março 04, 2004

O último reduto de inocência

Fica - pediu ela desesperadamente, as mãos em concha em redor da esfera que era o âmago do outro.
Deixa-me ao menos escrever em ti o meu nome para que jamais me esqueças - e suavemente, com uma navalha reluzente cortou-lhe as entranhas e nem mesmo o gemido que brotou dos lábios do outro a fez recuar... És tão belo... tão imperfeitamente labirintico, murmurava incessantemente enquanto o sangue rubro lhe escorria pelas mãozinhas inocentes. E cravava mais fundo...
Quero que te lembres de mim para sempre, que tenhas algo meu, algo teu, algo... rezava ela, uma ladaínha sagrada, um sussurro apenas e iniciava no outro a marcha lenta da mudança, da inevitável mutação que sempre se opera quando dois seres incomuns se juntam, se tocam, se revelam...
Não... não quero que chores e beijava-lhe os olhos enquanto lhe violentava a mente, se espraiava nos seus segredos e nuances... Não sabes... não imaginas como te quero abrir, tomar, tocar, dar-me, sorrir-te, lamber-te, comer-te... Deixar-te num grito ímpar, num momento de criação... Criar em nós os laços eternos do conhecimento...
Beijava-lhe o cérebro, engolia-o num arfar constante, num ritual quase carnal, quase louco... Sim... abre-me como se me descobrisses a pele, toma o coração nas mãos e aperta-o, sente-lhe o pulsar, eu sei que o queres abrir com uma faca, ver como funciona, ver o interior, revirar-me por dentro...perscrutar-me...
Deitaram-se finalmente ao lado um do outro à espera do amanhecer e ele murmurou-lhe ao ouvido: "é aqui o fim, o momento da partida, o final dos segredos, dos labirintos, das revelações... é aqui a encruzilhada em que nos abandonamos e continuamos cada um num trilho diferente"....
Sim... disse ela e lambeu a lágrima que escorreu do rosto dele, pura, cristalina, o último reduto de inocência dos seus corpos febris...
Engravidaste-me das tuas dúvidas... gemeu ela, e eu abortei esse filho inesperado, esse começo do fim dos dias do reino da psique, abortei-o e quando me levantei escorreste-me pelas pernas, num misto de sangue e lágrimas, e restou isto, sorriu ela, estendo-lhe nas mãos abertas a semente da árvore que para sempre corrompeu a humanidade.
E ele tomou-a nas mãos e num último respirar sofreu a última mutação... transformou-se num ser humano e partiu. Partiu para a sua vida, para ter os seus filhos e os seus orgasmos e não sementes de árvores e lágrimas de cristal.
Ela deitou-se. À espera. À espera que ele voltasse. E a tomasse. E a abrisse de novo, a engolisse, a matasse talvez, mas não a deixasse ali, na fria morbidez do vazio de palavras.
Se ele voltou? Não sei. Se ela morreu? Também não. Subitamente, a escritora rasgou as últimas folhas do livro, apenas para que as pessoas pudessem sonhar o seu final... Ou para não ter de escrever a dura palavra f i m.

Publicado por Fairy_morgaine em março 4, 2004 09:30 PM
Comentários

Estou sem palavras. Simplesmente genial, belo...
Parece que cada dia estás melhor, fairy:)
Ps: Não consigo ver Avalon, aparece-me em código, que se passa?
bjs

Afixado por: wind em março 4, 2004 09:52 PM

já consegui ler "Avalon":)

Afixado por: wind em março 4, 2004 10:25 PM

inquietante

Afixado por: fernando esteves pinto em março 4, 2004 11:38 PM

como diz o Fernando inquietante mas escrito de uma tal maneira que é belo. Sei que entendes:) Gostei muito fairy e sim como disseste no "outro lado" há um reconhecer de almas e gosto:)*

Afixado por: encandescente em março 5, 2004 06:02 PM

ficamos presos até ao fim deste (conto)como se fosse uma (droga)que não podemos largar.
genial

Afixado por: fernando em março 13, 2004 01:17 AM