março 14, 2004

A alma do silêncio

Deixo um poema já antigo mas que quero partilhar convosco... Bem haja a todos. E bons gritos na ausência do silêncio.

A alma do Silêncio


As pessoas que conheci sentadas no café
com chávenas numa mão e na outra um livro qualquer
do autor da moda, as pessoas que conheci
deitadas comodamente na praia a rabiscar uma
qualquer revista com a programação semanal,
as pessoas que conheci em diversos lugares
disseram-me que o silencio é temido e evitado
a todo o custo em qualquer corte que se preze.

Todos os cavaleiros que erguiam as suas espadas
em defesa do reino sabiam que não se podia deixar navegar
o silêncio. Era no silêncio que viviam todos os enganos.
Era no silêncio que habitava o estranho conhecimento.
Aquele vago saber que ninguém deveria tocar.
O som da musicalidade secreta. O violino sempre ausente
na orquestra da corte. Todas as damas que se prezavam
sabiam e tomavam por certo
que o silêncio não era para ser mencionado
no chá da rainha.

Cada camponês honesto e ignorante sabia, mesmo
sem saber contar ou ler, que o silêncio era o o inimigo
de todos os bons homens, daqueles que nascem e morrem
sem qualquer momento para assinalar.

O Rei sempre afirmou que o
silêncio era morada de vícios e terríveis pecados.

Só o menino da estrebaria não se lembrava desse
ensinamento essencial à sobrevivência.
Umas vezes conversava com os cavalos.
Outras sentava-se a ouvir o silêncio.
A senti-lo.
A prová-lo.
A ergue-lo nas mãos sujas.

Sempre que alguém entrava de rompante
o menino escondia as mãos atrás das costas e sorria
um sorriso pleno de silêncio.

Mas as pessoas do reino não sabiam o silêncio
e olhavam-no desconfiadas, de sobrolho carregado.
Comentavam algo que não rompia a parede de silêncio
do menino e partiam com as mãos torcidas e esgares
de uma qualquer palavra nas faces.

Depois...depois era sempre o saboroso silêncio.

(o erróneo, o quebrado, o amargo, o sentido silêncio)

O menino escorria o silêncio nos seus cavalos
favoritos e via os seus olhos grandes mudarem de cor
para aquele violeta-sagrado-silêncio.

O menino brincava de mago e sorria
de mãos dadas com o silêncio,
os dois tropeçavam um no outro
em rodas de cha-la-la.

Mas há sempre uma palavra.
Há sempre o fim.
Há sempre o homem que denuncia.

E o menino foi levado à presença
dos olhos inquisidores do Rei.
Afinal ele devia saber que o silêncio é
o arauto da desgraça.
Ele é o infiel, o adúltero, o para sempre amaldiçoado.

O menino ouviu cada acusação com os seus olhos
violeta-sagrado-silêncio
e no final abriu as mãos sujas
e delas voaram duas borboletas.
O Rei ergueu-se e com voz alterada condenou-o
à Morte.

Ninguém na sua presença ia libertar borboletas
impunemente.

Acenderam-se as fogueiras...
Aguardou-se o grito.
Mas o menino, eterno amado do silêncio
apenas sorriu.

O corpo tombou nas cinzas
e dos olhos violeta-sagrado-silêncio
nasceram duas lágrimas, dois pássaros libertos
no céu azul-tristeza.

Nesse dia decretou-se que o silêncio também
tinha uma alma
e que essa alma chorava de dor pelo menino
de olhos violeta.


silvia
21-08-03

Publicado por Fairy_morgaine em março 14, 2004 09:55 AM
Comentários

Vou sentir a falta dos teus silêncios.
Temo que sejam ruidosos silêncios.
Virei vê-los todos os dias, mesmo na tua ausência.

Um bj

Afixado por: AcasoDeLetras em março 14, 2004 06:53 PM

Gostei de passar por aqui e voltarei. O silêncio muitas vezes tem muito a dizer...Um beijo.

Afixado por: Anne em março 14, 2004 06:56 PM

Belo... E não comento mais:)

Afixado por: wind em março 14, 2004 09:12 PM

Ainda bem que o partilhaste coonosco:) Adorei

Afixado por: encandescente em março 15, 2004 08:22 AM

Obrigada... É um poema que me diz muito. Gosto muito dele :D
Há dias assim. Em que criamos laços com o que escrevemos e temos um carinho maior do que com outros textos. Como um filho que exige mais atenção. Bjos

Afixado por: fairy_morgaine em março 15, 2004 09:10 AM