Nunca há tempo
Nunca há tempo para se ter tempo para sermos nós.
É tudo demasiado fugaz.
São apenas momentos de lágrimas
que nos caem pela pele branca
e se aninham finalmente nos nossos finais
de dia.
O dia hoje acabou mais cedo.
Acaba sempre quando a Primavera
se esquece de o provar.
De lhe sentir o trago.
E nós nunca temos tempo.
O relógio da sala é demasiado célere
no seu aprisionar das horas
e eu ouço-o tocar todas as badaladas à uma.
Assim é mais rápido e mais eficaz
diz-me ele, como para se desculpar,
e continua o compasso de espera,
de espera pela palavra
que ainda não expeliste...
E eu pensei que seria hoje finalmente.
Enganaste-me de novo.
Nunca há tempo, dizes tu,
e calças as luvas,
aquelas luvas negras que te ofereci naquela
madrugada em que me trincaste os dedos.
Afastas-te de novo.
Eu sei que voltas, grito-te eu
desesperada pela palavra que me negas
o sentimento que me escondes,
as portas em ti que me fechas.
E tu murmuras...
Volto sempre, amor.
Volto sempre quando julgas que poderás
repousar nos ponteiros do relógio da sala.
silvia
Publicado por Fairy_morgaine em março 18, 2004 06:25 PM