, termina com as utopias e determina o absoluto, a perfeição, a realização pessoal além da realidade.
Isso é amar.
parabéns-Ana Mª Costa

Afixado por: ana Mª Costa em março 23, 2004 08:59 AM