março 18, 2004

Egoísmo

Olho-os nos olhos, aqueles que escondem as almas, e pergunto-me saberão eles que me arrasto tão gorda de poesia?
Ela cresce-me no ventre, como se eu fosse dela, uma pequena escrava dos seus caprichos e vontades.
Existem dias assim. Dias em que ela me exige cada suspiro, cada respirar e não me deixa enquanto não me souber arfante pelas suas investidas violentas.
Como podem eles viver sem esta sensação de gravidez eterna, de palavras a nascerem-me pelos dedos, pelos olhos, pela boca...
Saberão eles o prazer que é limitar uma linha, atravessá-la com um ponto final, cortar a respiração do leitor e assassinar a heroína, desligá-la da vida como uma boneca de trapos demasiado inútil?
Sinto-me tão longe de todos os que não sabem o que é este constante arrepio de letras a crescerem dentro da minha carne...
Como se vivesse num mundo à parte e já ninguém me conhecesse.
É esta a solidão mais implacável... A de ser de um mundo que não é nosso. Que não conseguimos aprisionar por entre letras e tinta da china.
Nem tu me podes acompanhar nestes momentos de criação. Nem tu sabes o que é.
E por isso mesmo odeio-te.
Odeio-te porque não me podes amar. Não me podes amar a mim, poeta, incompreendida (todos os poetas são incompreendidos no ténue equilíbrio entre o grito e o silêncio), menina, mulher, cruel, fatalmente nua.
E no entanto quero que me tomes. Quero que apagues de mim este anseio de pele. De uma pele ainda não chicoteada pela intensa urgência das palavras.
Porque eu estou irremediavelmente perdida para este mundo... Estou perdida na minha mente, obcecada com a beleza dos meus próprios abismos. Vejo-me ao espelho e embalo o meu corpo à espera do dia em que chegará a palavra perfeita, a frase única. O MOMENTO.
Nesse momento estarei sozinha como estou agora. Como estive no nascimento e estarei na morte. Porque o ser humano é isto mesmo. Egoísmo...

Publicado por Fairy_morgaine em março 18, 2004 06:37 PM
Comentários

Já não me surpreendo, quando os teus gritos de silêncios se ouvem a milhas de distância.
A mim, chegam-me sempre.
Como te entendo!
Mas tu, que maravilhas fazes com as palavras, o que fazes dos gritos e dos silêncios? - Deixa-me responder-te: textos belissimos, que se querem sempre ler de novo.
Sabes o que fazes aqui, neste estranho mundo da blogosfera? - Passeias toda a tua classe, a tua enormissima criatividade. E fazes sonhar quem te lê. Assim, todos/as te entendam.
Um "obrigado" é muito pouco para aquilo que nos dás.
Beijos...

Afixado por: AcasoDeLetras em março 18, 2004 06:45 PM

Não fairy, não somos egoistas. Talvez tenhamos é de sobreviver:) Cada dia escreves melhor, os teus gritos são "ouvidos";)Engraçado como primeiro comentei o outro, escrevi "alma" e aqui encontro essa palavra. Não acredito em coincidências:) O "momento" ou "momentos" são para se partilharem. As tuas palavras saem dilacerantes, mas tens quem as leia:) Logo ( conclusão lógica) não estás sózinha:-)

Afixado por: wind em março 18, 2004 07:04 PM

Nos dicionários, na definição de dor (e poesia pq são o mesmo) deviamos de encontrar este teu poema... adorei maninha, simplesmente magnifico.

Afixado por: Ricardo em março 18, 2004 08:11 PM

...às vezes (quase sempre) venho aqui silenciar os meus gritos... e que bem que fico depois de te ler... um beijo e uma flor...

Afixado por: quim em março 18, 2004 09:18 PM

"Os dedos não são tão lestos quanto o pensamento. Algumas palavras fogem. Mas sei que irão ao encontro de ti. Abre o teu regaço e colhe-as todas.

Verás palavras de todas as cores, feitios, origens!
Apenas todas te dirão:os gritos serão silenciados."

Só agora me foi posivel vir ao teu espaço de gritos e silêncios.
Andei toda a manhã na rua.
Reli. Li outros posts mais antigos.
Como é possivel escrever-se tão bem?!
"Venho, grito e ouço os silêncios. Prenhes de ruídos." E gosto.
Bjs

Afixado por: AcasoDeLetras em março 19, 2004 01:09 PM

Que bom que tive este imenso prazer de receber tua visita, assim tenho a opostunidade de ler teus belos escritos. Às vezes é no silêncio que gritamos mais alto, é no silêncio que dizemos as mais puras verdades. Amei ler os teus textos.Beijinhos e volte sempre que desejar,

Afixado por: Anne em março 19, 2004 01:17 PM