março 05, 2004
O sonho
Ali estava ele. Tinha corrido tão rápido quanto os seus pulmões lhe permitiam.
Tinha-a deixado finalmente. Agora podia voltar a ser simples humano...
Ela estava demasiado longe. E no entanto, ainda sentia o sabor das mãos dela nos seus lábios. Agora que pensava nisso queria tê-la beijado... Como podia ser tão cobarde???
Tinha-a tido ali tão perto, a pele alva, as mãos pequeninas, o corpo quente, sedento, os lábios entreabertos, os olhos semi-cerrados enquanto lhe cravava a faca no coração...
Sabia que estava irremediavelmente perdido.
Queria amá-la... Queria TÊ-LA... Queria tomá-la e penetrá-la tantas vezes até que o seu esperma lhe escorresse insaciado pelas pernas.
Não. Agora era demasiado tarde. Ia voltar para os braços da outra. Ela era tão menos complicada. Era apenas uma mulher. Não era um espectro enlouquecido de fome e insatisfação...
Queria que a outra lhe fizesse um broche naquele preciso momento. Talvez assim se esquecesse dos olhos dela. A profunda desilusão. Os dedos. O corpo.
Tinha-a deixado.
Não havia retorno. Agora só precisava lavar o rosto e apresentar-se no dia a seguir no emprego e seguir a sua vida e esquecer as teias que ela tecera em redor de si mesmo.
Arrastou o corpo... FODA-SE...Porque não tinha ele abraçado ao menos o corpo febril dela?
Porque não tinha ele torturado os seios dela com beijos? Porque não a tinha feito sua? E ela...que tinha sido dele como nenhuma outra... As suas psiques entrelaçadas.
Preciso de facto de um broche, pensava ele, enquanto se arrastava pelas ruas da cidade... Pensou se saberia voltar ao covil dela.
Ela... Ela... Não se lembrava de um nome... De nada. Só das suas mãos a perscrutarem todos os seus espaços.
Tropeçou e deixou-se cair... Não tinha dito ao menos um adeus. Nada... Mas ela era o seu pecado...
Ele não a podia ter!... NÃO PODIA... Tinha de se afastar, ela era tão tentadora, toda ela promessas de uma vida tão diferente...
Sentia uma profunda falta da sua voz... Dos seus jogos mentais. Dos seus eternos porquês... Sentia-se vazio...
Mas eu tenho um emprego pensou ele em voz alta, uma vida, um caminho, um destino, estou condenado!!! CONDENADO a estar aqui...
Subitamente... elas vieram. As lágrimas. Invadiram-lhe o rosto, as mãos, a camisa, o peito... Tudo. Deixei-a... Deixei-a... e eu fiquei lá...
Estou morto... que me importa o emprego??? gritou ele, completamente louco de ausência, tomado por uma febre súbita, não podia, não podia deixá-la... Ela era tudo para ele... Que sa foda tudo... gemia ele totalmente entregue aos soluços que o varriam...
ONDE ESTÁS??? o desespero tomava-o e gritava pelas ruas como um demente...
Nada fazia sentido. Nada. Só ela. Só a voz dela. O seu cheiro a jasmim...
E então o solo abriu-se numa fenda profunda e ele caiu... Caiu num abismo sem fim. Quando finalmente se sentiu aterrar na relva molhada pensou estar no centro da terra. Mas não. Estava no centro de si mesmo.
Correu... Correu. Ela tinha de estar ali. Ela era parte dele.
Porque não tinha ele coragem de lhe dizer? Porquê? Porque era cobarde? Se nada mais importava...só o sorriso dela.
Então ouviu. A ténue respiração. Os cabelos negros a cairem-lhe na face, a esconderem-lhe os olhos grandes.
Aproximou-se devagar com medo que ela se desvanecesse à sua frente. O perfume a jasmim invadiu-o... Meu amor gemeu ele e deixou-se cair ao lado dela, as mãos nos ombros dela enquanto a puxava para si. Mas ela não o ouvia. Estava tão pálida... Tão mortalmente pálida.
Não me deixes sussurrou-lhe ele e estreitou-a contra o peito enquanto a semeava de lágrimas. Agora não... Eu sou teu... Ficarei aqui para sempre... Enquanto me violas, me rasgas, me abres...
É tudo o que desejo...
Ela entreabriu os lábios, molhou-os com a ponta da língua e num suspiro vago sorriu-lhe e tocou-lhe o rosto... Então voltaste? e a pergunta exigia-lhe tanto esforço...
Eu amo-te... murmurou ele junto dos seus lábios... EU AMO-TE... gritou ele desesperado.. Não morras... não agora... e as lágrimas caiam-lhe pelo rosto, iam depositar-se nos seios dela.
Eu sou teu...
Segurou-lhe na mão e nela depositou-lhe a faca.. Corta-me amor, corta-me de novo, tatua-me com o teu nome, faz-me teu, diz qualquer coisa.. mas não me deixes...
Mas era tarde. É sempre tarde. E ela deixou os olhos fecharem-se-lhe num último e derradeiro sonho.
Publicado por Fairy_morgaine em março 5, 2004 11:02 PM
Vinha espreitar que terias escrito e fico sem folego, fiquei mesmo!! fairy que texto:)) adorei é só e um eh pá gosto de ti assim!!
arrepia. muito bem escrito. parabens.
Muuuuito bem escrito... no entanto no meio de tal espetaculo artistico gostava de salientar uma frase digna das minhas:
"Preciso de facto de um broche, pensava ele, enquanto se arrastava pelas ruas da cidade..."
ASSIM SIM! ;)
Estou há espera da continuação....
fairy, demais! Arrepiei-me e li de um só fôlego, quase não respirei, caramba. Muitoooooooooo bom. Não é somho o que leio, é real:)
Errata: é sonho e não, somho:)
Encandescente... :) Obrigada pelo comentário delicioso. Começo a deixar a imaginação criar os seus próprios personagens e dar-lhes vida. Mordaz, tu que és mestre das fachadas e das máscaras, ainda bem que gostaste. Piu... se não fosses tu esta continuação não existia. Estás interlaçado no texto e ele em ti. Wind tu és presença assídua, sem ti não há post que se preze! Finalmente, mas não em último Alientejano..essa frase foi só para ti dedicada devido ao Fraude ;) Bjo a todos e obrigada
Não é uma surpresa a qualidade do texto.
Já nos vais habituando à qualidade intrinseca.
Apetece-me parafrasear-te: "será apenas um texto literário, ou um amor verdadeiro?"
Bjs
Um amor verdadeiro fará com que se escreva um texto literário? É claro que sim.:) E não é sonho, é uma realidade sem ser com um "grito de silêncio".;) É um "grito que se ouve muito bem":-)
ufa.. relendo. a mesma força de princípio ao fim. perfeita captura de sensações. parabéns.
Acaso.. Deixo ao vosso critério. ;) Mordaz é sempre bom saber que nos (re)lêem. Sinal que gostaram. Wind é claro que um amor inspira textos literários. Fernando uma palavra e tanto sentido. Obrigada a todos.
simplesmente genial. até faz chorar belo
abraços