A alma do silêncio
Deixo um poema já antigo mas que quero partilhar convosco... Bem haja a todos. E bons gritos na ausência do silêncio.
A alma do Silêncio
As pessoas que conheci sentadas no café
com chávenas numa mão e na outra um livro qualquer
do autor da moda, as pessoas que conheci
deitadas comodamente na praia a rabiscar uma
qualquer revista com a programação semanal,
as pessoas que conheci em diversos lugares
disseram-me que o silencio é temido e evitado
a todo o custo em qualquer corte que se preze.
Todos os cavaleiros que erguiam as suas espadas
em defesa do reino sabiam que não se podia deixar navegar
o silêncio. Era no silêncio que viviam todos os enganos.
Era no silêncio que habitava o estranho conhecimento.
Aquele vago saber que ninguém deveria tocar.
O som da musicalidade secreta. O violino sempre ausente
na orquestra da corte. Todas as damas que se prezavam
sabiam e tomavam por certo
que o silêncio não era para ser mencionado
no chá da rainha.
Cada camponês honesto e ignorante sabia, mesmo
sem saber contar ou ler, que o silêncio era o o inimigo
de todos os bons homens, daqueles que nascem e morrem
sem qualquer momento para assinalar.
O Rei sempre afirmou que o
silêncio era morada de vícios e terríveis pecados.
Só o menino da estrebaria não se lembrava desse
ensinamento essencial à sobrevivência.
Umas vezes conversava com os cavalos.
Outras sentava-se a ouvir o silêncio.
A senti-lo.
A prová-lo.
A ergue-lo nas mãos sujas.
Sempre que alguém entrava de rompante
o menino escondia as mãos atrás das costas e sorria
um sorriso pleno de silêncio.
Mas as pessoas do reino não sabiam o silêncio
e olhavam-no desconfiadas, de sobrolho carregado.
Comentavam algo que não rompia a parede de silêncio
do menino e partiam com as mãos torcidas e esgares
de uma qualquer palavra nas faces.
Depois...depois era sempre o saboroso silêncio.
(o erróneo, o quebrado, o amargo, o sentido silêncio)
O menino escorria o silêncio nos seus cavalos
favoritos e via os seus olhos grandes mudarem de cor
para aquele violeta-sagrado-silêncio.
O menino brincava de mago e sorria
de mãos dadas com o silêncio,
os dois tropeçavam um no outro
em rodas de cha-la-la.
Mas há sempre uma palavra.
Há sempre o fim.
Há sempre o homem que denuncia.
E o menino foi levado à presença
dos olhos inquisidores do Rei.
Afinal ele devia saber que o silêncio é
o arauto da desgraça.
Ele é o infiel, o adúltero, o para sempre amaldiçoado.
O menino ouviu cada acusação com os seus olhos
violeta-sagrado-silêncio
e no final abriu as mãos sujas
e delas voaram duas borboletas.
O Rei ergueu-se e com voz alterada condenou-o
à Morte.
Ninguém na sua presença ia libertar borboletas
impunemente.
Acenderam-se as fogueiras...
Aguardou-se o grito.
Mas o menino, eterno amado do silêncio
apenas sorriu.
O corpo tombou nas cinzas
e dos olhos violeta-sagrado-silêncio
nasceram duas lágrimas, dois pássaros libertos
no céu azul-tristeza.
Nesse dia decretou-se que o silêncio também
tinha uma alma
e que essa alma chorava de dor pelo menino
de olhos violeta.
silvia
21-08-03
Publicado por Fairy_morgaine em março 14, 2004 09:55 AM